21 de abril de 2026
Carlos Leão

Carta de um avô de primeira viagem

Essa carta à minha 1ª neta é a quintessência da corujice explícita. Sou babão assumido!

Laura, deixa eu te contar um segredinho: você nasceu já estrelando seu primeiro longa-metragem. E adivinha quem estava na primeira fila da sala de cirurgia? Eu mesmo, o vovô!

E na hora em que você deixou aquele útero quentinho, aconchegante e cinco estrelas da sua mãe, passou um filme inteiro na minha cabeça. E sem precisar de Netflix.

De repente, como quem muda de canal sem aviso, eu voltei no tempo. Trinta e quatro anos antes, naquela mesma sala, no mesmo Mater Dei. O mesmo nervosismo nas mãos, o mesmo nó na garganta.

Era a sua mãe quem nascia. Linda, desde o primeiro choro, linda desde sempre. Como explicar? Às vezes, Deus exagera! Capricha tanto que a gente desconfia de favoritismo.

E agora, Laura, você. Tão sua, tão dela, tão nossa. Quando Waldeir limpou sua carinha (com a delicadeza de quem enxuga louça rara), eu gelei. Era sua mãe de novo ali! Impressionante como vocês duas desafiaram as estatísticas da biologia: nascer bonita.

Porque olha… a maioria dos bebês vem ao mundo com aquela cara amassada de quem brigou com o útero e perdeu. Mas vocês não. Vocês já nasceram com filtro de beleza ativado.

Seu choro? Uma sinfonia em dó maior. Agudo, afinado e com pausas teatrais dramáticas! Eu quase me levantei para aplaudir.

Aí você foi pro bercinho aquecido, fez seu test-drive de pulmão, e quando chegou o momento da mamada, se jogou com a fome de quem já sabia: “esse negócio de leite materno é tudo de bom”.

Já chegou dizendo: “Cheguei. Me notem!” Seu pai, super babão e pra lá de emocionado, sorriu. Sua avó Thaïs, tia Flávia, tia Luiza e Tizé sorriram. A enfermeira sorriu. A pediatra sorriu. E eu… me derreti. Meus olhos? Marejados como quem encontra a maior das emoções.

Ser pai já tinha sido minha maior revolução. Mas ser avô… ah, é outra história. É um amor que chega com sapatos mais leves, sem tanta pressa, sem tanto medo.

Aqui não há madrugada mal dormida, não há boletos, afoitezas e nem há fralda pra trocar (pelo menos, espero!). Há apenas o milagre da continuidade, essa dança da vida que vai passando o bastão com ternura.

A paternidade me ensinou a correr. A “avôsidade” (criei agora, gostou?) me ensina a parar. Parar pra contar histórias da Zebrinha Fru-Fru com exageros de propósito, pra roubar brigadeiro da cozinha, pra ensinar que o colo é território livre.

E o seu nome, minha pequena? Laura! Nome de rainha daquelas poéticas novelas das 6, de personagem forte, de mulher decidida tipo aquela que cruza o deserto de scarpin e batom. Laura tem cheiro de vitória. Tem força, personalidade e uma pitada de “cuidado, que ela é brava igual à mãe”.

Ser avô de primeira viagem é o bônus da vida. É descobrir que o coração, mesmo vivido, ainda encontra espaço pra bater diferente. Mais calmo. Mais cheio. Mais profundo.

É ter licença poética pra amar sem medida, com a maturidade de quem já aprendeu que a vida passa rápido, mas que alguns instantes — como o de ver você nascer — duram para sempre.

Então saiba: nesse vovô sempre vai caber mais colo, mais dengo, mais risada e mais histórias mal contadas. Porque ser avô de primeira viagem é isso: um combo de emoção, maluquice e amor, tudo no mesmo pacote.

E que pacote, viu?

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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