
Não foi por decisão politica ou retórica engajada em causas sociais que a francesa Gisèle Pelicot se tornou ativista de grande relevância contra a violência sexual, não só na França.
Sua corajosa determinação transcendeu fronteiras ganhando dimensão global.
O doloroso custo emocional/psíquico de sua decisão de rejeitar o direito ao anonimato legal garantido a vítimas de crimes sexuais afetou gravemente a vida familiar. Mas ela se manteve determinada.
O caso de estupro coletivo a que foi submetida pelo próprio marido, ocorrido em Mazan, sul da França por quase uma década, (entre 2011/2020) é estarrecedor.
Nesse longo período, Gisèle foi sistematicamente dopada com ansiolíticos por Dominique Pelicot, seu marido na ocasião.
Dominique a dopava e recrutava dezenas de homens estranhos para que a estuprassem enquanto ela estava inconsciente.
Em 2020, uma ocorrência fortuita interrompeu o drama de Gisèle. Dominique foi preso por filmar secretamente mulheres em um supermercado. Ao inspecionarem os arquivos digitais dele, os investigadores encontraram milhares de fotos e vídeos dos abusos contra Gisèle.
No final de 2024, o caso de Gisèle Pelicot chegou aos tribunais. Na audiência inicial Gisèle adotou uma atitude corajosa e admirável. Ela exigiu que o julgamento fosse totalmente público e que os vídeos fossem exibidos na corte, sob o lema de que “a vergonha precisa mudar de lado”, título do livro autobiográfico editado em parceria com a jornalista, Judith Perrignon.
Em dezembro de 2024, Dominique Pelicot e outros 50 homens envolvidos foram condenados.
A inflexível e corajosa postura de Gisèle ao negar o direito ao anonimato, rompeu o véu moral que expõe fragilidades das vitimas frente aos agressores.
A dor da exposição pública atingiu o ápice na relação com seus três filhos (Caroline, David e Florian), que se viram tragados pela espetacularização do crime. Os filhos queriam um julgamento privado para chorar o luto da família em segredo, mas a escolha da mãe os forçou a lidar com os detalhes mais sórdidos do crime nas manchetes do mundo inteiro. A revelação dos crimes desmoronou a ilusão de uma família perfeita.
Durante os depoimentos no tribunal, os filhos expressaram publicamente o sentimento de devastação.
A atuação das equipes de defesa de Dominique Pelicot e dos outros 50 corréus foi mais uma violência.
Classificada por juristas e psicólogos como ‘violência institucional e ‘vitimização secundária’, praticada pelos advogados dos acusados que utilizaram estratégias agressivas, insinuando atos consensuais, transferindo a culpa para as vítimas, aprofundando o trauma de Gisèle e de seus filhos.
A superexposição e a transformação de Gisèle em um “mito vivo” geraram um distanciamento físico e emocional temporário entre ela e seus filhos, que relataram dificuldades em conciliar a figura da “mãe real” com a da “heroína feminista”.
A dor aumentou quando o tribunal expôs que o pai também havia fotografado a filha Caroline e as noras nuas enquanto dormiam, tornando-as também vítimas públicas da depravação de Dominique.
A inabalável e corajosa atitude de Gisèle gerou uma onda massiva de manifestações em apoio às mulheres na França e lhe rendeu amplas homenagens internacionais. Ela recebeu a Legião de Honra, a maior distinção civil francesa, e foi apontada pelo jornal The Independent como a mulher determinada e influente de importância real de seu tempo, em contraponto às ‘influencers’ virtuais e ao ativismo retórico.
Gisèle Pelicot segue ativa compartilhando seu depoimento e inspirando reformas na forma como a justiça e a sociedade lidam com o consentimento e a violência de gênero.

