
Falar de defesa nacional como um indivíduo não especialista é um pouco de ousadia. No entanto, é democrático que um tema dessa dimensão possa ser discutido pelo maior número de gente possível.
Esta semana, recebi um artigo que escrevi em O Pasquim criticando, quem diria, o velho Tancredo Neves. Ele havia passado pela Itália e anunciado que na Presidência iria fortalecer a produção bélica no Brasil, que, naquela época, já rendia US$ 3 bilhões em exportações. Minha crítica baseava-se no fato de que o tema era muito restrito ao poder, não havia uma discussão pública sobre o tema. Mas era, também, uma discordância em relação à produção de armas para exportar. O mundo naquele momento parecia rumar para a paz, havia um maior respeito das leis e convenções internacionais.
Mais tarde, como deputado, apresentei projeto proibindo a exportação pelo Brasil das bombas de fragmentação. Havia uma campanha mundial contra elas, inclusive com a participação da princesa Diana. Essas bombas nem sempre explodem, e ficam no terreno como uma ameaça permanente, inclusive contra crianças. O projeto foi rejeitado duas vezes, sempre em nome dos empregos que a produção dessas bombas promove.
As coisas têm mudado e, com elas, mudam também minhas ideias sobre defesa. O ministro José Múcio disse recentemente algo que merece reflexão. Segundo ele, estamos tão mal equipados militarmente que, em caso de invasão americana, seria melhor abrir os portões. Discordo dessa frase, mas tenho um grande carinho pelo ministro, com quem estive na Câmara dos Deputados.
Acho que ainda há tempo de fortalecer a defesa nacional a ponto de dissuadir qualquer tipo de invasão. Naturalmente, isso implica investimentos pesados em algumas áreas que hoje fortalecem a ideia de dissuasão: drones e mísseis. Existe um projeto de construção de mísseis pela indústria brasileira que necessita de uma inversão agora de R$ 400 milhões e, no total, de R$ 1,5 bilhão. Infelizmente, apesar da retórica de Lula também ter mudado, esse dinheiro não aparece. O atraso em projetos desse tipo, creio, acaba dando sentido à frase de José Múcio.
A situação deveria ser completamente distinta. A frase que deveria ser dita é esta: sim, temos condições de nos defender, desde que compreendamos a urgência e a amplitude dessa tarefa.
Creio que países como a Finlândia e a Suécia, vizinhos de Vladimir Putin, já disseram isso há algum tempo, e se preparam cotidianamente para dissuadir. No caso da Suécia, a indústria civil nacional também avalia o que fazer, como atuar em tempo de guerra.
Talvez o presidente Lula ainda não tenha compreendido todos os aspectos dessa grande tarefa, embora já tenha manifestado curiosidade e pedido estudos sobre o tema.
O Congresso passa por cima da discussão sobre defesa nacional como se ela fosse exclusividade dos militares, e aí está o grande equívoco. A defesa nacional depende dos soldados e de uma estrutura profissional. Mas ela precisa ser ajudada por toda a sociedade, o aparato econômico de todas as entidades nacionais. Sem uma liderança efetiva que mobilize a sociedade, dificilmente teríamos algo como a resistência na 2.ª Guerra Mundial, ou mesmo a vitória dos vietnamitas contra os invasores, franceses ou americanos. Essa preparação não tem nada que ver com pânico ou traços de paranoia. Ela precisa ser discreta, bem planejada, de forma que os atores saibam ao menos precisamente o seu lugar. Não há paranoia na Suécia, apenas um trabalho permanente, como têm os japoneses diante de possíveis desastres ambientais.
Arrisco a avançar um pouco no tema, com base na experiência. A defesa da Amazônia, por exemplo, dependerá de mísseis e drones em grande quantidade e de qualidade. No entanto, o Exército tem na Amazônia uma das melhores escolas de guerrilha do mundo. Por que não potencializá-la e formar também moradores da região? Há sempre o medo de que se voltem contra o governo. Mas é preciso administrar os riscos e constituir uma grande força de reserva sob o controle nacional. Se constituirmos uma grande barreira de mísseis e drones, presença nos rios e uma parte da população preparada para a resistência, a vida não será fácil para o invasor.
Tudo isso pode parecer meio delirante, fora da realidade. Mas é preciso discutir. A ideia de que o tema não importa ou mesmo de que é preciso ter apenas as Forças Armadas, sem questionar sua eficácia, na dissuasão não é adequada sobretudo para nossos tempos. E o problema central é que a tomada de consciência tardia pode nos custar muito.
Se a tese de que não vamos abrir os portões é válida, precisamos nos preparar para ela aqui e agora. As eleições são uma oportunidade para questionar não apenas os candidatos à Presidência, como também os que pretendem ocupar o Congresso. Até que ponto podemos contar com eles para que assumam suas responsabilidades e parem de empurrar o tema com a barriga, como se o mundo não tivesse mudado?
Continuaremos tendo a luta pela paz como o fundamento de nossa política externa, mediando, dentro das possibilidades, todos os conflitos para que sejam solucionados com o diálogo. A capacidade de dissuasão não é contraditória com nossa política de paz. Ao contrário, ela é seu complemento ideal.
Fonte: Blog do Gabeira

