
Eu me lembro, perfeitamente, quando no meu 3o período de Direito, lá pelo ano de 1970, tive a primeira aula de Direito Internacional. Nossa professora – Dra Martha – me cativou com suas explicações sobre relações internacionais, suas origens, causas e consequências. Ao final da aula, eu e alguns alunos fomos falar com ela e, um pouco que puxando saco – dissemos que queríamos fazer Direito Internacional e, quem sabe, tentar concurso para o Itamaraty.
Mas, a vida nos leva para outros caminhos. Entretanto, diante da crise institucional na relação Brasil x EUA, recorri ao meu amigo Tuty (nosso colunista de vinhos, filho de João Baptista Pinheiro, embaixador brasileiro em diversos países, inclusive nos EUA). Ele me deu uma explicação sobre como funciona esta relação e até mesmo sobre o funcionamento da embaixada sobrea minha pergunta se haveria um “vice-embaixador”. Ele me respondeu que o Ministro-conselheiro faz às vezes do embaixador na ausência deste.
Há muito tempo as relações entre Brasil e Estados Unidos não atravessavam um período de tensão tão prolongado. A decisão de Washington de não renovar o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti representa mais do que um gesto protocolar: é um sinal inequívoco de que a crise diplomática entre os dois países entrou em uma fase mais delicada.
A não renovação de seu visto representa o ponto mais tenso da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, devendo se estender até as eleições de outubro. A revogação costuma ser o passo anterior à declaração de persona non grata, situação que exigiria o retorno da diplomata ao país e que pode se concretizar caso o cenário se deteriore ainda mais, abrindo espaço para sanções econômicas e cancelamento de vistos de outras autoridades.
O episódio nasce de um impasse envolvendo a indicação do novo embaixador americano para Brasília. Segundo o governo dos Estados Unidos, houve demora excessiva na concessão do agrément — palavra que, em francês, significa a autorização formal necessária para que um embaixador assuma o posto. O governo brasileiro, por sua vez, sustenta que esse procedimento é tradicionalmente confidencial e que a divulgação pública da indicação antes da anuência rompeu o protocolo previsto pela Convenção de Viena. Houve também, por parte do governo brasileiro, a negação de visto aos dois funcionários da embaixada americana sob o pretexto de que queriam intervir nas eleições brasileiras.
As duas versões evidenciam que o problema deixou de ser apenas diplomático para adquirir contornos políticos.
O Palácio do Planalto afirma que Washington estaria tentando influenciar o ambiente político brasileiro, especialmente ao questionar o sistema eleitoral e decisões do Judiciário. Já autoridades americanas alegam que suas medidas respondem a atitudes adotadas previamente pelo governo brasileiro contra representantes dos EUA.
Independentemente de qual narrativa prevaleça, um aspecto parece difícil de contestar: quem perde espaço é o diálogo institucional. Diplomacia eficiente costuma ser exercida longe dos holofotes. Divergências existem entre governos de todas as orientações políticas, mas historicamente elas são administradas por canais reservados, justamente para impedir que desacordos se transformem em crises permanentes.
Quando o embate passa a ocorrer por meio de notas públicas, entrevistas e medidas simbólicas de retaliação, cresce o risco de que a política doméstica passe a determinar decisões que deveriam priorizar os interesses permanentes do Estado. Esse ponto talvez seja o mais preocupante.
Brasil e Estados Unidos mantêm uma das relações econômicas mais importantes do continente. Comércio, investimentos, cooperação científica, defesa, tecnologia e segurança dependem de uma interlocução constante entre os dois governos. Quanto menor essa interlocução, maiores tendem a ser os custos para empresas, investidores e para a própria capacidade de negociação brasileira em temas estratégicos.
Também não se pode ignorar que a atual política externa americana costuma utilizar instrumentos de pressão como parte de sua estratégia de negociação. Ao mesmo tempo, governos nacionais, frequentemente, respondem a essas pressões buscando reafirmar sua autonomia e soberania diante do público interno. O resultado é uma escalada em que ambos os lados elevam o tom enquanto o espaço para entendimento diminui.
A história mostra que crises diplomáticas passam. O que permanece é o impacto que elas deixam sobre a confiança entre os países. Reconstruir essa confiança costuma exigir muito mais tempo do que destruí-la.
Por isso, mais importante do que vencer uma disputa narrativa é preservar canais institucionais capazes de impedir que divergências conjunturais comprometam relações construídas ao longo de décadas. Na diplomacia, o verdadeiro patrimônio de uma nação não é a retórica. É a capacidade de conversar, mesmo quando as diferenças parecem intransponíveis.
A tensão reflete tanto a pressão sobre a política interna quanto as estratégias de negociação comercial da diplomacia americana, marcada por adotar posições duras antes de propor acordos.

