Lulinha é problema, mas não disputa votos, enquanto Flávio, enrolado nos milhões de Vorcaro, é candidato – e em nome do pai

Investigar indícios de crimes contra a administração pública é obrigação do Estado, independentemente de quem seja o suspeito. Deveria ser assim para qualquer um – excelências eleitas ou nomeadas, autoridades de diferentes escalões, seus parentes e amigos. A regra, portanto, tem de valer para Fábio Luís, primogênito do presidente Lula, e também para o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex. Isso posto, seria conveniente calibrar a balança e esmiuçar com mais apuro os sacos de denúncias e vazamentos, que, em períodos eleitorais, costumam, propositalmente, misturar bugalhos aos alhos.
As incorreções nos pesos e medidas começam na abordagem de diferentes como iguais. Supostos delitos de Lulinha são investigados e computados como se fossem crimes do presidente Lula. Na outra ponta, as diligências contra Flávio, que depois de negar teve de admitir que havia pedido R$ 61 milhões ao ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, andam devagar. Tão lentas que mesmo sem dar qualquer explicação sobre a dinheirama, o candidato decretou o seu fim: “Dark Horse é página virada”.
Sobre Lulinha pesam três investigações por suposto tráfico de influência em prol da lobista Roberta Luchsinger, que estaria atrás de contratos com o Ministério da Saúde para fornecimento, sem licitação, de medicamentos à base de canabidiol. A encrenca envolve ainda o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.
Os inquéritos correm sob sigilo na Polícia Federal, incapaz de guardar qualquer segredo. Durante a semana passada, pulularam na imprensa diálogos vazados entre os três, cada um tratado como prova definitiva. Na maioria das vezes, esquecendo-se até o nome da lobista para dar eco ao fato de ela ser “amiga de Lulinha”. Há indícios fortíssimos de que o filho de Lula tenha sido beneficiado, mas, tira dali põe aqui, de concreto sabe-se que o tal contrato com o governo não foi fechado.
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Não é possível mensurar o estrago da história em conta-gotas na campanha de Lula. A pesquisa Datafolha da última sexta-feira não indicou impacto nos percentuais de intenção de voto do presidente. No segundo turno, ele aparece com 47% (eram 48% na rodada anterior) contra 43% de Flávio, que não mexeu um único milímetro em um mês.
Os números trouxeram alguma frustração à campanha de Flávio, que antes da divulgação oficial fez correr nas redes sociais seus trackings internos reduzindo a diferença entre ele e Lula a um ponto percentual. O alarde em torno de números fictícios revela, no mínimo, imaturidade dos operadores da campanha, algo que pode ser fatal agora que o Dark Horse deve voltar à cena.
Há quem diga que os bolsonaristas foram com muita gula ao saco de vazamentos sobre Lulinha, obrigando a PF a acelerar as até então mornas investigações sobre o custeio da milionária cinebiografia. Ainda que tardiamente, na sexta-feira a PF deu 10 dias para que a Ancine (Agência Nacional do Cinema) encaminhe os documentos sobre o processo aberto contra a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme.
Nada do que possa surgir de novo em relação ao Dark Horse deveria mudar o ritmo das investigações sobre o suposto tráfico de influência de Lulinha. Mas o histórico demonstra que suspeições dificilmente viram inquérito – por ausência de provas, como aconteceu com o próprio Lulinha em processos anteriores – ou por desinteresse. Quando viram, tendem a perder o charme político e cair no esquecimento.
Jair Renan, filho mais novo de Bolsonaro, foi denunciado por tráfico de influência em 2021, em inquérito que terminou sem indiciamento. Ele teria sido presenteado com um carro elétrico de R$ 90 mil (preço da época) pela Gramazini Granitos e Mármores Thomazini depois de articular, via assessor especial da Presidência, uma audiência entre representantes da empresa com o então ministro de Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Dois anos depois, foi alvo de busca e apreensão na Operação Nexum, se tornando réu por falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, processo ainda não julgado. Eleito vereador em Camboriú (SC), ninguém mais mexeu com ele.
É inadmissível alguém se arvorar em dizer quem é inocente ou culpado antes de as investigações terminarem. Mas não dá para misturar as coisas. Lulinha é problema, mas não é candidato, é filho do pai candidato. Flávio, que adoraria ser como pai, é filho. E é candidato, recebedor de inexplicáveis R$ 61 milhões de Vorcaro.

