19 de outubro de 2026
Editorial

Muito barulho, poucas propostas e um empate que diz muito

Minha impressão imparcial do debate da Band.

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Se alguém esperava que o debate de ontem entre Lula e Flávio Bolsonaro servisse para esclarecer os rumos que cada um pretende dar ao país, provavelmente terminou a noite com mais dúvidas do que respostas. Houve acusações, provocações e tentativas de desqualificar o adversário. Propostas concretas, porém, apareceram muito menos do que seria desejável em um confronto entre dois nomes que disputam a preferência do eleitorado.

Lula começou dando o tom do encontro. Em vez de uma saudação protocolar ao adversário como Flávio fez, Lula não respondeu à saudação e preferiu chamá-lo de miliciano. Pode-se argumentar que, em um debate eleitoral, não há obrigação de cordialidade. É verdade. Mas existe uma diferença entre confrontar o adversário por suas ideias, suas decisões e suas responsabilidades políticas e começar o encontro com uma provocação que praticamente antecipa o clima de todo o restante da discussão.

Lula insistiu, sobretudo, no balanço de seus governos. Apresentou realizações, enumerou iniciativas e procurou associar sua candidatura aos resultados que atribui à administração petista. É legítimo defender o próprio legado. Mas há uma questão que não pode ser ignorada: o PT já acumulou 20 anos no comando do governo federal, somados os diferentes períodos de Lula e Dilma Rousseff e dois do Temer, que embora do MDB era vice da Dilma, além do atual mandato de Lula.

Depois de tanto tempo, não basta apresentar uma lista de realizações. É preciso explicar também o que não funcionou, o que ficou pelo caminho e o que se pretende fazer de diferente. Afinal, quem teve tanto tempo para governar precisa prestar contas não apenas dos resultados positivos, mas também das promessas não cumpridas e dos problemas que continuam à espera de solução.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, teve a oportunidade de explorar essas questões com mais objetividade, mas nem sempre conseguiu transformar as críticas ao governo em propostas capazes de sustentar uma alternativa. Apontar problemas é parte essencial da atividade política. Dizer como pretende resolvê-los é o que distingue uma candidatura da outra. O eleitor precisa conhecer não somente as falhas que o adversário lhe atribui, mas também as soluções que o crítico oferece.

Um dos aspectos mais frustrantes do debate foram os blocos de enfrentamento direto entre os candidatos. A fórmula prometia confronto de ideias, esclarecimento de divergências e respostas a perguntas incômodas. Na prática, porém, repetiu-se uma cena conhecida da política brasileira: um candidato perguntava e o outro respondia o que lhe parecia mais conveniente. A pergunta ficava pelo caminho, substituída por uma acusação, uma lembrança desfavorável do adversário ou uma tentativa de mudar o assunto.

Por isso, o formato de perguntas conduzidas pelos mediadores me pareceu mais proveitoso. Em princípio, a “obrigação” de responder a uma questão formulada por terceiros, diante do público e com o adversário acompanhando a resposta, cria condições mais favoráveis para o esclarecimento. Mesmo nesse formato, contudo, o resultado ficou aquém do esperado. As respostas frequentemente recorreram às acusações de sempre, sem apresentar o detalhamento que se espera de quem pretende governar um país com os problemas e as dimensões do Brasil.

Outro aspecto negativo chamou a atenção: a postura corporal de Flávio Bolsonaro enquanto Lula falava. Em diversos momentos, o senador aparecia atrás do presidente fazendo gestos, movimentando a cabeça ou aparentemente comentando alguma coisa em voz baixa. Os mediadores chegaram a pedir que ele evitasse repetir gestos e expressões enquanto o adversário tinha a palavra. Lula, por sua vez, ameaçou pedir direito de resposta caso estivesse sendo alvo de zombaria.

Não é possível afirmar, apenas pela observação desses gestos, qual era a intenção de Flávio. Mas, independentemente dela, o efeito visual não foi dos mais felizes. Um debate presidencial já é suficientemente tenso sem que um dos participantes pareça disputar também uma competição paralela de expressões faciais. O eleitor pode interpretar esse comportamento como espontaneidade, ironia ou desrespeito. O fato é que ele desviou a atenção do conteúdo e criou um problema desnecessário para a imagem do candidato. Se houve orientação da equipe para adotar essa postura, caberia perguntar se a estratégia foi realmente bem calculada.

E aqui está o ponto mais importante: o eleitor não precisa de dois candidatos que concordem entre si. Precisa de dois candidatos que expliquem por que discordam, quais caminhos pretendem seguir e como enfrentarão os problemas concretos do país. Segurança pública, saúde, educação, economia, emprego, contas públicas e corrupção merecem respostas que ultrapassem os slogans e as acusações. O debate deveria ser justamente o momento de cobrar essa clareza.

Ao final, não vi elementos suficientes para declarar um vencedor inequívoco. Também não considero que a ausência de um vencedor evidente signifique que nada tenha acontecido. O debate revelou dificuldades de comunicação, estratégias de confronto e uma preocupante escassez de respostas concretas. O empate, nesse sentido, não foi necessariamente uma demonstração de equilíbrio entre duas candidaturas programaticamente consistentes. Pode ter sido, simplesmente, o resultado de um encontro em que nenhum dos dois conseguiu se impor de maneira convincente.

Para Flávio Bolsonaro, sair de um confronto sem uma derrota claramente identificável pode ter importância estratégica, especialmente se a expectativa era a de que Lula, na condição de presidente e ocupante de um cargo que lhe oferece um balanço de governo a apresentar, demonstrasse maior domínio do debate. Mas isso não transforma automaticamente o senador em vencedor. Da mesma forma, Lula não perde toda a força de seu argumento por ter recorrido a ataques e acusações. O que se pode dizer é que ambos deixaram espaço para perguntas que permaneceram sem resposta.

No fim das contas, o debate terminou, mas o eleitor continua esperando aquilo que deveria ter sido o seu principal conteúdo: propostas, compromissos e explicações. Acusar o adversário é fácil. Responder a uma pergunta difícil exige mais. E apresentar um projeto consistente para o Brasil exige muito mais ainda.

Se a política continuar confundindo confronto com esclarecimento, o debate eleitoral corre o risco de se transformar em um espetáculo de acusações no qual os candidatos falam muito, respondem pouco e deixam para o eleitor a tarefa de descobrir, sozinho, o que realmente pretendem fazer.

É preciso elogiar a participação dos mediadores Eduardo Oinegue e Adriana Araújo. Sóbrios e imparciais. Sim, foram desrespeitados no final quando as claques começaram a torcer tal como torcidas no Maracanã.

E uma nota especialmente deselegante: A primeira-dama, Janja da Silva, precisou ser repreendida por um integrante da produção da Band após violar, por mais de uma vez, uma regra que determina que a plateia do debate entre os presidenciáveis não pode se manifestar. Fingia espirrar quando queria dizer “mentchira”, como fazem os adolescentes na 5a série…

Enfim, resta o debate da Globo, na próxima sexta-feira. Esperamos que os candidatos, cientes de que suas participações não acrescentaram nada, promovam o debate num melhor nível.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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