21 de abril de 2026
Carlos Leão

Confissões de um urbano em conversão rural

Nas fazendas ou casas de campo sinto-me um verdadeiro náufrago em paraíso ecológico, mas já admito uma certa ressocialização rural.

“Cadu, sexta que vem, almoço lá em casa, no Condomínio, em homenagem ao Leão e Evani. Não esquece. Daqui a uma semana. Avisa a Thaïs.”

Era Ricardo ao telefone, com aquela voz de quem acabou de sair de um spa ayurvédico ou de um banho de ervas na Chapada. Ao lado, a Cris, sempre doce, refinada e elegante.

Amigos-irmãos, desses que a gente ama como se fosse cláusula pétrea da constituição emocional. Só que, diferentemente do afeto que sinto por eles, o mesmo não posso dizer pelo “local do evento”.

Para os desavisados, a casa de Ricardo fica num condomínio chiquérrimo (ou chiquíssimo, como soletraria a Cíntia Chagas com sotaque de copo de cristal) enfiado no meio de uma mata virgem em Rio Acima — que, como o nome sugere, fica acima de tudo: da cidade, do sinal de celular e, principalmente, da minha zona de conforto.

A casa é um monumento modernista digno de aplausos: Niemeyer nas curvas, Sérgio Rodrigues nas cadeiras, Tenreiro nos detalhes e Zalzupin no nome difícil de pronunciar depois da terceira taça.

Uma arquitetura que beira a poesia, principalmente se a poesia for de concreto armado e borda infinita.

“Claro que vamos!”, respondi animadamente, enquanto anotava mentalmente meu kit de sobrevivência na roça: reforço da vacina de febre amarela, meio Prozac na véspera, outro meio ao acordar, e meio Rivotril sublingual como plano B. Ricardo riu. Mas sabe — como todo bom amigo — que por trás da piada mora uma verdade com CPF e identidade.

Sim, é coisa de alma! Sou alérgico à quietude. Tenho pânico de serenidade. Dá nervoso ver um lago imóvel. Mico? Só se for de tênis e no terceiro piso do BH Shopping Jacú? Talvez, mas só se vier grelhado e acompanhado de risoto.

E aquela sinfonia de cigarras ao entardecer me parece menos Villa-Lobos e mais trilha sonora do longa “O Exorcista”.

“Olha esse silêncio, Cadu. Escuta isso!”, dizia Ricardo com os olhos brilhando. Eu escutei. Escutei o nada. E no nada, meu amigo, mora o desespero.

Disfarçadamente, pus o outro meio Rivotril debaixo da língua enquanto sorria com os olhos arregalados. “Sinfonia de cigarras, Ricardo? Tu tá de brincation with me? Ficar olhando pro lago por horas? Em duas eu tô morto e enterrado de tédio.”

Meu habitat natural é concreto, fritadeira de Outback, praça de alimentação. O papo de “30 minutos até aqui”? Só se fosse com teletransporte. Foram 72 minutos cravados, 812 quebra-molas, quatro crises existenciais e uma hérnia de disco emocional.

Ao chegar, ainda dolorido do braço por causa da vacina e com a alma encalorada pelo esforço espiritual, encontrei Jorge e Sandra, querido casal paulista, elegante e igualmente agradável. Jorge estava com a tez entre azul e lilás: “A chave caiu enquanto eu estava ensaboado. Tive que terminar o banho com água da nascente”. Pela cor arroxeada do homem, a nascente devia ser da Antártida.

E veio o vinho. Um Pinot Noir da Borgonha que, de tão bom, fez até o silêncio ganhar gosto. Ricardo, já na sétima taça, começou a misturar relâmpago com aurora boreal. Eu só pensava: “Jesus, cadê a civilização?”

A aurora-bombardeio virou temporal, seguido de “queda de chave” — o fenômeno cafona e comum nessas redutos ecológicos. E com isso, a noite caiu, o mosquito subiu e eu contabilizei 38 picada só nas partes visíveis.

Mas quer saber? Sobrevivi. E pior: gostei. Sim, estou envelhecendo, só pode! O sujeito que sempre preferiu shopping, buzina e algazarra humana agora já acha até bonito libélula copulando em slow motion no espelho d’água.

A idade chega sorrateira: um dia você acha que nunca vai gostar de campo, no outro está se emocionando com cigarras, micos e jacus.

Mas finge que não falei isso. Oficialmente continuo o mesmo urbanoide rabugento. Extraoficialmente… pode ser que eu esteja virando, aos poucos, um daqueles antigos que gostam de sentar na varanda, olhar o mato e dizer: “Isso sim é vida”.

Só não espalha. Minha reputação depende disso.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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