1 de maio de 2026
Carlos Leão

Pescarias no Pantanal – o luxo dos anzóis

As nababescas pescarias gourmet ficam entre o anzol, vinhos premiados e pernilongos premium.

Quase não reconheci Alyrio. Não pelos quilinhos a mais, isso é o de menos, mas pelo inchaço generalizado, digno de figurar em compêndios médicos como anasarca em estágio avançado, provavelmente causada por uma colisão entre o sol escaldante e um exército de pernilongos pantaneiros com sede de vingança.

Os braços estavam tão vermelhos que qualquer clínico desconfiaria de sarampo, rubéola ou até de uma reação alérgica a casamento.

Já os pés, tão inchados e rubros, fariam qualquer intensivista rabiscar “erisipela fulminante com falência renal iminente” sem pestanejar, ao menos até ver o sorriso aberto e pleno de quem voltou de uma semana pescando como se tivesse descoberto o paraíso.

E de fato, ele havia voltado de uma epopeia de sete dias no coração selvagem do Pantanal. A travessia começou em Goiânia, num monomotor cuja fuselagem datava da mesma época que Santos Dumont usava bigode de cera.

O avião era tão pequeno que oito pescadores precisaram revezar as respirações, porque não havia espaço para inflar um par de pulmões sequer. Pousaram vivos, o que já é uma conquista. A ONU devia considerar isso Patrimônio da Coragem Humana.

Depois, embarcaram num ônibus jardineira movido a teimosia e óleo de fritura reciclado. Duas horas de estrada até o Rio Paraguai ou como eu prefiro chamar, “o berçário das muriçocas mutantes”.

A embarcação? Um Titanic dos alagados. Suíte refrigerada, chef francês, cardápio digno de reality show gourmet, desfile de “puríssimos” cubanos e uma adega com dois mil rótulos, provavelmente metade consumida no primeiro dia.

Confesso: achei que Alyrio ia dormir numa rede entre dois galhos, caçando o jantar com faca nos dentes. Mas não. Hotel cinco estrelas flutuante. Um resort para pescadores abonados e, pra mim, masoquistas.

Cá entre nós: eu jamais sobreviveria. Onde já se viu um lugar onde o som mais alto é o suspiro sensual de uma muriçoca dentro do seu canal auditivo? Sem Wi-Fi, sem shopping, sem buzina, sem delivery, sem TikTok! Isso não é paz, isso é castigo. Algo desesperador!

E o peixe? Ah, o peixe é detalhe. Ninguém pesca nada. O peixe é só desculpa pra cerveja, conversa fiada e hematomas causados por insetos com dentes.

Admiro quem gosta, de verdade. Porque precisa de coragem pra chamar isso de “lazer” e não de “inferno personalizado”.

Já eu, na minha juventude capixaba no Principado de Vitória, pescava com classe. Arremessava da praia, das pedras, tomando uma água de coco gelada, com vista para carros engarrafados, gente bonita nas areias e, ao fundo, o som tranquilizante de um avião pousando em segurança. Isso sim é equilíbrio: um pé no mato e outro no asfalto.

No fundo, somos parecidos, Alyrio e eu. Ele busca o silêncio da floresta. Eu, o barulho da civilização. Mas ambos encontramos nossa paz: ele entre pernilongos e eu entre buzinas.

E o importante, meu caro cunhado inchado, é ser feliz, mesmo que isso envolva se parecer com um tomate alérgico e orgulhoso da pescaria que talvez tenha rendido um lambari.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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