24 de outubro de 2026
Editorial

O debate: entre o retrovisor e o futuro

Debates eleitorais costumam oferecer ao eleitor uma oportunidade rara: ver os candidatos fora dos discursos ensaiados, submetidos à pressão do confronto direto e obrigados a responder não apenas pelo que prometem, mas também pelo que fizeram. O debate de ontem não fugiu à regra. Entre a insistência no passado, as propostas para o futuro e os tropeços de ambos os lados, algumas cenas merecem registro.

Lula apostou naquilo que parece considerar seu maior trunfo: as realizações de seus governos. Repetiu feitos, relembrou programas e voltou diversas vezes ao repertório que conhece tão bem. Não chega a surpreender. Afinal, somados os períodos em que o PT esteve à frente do governo federal, são cerca de duas décadas de história para apresentar ao eleitor.

O problema é que tempo de governo não significa, necessariamente, novidade de argumentos. Quando o candidato passa boa parte do debate olhando pelo retrovisor, fica a impressão de que o futuro tem recebido menos atenção do que deveria.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, procurou apresentar propostas e explorar os problemas que atingem diretamente o cotidiano dos brasileiros. Na minha avaliação, mostrou-se mais preparado para a dinâmica daquele confronto, procurando aproveitar as oportunidades que surgiam e colocando o adversário diante de questões incômodas.

É claro que um debate não se resume à quantidade de propostas apresentadas, mas sim à capacidade de organizar o raciocínio, aproveitar o tempo e responder às provocações também faz parte do jogo. Flávio se mostrou mais preparado para isso. Mas isso não significa que ele tenha passado incólume. Ao se referir a Lula como “nove dedos”, cometeu capacitismo (*) um erro desnecessário.

Lula, aliás, soube aproveitar o episódio ao pedir direito de resposta. Nesse momento, encontrou uma oportunidade de se apresentar como alvo de uma ofensa pessoal. O problema veio em seguida. Ao exigir as necessárias desculpas, Lula deu a Flávio um espaço para uma contraofensiva que levou a discussão para um terreno bem mais delicado para Lula.

A resposta do candidato foi lembrar que, se Lula merece um pedido de desculpas por ter sido chamado daquela maneira – e merecia -, a população brasileira também teria motivos para cobrar explicações do presidente. E vieram as imagens que dispensam grandes discursos: o carrinho de supermercado que já não se enche como antes, as mulheres assassinadas em casos de feminicídio e as mulheres estupradas por criminosos que, segundo a crítica apresentada no debate, teriam se beneficiado das saídas temporárias do sistema prisional para reincidir.

São assuntos de naturezas distintas, que exigem análises próprias e não podem ser reduzidos a uma frase de efeito. Mas a estratégia política era evidente: deslocar o foco de uma ofensa pessoal para problemas concretos que afetam a vida dos brasileiros. O debate deixava de girar em torno de uma expressão infeliz e voltava a tratar daquilo que deveria ocupar o centro da discussão eleitoral: o custo de vida, a segurança pública e a proteção das mulheres.

Outro aspecto que chamou a atenção foi a administração do tempo. Em diversas ocasiões, Lula encerrou sua fala antes de utilizar o período disponível. O jornalista e mediador César Tralli precisou lembrá-lo repetidamente de quanto tempo ainda restava. Enquanto isso, Flávio procurava aproveitar as brechas para ampliar suas intervenções ou explorar os espaços deixados pelo adversário.

Pode parecer um detalhe técnico, mas não é irrelevante. O tempo concedido a cada candidato é um recurso precioso. Saber utilizá-lo significa organizar as ideias, concluir um argumento e, quando necessário, responder ao adversário. Sobras frequentes podem transmitir a impressão de que o candidato não conseguiu aproveitar todas as oportunidades oferecidas pelo formato. Em um debate, não basta ter o que dizer: é preciso saber como e quando dizer.

No fim das contas, o confronto deixou uma questão importante para o eleitor. De um lado, um presidente que procurou defender seu legado, mas se tornou repetitivo. De outro, um adversário que buscou ocupar o espaço das propostas e explorar as fragilidades do governo.

O eleitor não precisa escolher entre um passado apresentado como uma coleção de conquistas e um futuro descrito apenas por promessas. Precisa cobrar dos dois candidatos respostas concretas. Quanto custará colocar comida na mesa? O que será feito para conter a violência? Como proteger as mulheres? Quais medidas serão adotadas para melhorar a segurança pública? E, sobretudo, como cada proposta será financiada e executada?

Debate não é concurso de simpatia, campeonato de ofensas nem sessão de nostalgia. É uma oportunidade para que o cidadão compare ideias, cobre resultados e avalie compromissos. O passado merece ser examinado, mas não pode servir de resposta automática para todos os problemas do presente. E as promessas de mudança precisam vir acompanhadas de explicações que permitam ao eleitor avaliar sua viabilidade.

Ao final, ficaram o apelido desnecessário, o pedido de desculpas, o carrinho de supermercado como símbolo do custo de vida e um relógio que pareceu exigir mais atenção de um dos candidatos do que do outro.

A eleição, porém, não será decidida pelo cronômetro de um debate nem por uma frase de efeito. Será decidida, democraticamente, pelos eleitores — e o mínimo que eles merecem é que os candidatos discutam menos os rótulos uns dos outros e mais os problemas de quem está do lado de fora do estúdio.

(*) O capacitismo é o preconceito, a discriminação ou a atitude depreciativa dirigida a pessoas com deficiência, frequentemente baseada na ideia de que elas seriam inferiores ou menos capazes. No caso do debate, ao chamar Lula de “nove dedos”, Flávio Bolsonaro utilizou uma expressão que faz referência à ausência de um dedo do presidente.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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