16 de abril de 2026
Carlos Leão

Você é o improvável que deu certo

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Uma chance em 400 trilhões. Esse é o ponto de partida da sua história.

Há dias em que a vida parece Wi-Fi ruim: você sabe que tem conexão… mas nada carrega do jeito que deveria. Nessas horas, a gente esquece de um detalhe quase cômico — e profundamente grandioso — sobre a própria existência.

Como bem provoca o excelente Moa Baldi, que recomendo fortemente pelas suas elocubrações filosóficas, as probabilidades nunca estiveram exatamente a nosso favor… e, ainda assim, aqui estamos.

Pense comigo: tem gente que joga na loteria toda semana, sonhando com uma chance em dezenas de milhões. Outros entram em aviões sem pensar duas vezes, mesmo sabendo que estatisticamente não é “impossível” algo dar errado.

A gente atravessa a rua, dirige, vive — sempre driblando probabilidades que, em teoria, poderiam nos assustar.

Mas nada, absolutamente nada, chega perto da improvável façanha que é você existir.

Antes de qualquer sonho, medo ou boleto, houve uma corrida. E não foi uma corridinha leve de fim de semana. Foi uma maratona caótica, microscópica e feroz, com cerca de 500 milhões de concorrentes disputando uma única vaga. E não tinha medalha de prata. Era chegar primeiro… ou simplesmente nunca existir.

E, por algum motivo — talento, sorte, destino ou uma mistura generosa dos três — você venceu.

Sim, você. Não foi o “quase você”, nem o “talvez”. Foi você.

Isso não é teoria motivacional barata, por favor! Se não for ciência ou um milagre estatístico é, no mínimo, uma ironia cósmica muito bem elaborada.

E ainda assim, mesmo sendo resultado de uma probabilidade que faria qualquer apostador desistir antes de começar, a gente duvida do próprio valor. Questiona se merece amor, respeito, felicidade.

Como se alguém que venceu a probabilidade de existir – considerando todas as variáveis até a fecundação – estimada em algo próximo de uma em 400 trilhões, precisasse provar mais alguma coisa.

É curioso, não é? A gente não precisa ganhar na loteria — nós já somos o prêmio principal.

Talvez o problema seja que, diferente de um cheque milionário, a vida não vem com fogos de artifício todos os dias.

Ela vem em forma de café morno, risadas inesperadas, mensagens de quem a gente ama e momentos pequenos que, quando somados, fazem tudo valer a pena.

E é aí que mora o verdadeiro desafio: viver à altura dessa vitória improvável.

Não se trata de ser perfeito, nem de transformar cada dia em algo extraordinário (até porque ninguém aguenta esse nível de produtividade emocional).

Trata-se de perceber que existir já é extraordinário o suficiente — e que compartilhar essa existência com quem amamos é o que dá sentido à coisa toda.

No fim das contas, talvez a vida não precise ser grandiosa o tempo inteiro. Basta ser vivida com presença, com afeto e com um certo senso de humor — afinal, depois de vencer uma corrida tão absurda, o mínimo que podemos fazer é aproveitar o prêmio.

E, convenhamos, perder tempo duvidando de si mesmo depois de tudo isso… chega a ser um pouco deselegante com a estatística.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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