Quando o domingo passou a ser o melhor dia da semana


Era aos domingos. Nós nos encontrávamos ali. Uma “sociedade secreta”. Os carros estacionados entre aquele verde suave ao redor da casa com laranjeiras enfileiradas. Não prestei muita atenção se eram laranjeiras mesmo. Como o coelho da Alice , eu tinha pressa em entrar. E como a Alice, ali era o “país das maravilhas”: um mundo a ser descoberto.
Inverno. Noite. A lareira acesa e ele sentado em sua cadeira. Figura magra, de feições suaves, olhos profundos e indagadores. Sábio, guardava em si a História, a do país, de uma época e a sua própria. Íntegro, determinado. Delicado. Tinha uma curiosidade dessas que significam vida: a curiosidade do saber, de trocar ideias e aprender. Não foi destinado à solidão. Mas, sozinho pensava que podia ter sido diferente, aqui ou ali, essas coisas que as pessoas do bem pensam, mudar certas atitudes, fazer diferente. Ás vezes naquele momento, não sabemos ou não podemos fazer diferente.
Discreto guardava em si a determinação e a responsabilidade que coube a ele como almirante, um dos homens-chave do presidente Ernesto Geisel.
Um menino quando ria e falava descontraído de música, adorava tocar violão e cantar. Inacreditável que tivesse tanta vida com a saúde tão debilitada. E nunca o vi reclamar.
Quantos aguentariam? Quantos se elevariam acima da limitação física para continuar a descobrir, a saber, a sonhar, a pensar, a se comunicar, a aprender. Não, não é para qualquer um. E ele comandava o espetáculo, como num debate, ou como um regente de orquestra contagiado pela musica, pelos músicos à sua volta. Adorava a vida e as pessoas. Amava seus filhos, o neto. O filho que se foi novo e os filhos que adquiriu. Amava-os muito. E como não amá-lo…
Todos os domingos, era assim, encontros alegres, leves, divertidos. Ruídos de vozes, ideias, opiniões, sentimentos que grandes amigos tem um pelo outro. Recebia todos que chegavam da mesma forma, mas a senha para permanecer era silenciosa: entre almas, entre ideias, entre questionamentos e bom humor.
Não, o ser humano não sabe perder quem ele ama sem ficar triste. E a maioria não percebe a sua limitação humana e não sabe fechar aquele departamento do coração que diz que a vida é eterna e vamos adiante. Ponto. Deixa em aberto e busca respostas em “hospitais” no além, e cada um com seu criacionismo.
Mas não cabe aqui. Caberia em muitos domingos à noite ali com ele.
Fato é que os domingos no sítio, à noite, regidos por você, almirante, meu querido Claudio, escrevi um dos melhores capítulos da minha história. Que aprendizado: nada nesta vida é melhor do que a simples vontade de estar junto pelo que cada um é, para falar e para ouvir, para rir e refletir, para repensar: obrigada pelo exemplo.
A cada domingo continuarei indo até você para encontrá-lo, e o médico, o coronel, o almirante “espanhol” e a jornalista, que sou eu. Porque entre amigos, a gente encontra a si mesmo. Continências eu troco pelo abraço apertado. E pelo muito obrigada. Ao invés de nome de rua, sugiro mudar o nome “domingo” para “Claudio”. Até Claudio, porque hoje é sábado. Então, até amanha!

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