20 de janeiro de 2026
Carlos Eduardo Leão

Casamento: a maravilhosa instituição da loucura a dois

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Porque amar é lindo, mas dividir cobertor, banheiro e opinião é esporte radical

Não adianta espernear, contestar, bracejar ou invocar o direito de permanecer calado. O casamento é, sem dúvida, a instituição mais longeva da humanidade. Se fosse uma ideia ruim, já teria sido exterminado junto com o videocassete e o Orkut. Mas não, continua vivo, multiplicando sogras e gerando histórias para a humanidade rir e chorar em posição fetal.

Dizem alguns sábios etimológicos de mesa de bar que “casamento” vem do latim: “casa” = esposa está e “mento” = sempre certa. Poético, convincente e assustadoramente coerente.

Porém, a versão cientificamente comprovada em estudos randomizados, duplo cego, revista com fator de impacto e bênção do Papa é outra:

Casamento é um relacionamento a dois onde uma pessoa está sempre certa, e a outra é o marido.

O segredo para sobreviver? Paciência. Em cápsulas, gotas, aerossol, adesivo transdérmico e, quando necessário, soro direto na veia. Amor também ajuda, mas paciência é o tijolo; amor é o glitter. Brilha, mas não segura a parede.

A transformação começa no quarto. Você dormia em posição “estrela-do-mar” no colchão que conhecia o contorno do seu corpo. De repente, aparece alguém linda, cheirosa e decidida a atravessar a cama em diagonal. O travesseiro já não é seu, o edredom tem dono e o controle do ar-condicionado muda de regime democrático para monarquia absolutista. Ela sente frio em 23°C, você quer 16°C e sensação térmica de Alasca. No fim, você dorme suando e sorrindo — porque reclamar não adianta, e o sofá não é confortável.

E o banheiro? Ah, o banheiro… esse campo minado onde se inicia a Guerra Fria. Dois seres tentando coexistir com espumas, cremes, condicionadores com nomes franceses e uma escova de dente que sempre acaba no copo errado. Casamentos não acabam por traição — acabam por toalhas molhadas na cama e tampa de dentifrício que ninguém admite ter esquecido aberta.

O frio e o calor também testam a estrutura emocional do casal. Há estudos não oficiais, mas muito observados clinicamente, sugerindo que as mulheres possuem mais corpúsculos de Krause por centímetro quadrado, fazendo com que 18 graus seja temperatura de Sibéria. Enquanto ele quer dormir com o quarto a 16°C e ventilador no modo turbina de avião, ela vai dormir com meias, duas mantas e traços de ressentimento.

A fase bônus é quando chegam os filhos. “Padecer no paraíso” nunca fez tanto sentido. O casal entra em modo sobrevivência: sono parcelado, refeições interrompidas, madrugadas com olheiras e fraldas. Mas é lindo. Exaustivo, mas lindo. O pós-filhos exige recomeços, negociações dignas da ONU e cafés que nos mantêm vivos.

Nesse caos romântico, surge uma heroína silenciosa: a empregada doméstica. Rainha da ordem, guardiã do fogão, pacificadora oficial. Às vezes? Não! Sempre mais essencial que o marido — e ele sabe disso.

Finanças também são essenciais. Dinheiro não compra felicidade, mas paga o delivery quando ninguém quer cozinhar, o que sinceramente é quase a mesma coisa.

E quando tudo parece um caos divertido, entra Chico Anysio com sua verdade absoluta:

Quem é casado há quarenta anos com dona Maria não entende de casamento. Entende de dona Maria. Quem entende sou eu, que casei seis vezes.

Casamento é isso: lindo, complexo, engraçado e às vezes perigoso. Dá trabalho, dá risada, dá dor de cabeça, dá saudade e dá história pra contar. Se vale a pena?

Com amor, humor e uma certa dose de coragem, sempre vale.

Ou quase sempre.

PS: Dedico esse texto ao “guerreiro” Valter Bernat que entende de dona Vera há 53 anos. Parabéns aos queridos heróis da resistência matrimonial.

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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