16 de fevereiro de 2026
Carlos Eduardo Leão

Breve ensaio sobre sobreviver ao Réveillon

Há algo de comovente — e profundamente cafona — na maneira como celebramos a virada

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Ah, o Réveillon!!

Primeiro telefonema ontem:

— Cadu, que tal juntarmos as comidas e comemorarmos juntos? Fale com a Thaïs. Vê se anima! Eu levo o salpicão e a Malzbier!

Segundo telefonema, minutos depois:

— Oi, Cadu. Pensamos em você e na Thaïs. Pega um avião amanhã. Dia 31 é sempre mais barato. Guarapari tá cheio, mas o Réveillon aqui é sensacional. Temos uma suíte esperando vocês. O ar tá quebrado, mas o ventilador de teto é novo!

Não atendi mais nenhum telefone. Coloquei no silencioso e desativei até o vibrar. Mais um convite desses e uma internação psiquiátrica por transtorno afetivo sazonal ou um surto psicótico momentâneo deixariam de ser mera hipótese acadêmica.

Comecemos pelos destinos marítimos, essa obsessão nacional. Praias superlotadas, capazes de fazer o Piscinão de Ramos parecer retiro espiritual tibetano.

A densidade populacional é tamanha que a quantidade de galinha assada com farofa — alimento oficial do elegante veranista brasileiro — passa a ser medida por metro quadrado.

As cidades litorâneas, planejadas para abrigar 20 ou 30 mil felizes nativos, subitamente recebem uma invasão digna de cruzadas medievais: gladiadores modernos lutando por 30cm de areia e um metro quadrado de água morna e turva.

As filas nas padarias e supermercados desafiam a Muralha da China em extensão. Aeroportos se tornam experiências místicas de desapego material. Rodoviárias ficam mais cheias que o Maracanã em final de Fla-Flu valendo Libertadores. – Alexa, solta o tsunami!

E então vêm as vestimentas. Um espetáculo à parte. Camisetas regata em tons indefinidos, sandálias Havaianas em baixa, Ipanema e USA brasileiras em franca alta.

Mulheres espremidas em roupas brancas tão justas que parecem lutar contra a física newtoniana, com gorduras escapando como manifestações espontâneas da natureza.

Homens vestindo o clássico “réveillon casual”: bermuda, chinelo e a convicção de que estão elegantes.

Nas praias, Paris vira cenário pós-apocalíptico. Restos de oferendas espalhados como se Iemanjá, diante de tanta sujeira, preferisse educadamente pedir para não ser homenageada naquele ano. Flores murchas, garrafas, pratos descartáveis e promessas recicladas.

Há também as missas de fim de ano. Aquele momento constrangedor dos cumprimentos coletivos, quando você abraça pessoas cujo nome desconhece há décadas. Sempre existe o fiel entusiasmado que, insatisfeito em cumprimentar apenas o vizinho, resolve abraçar a igreja inteira, como se estivesse em campanha eleitoral ou em surto de afeto comunitário.

E como esquecer das mensagens de WhatsApp? “Feliz 2026! Clique aqui, pensei em você.” Você clica, claro, movido pela curiosidade antropológica, e recebe um vídeo mais longo que “E o Vento levou”, com música emotiva, fogos em baixa resolução e frases que misturam autoajuda, astrologia e ameaça passivo-agressiva de prosperidade obrigatória.

À meia-noite, a tradição dos abraços: uma coreografia social ultrapassada, forçada e pegajosa, em que você abraça gente que passou o ano inteiro evitando. Tudo em nome da paz universal que dura, em média, até o dia 2 de janeiro.

Por isso, a verdadeira revolução contemporânea chama-se ficar em casa. Com a família, um bom filme, uma ceia honesta, o show da virada em qualquer emissora — menos aquela — e, às 00h01, todos na cama. Sem areia, sem fila, sem salpicão coletivo. O verdadeiro luxo do nosso tempo.

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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