
Uma mini reunião do foro de São Paulo foi realizada no Chile nesta semana. No encontro, o presidente Gabriel Boric recebeu Lula, o colombiano Gustavo Petro, o recém-eleito líder uruguaio Yamandu Orsíni e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. Nicolás Maduro não foi.
Com críticas aos supostos abusos às liberdades democráticas, que eles mesmos cometem dia após dia – em especial Lula e Petro –, os presentes assinaram o documento “Democracia sempre”. Seria cômico se não fosse verdade. E o pano de fundo é o incômodo crescimento do conservadorismo e da direita no mundo.
A primeira pergunta é: o que o espanhol estava fazendo aqui no ninho de antidemocratas convictos como Lula e Gustavo Petro?
Pedro Sánchez, do PSOE (Partido Socialista Obreiro Espanhol), eleito em 2018, também está preocupado com o avanço conservador.
Não goza de boa popularidade em seu país. Nem no parlamento, muito menos entre os populares, devido ao seu apoio a grupos separatistas e à lei da anistia em favor de independentistas catalães acusados e condenados pela tentativa de separação da Catalunha, em 2017. Separatismo é assunto polêmico na Espanha e não tem apoio da maioria.
Mesmo assim, o ateu Sánchez – fato curioso num país majoritariamente católico – se mantém no posto com apoio dos que querem a divisão do país. Um contrassenso daquele que deveria, por princípio, unir. A agenda progressista tem incomodado muito os espanhóis.
Mas a questão que mais lateja na mente é o conteúdo estranho do discurso de Lula durante o evento. O que ele quis dizer sobre “cumprir o ritual eleitoral a cada quatro ou cinco anos não é mais suficiente”? Será que ele pretende estender seu caótico mandato com a ajuda do STF? Copiando Vladimir Putin, que alterou a constituição do país para se perpetrar no poder ad eternum? Estariam as eleições de 2026 ameaçadas?
Não é difícil que isso ocorra por uma canetada do Alexandre Magno tupiniquim. Justo a eleição que decretará o fracasso colossal de Lula e do PT nas urnas. Será?
A velocidade com que o STF tem cerceado Jair Bolsonaro, sob qualquer pretexto, a ponto até de colocar tornozeleira eletrônica nele, para restringir sua liberdade de estar nas ruas, participando de movimentos, dando entrevistas e falando para o público, é uma resposta clara ao medo que esse regime ditatorial tem. Nos bastidores do poder as conversas devem ser bizarras.
Esse temor é tão presente que Lula recita o nome de Bolsonaro em verso prosa dia e noite. E o cita como culpado de todas as ações desastradas que toma na economia. Não há um discurso sequer que não o mencione — e já tem quase três anos.
O evento no Chile é mais uma prosaica milonga da esquerda de olhar para trás e dizer que só com eles a democracia está garantida e que não querem mais regimes militares de exceção, mas flertam com as ditaduras civis comunistas. A diferença é só a farda.
O que as ditaduras de 40 anos atrás fizeram nos conhecidos anos de chumbo na América do Sul não foram nada dignificantes. Mas nem de longe se assemelham às soviética e chinesa em crueldade. Aqui, o argumento comum a todas era sufocar as guerrilhas e a ascensão do comunismo no continente, em tempos da Guerra Fria.
E quem pode falar de disso com propriedade é o Chile, que teve mais de 3.000 vítimas entre mortas e desaparecidas (dados do estado chileno), durante a ditadura de Augusto Pinochet, de 1973 a 1990. A mais longa e truculenta de todas.
Na Argentina, o golpe militar de Jorge Videla, em 1976, depôs Isabel Perón, em meio à uma grave crise econômica e a expansão de atividades das guerrilhas dos Montoneros e do Exército Revolucionário do Povo. De lá para cá, a esquerda peronista promoveu a miséria e colocou o país num poço sem fundo.
No Uruguai, em 1973, o presidente Juan Maria Bordaberry fechou o congresso e liderou um golpe cívico-militar em resposta às tensões sociais no país, a ação de movimentos guerrilheiros urbanos (Tupamaros) e a crise econômica. A ditadura uruguaia acabou em 1985.
A Colômbia é um caso à parte. O país vive em eterna turbulência, ora sacudida pela política, ora pelo narcotráfico e agora pelos dois juntos.
Com o ex-guerrilheiro do M-19 Gustavo Petro no poder, a nação colombiana se transformou num narcoestado.
Lá ocorreram três golpes de estado no século passado, guerra civil, seis candidatos a presidente foram assassinados e por último, em junho passado, uma tentativa de homicídio retirou da corrida eleitoral o pré-candidato de direita, Miguel Uribe. Baleado com três tiros. No país todos acreditam que Petro está por trás do crime. Os cartéis de drogas sempre representaram um poder paralelo na Colômbia.
Já que Pedro Sánchez estava no encontro, vale lembrar o que foi a ditadura espanhola. O caudilho Francisco Franco, no poder de 1936 a 1975, levou o país a uma sangrenta guerra civil que durou três anos, deixando entre 150.000 a 400.000 vítimas. Pessoas eram assassinadas por pelotões de fuzilamento. A ditadura franquista flertou com Hitler e foi um das mais sanguinárias do século XX.
Aqui, a ditadura militar durou 21 anos, de 1964 a 1985, com generais se alternando no poder. Inegável que houveram excessos e restrições às liberdades democrática e de expressão, com cerca de 400 vítimas entre mortos e desaparecidos (registros do estado), muitas das quais envolvidas em luta armada.
Nenhum regime de exceção é aceitável. Nem de direita, nem de esquerda. E agora o que estamos vivendo no Brasil é uma ditadura judicial de esquerda, com um presidente fantoche, um parlamento calado por líderes comprados e as forças armadas envergonhadas. E o Brasil de Lula flanqueado com o eixo das ditaduras de esquerda. E a história não acabou.
Se é para falar de “Democracia sempre”, que seja de fato, com o escrutínio público, pelo voto popular livre, auditado. Em 2026 vamos comprovar se o papo do Chile é mesmo para valer.

