
Férias chegando. Tempo de sol, descanso e, claro, resorts e pousadas — esse objeto de desejo de endinheirados raiz, aspirantes a endinheirados, emergentes que treinam para sê-lo ou simplesmente mortais com alma de rico e bolso parcelado em 12 vezes sem juros.
Penso exatamente igual ao excelente roteirista e ator Marcelo Lahan que o destino pouco importa: Bahia, Cancún, Cote d’Azur ou Pipa. A embalagem muda; a experiência, não. Piscinões que parecem o Mar Morto, quadras de beach tennis (o esporte daora – se você não joga dificilmente será aceito na tribo) e restaurantes temáticos que juram servir gastronomia internacional, mas têm alma de bandejão premium.
O cardápio te promete França, mas quem cumpre é o intestino — geralmente com efeitos pirotécnicos dignos de Réveillon em Copacabana. Milagre 1: saímos mais leves.
O “all inclusive”, essa bela expressão latina que significa “se prepare para vender um rim ao voltar para casa”, é o golpe derradeiro nos que não são ricos, mas pensam que são.
O Banco financia as férias deste ano até as férias do ano que vem. Um ciclo natural, tão sólido quanto o ciclo da água.
O mais emblemático dos resorts é a geografia interna. Para quem reclama de caminhar parcos 20 metros, enfrentar quinze minutos de marcha até o café da manhã é uma epopeia digna da Maratona de Boston.
Decidiu jogar beach tennis? Mais vinte e cinco longos minutos de travessia, sob o sol escaldante, perdendo energia. Três sets viram meio tie-break e olhe lá.
Quer academia? Fica ali — perto da aula de esgrima (sim, esgrima).Tradução: uma trilha digna de documentário no Discovery: O Caminho de Compostela é aqui. Duas viradas erradas, uma dúvida existencial e, ao chegar, fila para a esteira.
Você pensa em treinar? Vinte minutos de espera para o “leg press”, trinta para o “supino”. A essa altura, queimar calorias já não parece tão urgente. Escolha óbvia: o bar molhado.
Mas nem tudo é suplício. Para pais com crianças pequenas, os monitores são seres celestiais, luminosos — anjos de camiseta neon, tocando apitos às 7h30 da manhã com alegria irritantemente genuína.
Eles surgem no breakfast, saltitantes, bradando “bom diaaaa!”, arrebanham a criançada e somem com elas pelo resto do dia. Paz instantânea. Milagre 2: Este vale cada centavo.
Tento ficar tranquilo na piscina. Ingenuidade. Em meia hora surge a professora de hidroginástica, escoltada pelo som de Pagode e Axé misturado com Funk, e um grupo animadíssimo da terceira idade — e da quarta também.
O convite à participação é cordial, tipo condução coercitiva. Constrangedores (e breguíssimos) polichinelos dentro d’água a três graus negativos. É preciso fé.
Entre um polichinelo e outro, o consolo vem das iguanas — onipresentes nesses pedaços tropicais do inferno — que devoram, com elegância, nossos camarões à provençal e batatinhas. Pelo menos são abstêmias. Meu uísque está salvo: Milagre 3.
No fim, o resort é isso: caro, cansativo, cheio, escandalosamente divertido, cafona — mas, irresistível. Voltamos renovados, bronzeados, falidos e já procurando o próximo.
O ser humano é um animal teimoso. Adora uma pulseirinha colorida no pulso e promessas de felicidade ilimitada.

