
O problema nunca foi o pé esquerdo. Foi onde a marca resolveu pisar
– Alô, oi, Ana. Tudo em cima pra hoje?
O quê? Você não vai?
Ah! Vai, Ana!
Vai ser muito bom!
Vamos começar o ano com o pé esquerdo, amiga! É a última moda! Esse negócio de pé direito como indicativo de sorte tá completamente out.
Você não viu a Fernandinha? Ela tá linda na propaganda! Aquele cenário cheio de sandalinha de dedo vermelhinhas no fundo… um must! Adorei!
É muita criatividade, né?
O quê? O João não vai?
Esse seu namorado é mesmo um chinelinho, hein?
Tá putinho com a Fernandinha? Tadinha! Ela só leu o script. Se ele tivesse prestado atenção, ela até sugere meter os dois pés na porta ou os dois pés na jaca. Portanto, estava apenas protegendo aquele outro pé… aquele que fica daquele lado que a tchurma nem gosta muito de mencionar.
Ok, por esse lado ele até tem razão. Eu também tô meio “pêda”.
E essa propaganda estragou o Amigo X da minha empresa, menina! Comprei uma porrada de Havaianas, cada uma mais bonita que a outra. Não comprei nenhuma vermelha, mas mesmo assim fiquei constrangida. Se um simples presente vira polêmica, eu prefiro evitar o risco.
– Pois é… mas você sabe como é o João, né? Todo certinho. Meio ortodoxo. Conservador até demais pro meu gosto. Mas não posso tirar totalmente a razão dele.
Ele acha que essa campanha reascende um debate que vai muito além da sandália. Não se trata de certo ou errado. Pra ele, é posicionamento. Postura institucional. E o risco de reputação é iminente.
Não, não, não! Ele não está exagerando não, amiga.
Entendo perfeitamente ele não querer ir. A marca “Havaianas”, de repente, virou o centro de um conflito ideológico.
A gente esquece que o valor de qualquer marca — especialmente as “Havaianas”, quase um símbolo pátrio — está na inclusão, e não na diferenciação ou, pior, na divisão.
João acha que a propaganda quebra a neutralidade da marca e força o consumidor a travar um conflito com a própria turma, fã ardorosa do rótulo.
É mais ou menos isso: a sandália é a mesma, mas o chão ficou pedregoso.
E olha que eu, muito mais liberal, entendo o João ter aposentado suas Havaianas. Hoje, depois da propaganda, o grande público não avalia apenas a intenção da marca, mas o risco de estar associado a ela.
Você sabe que eu não sou muito chegada à Fernandinha. Celebridade costuma transferir sua aura para as marcas que anuncia… e, invariavelmente, transfere também suas leituras políticas e sociais.
E pra marcas altamente populares, essas escolhas podem ser o estopim da exclusão.
Portanto, minha amiga, o risco é grande. Iminente. E vai muito além da imagem. Ele chega no caixa e, sobretudo, no prestígio.
Chego até a pensar que essa campanha publicitária foi idealizada por concorrentes infiltrados. De tão infeliz e inoportuna.
Pra não dizer “burra”, em respeito aos inocentes animais.

