
Você consegue dominar sua ojeriza por alguém e defender (ou condenar) essa pessoa com base na lei, e não de acordo com a azia que a simples imagem dela lhe causa? Foi o que me perguntei ao ver algumas reações à crônica em que registro o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro ter sido condenado à morte em vida por Alexandre de Moraes. Consigo. Mas não sem esforço. Diante de algumas pessoas que me causam ojeriza, tenho que me lembrar sempre que uma sociedade que aplaude a destruição ritual de um adversário, quem quer que seja ele, está regredindo para a justiça do linchamento. Para a barbárie.
Mas por que as pessoas sentem ojeriza por Bolsonaro? Tem toda a questão de pertencimento e identidade ideológica, claro. A julgar novamente pelas reações ao meu texto recente, porém, a ojeriza generalizada por Bolsonaro transcende a polarização. E tem a ver, primeiro, com a maldita pandemia. Aquela coisa de “negacionismo”, não sou coveiro, etc. Tem a ver também com o famigerado “golpe”, e aqui é curioso, porque enquanto uns criticam o “espírito antidemocrático” de Bolsonaro, outros se enojam com a “covardia” dele ao ter agido dentro das míticas quatro linhas. Vai entender.
Instintos baixos e primitivos
Em todo caso, ojeriza. Desejo de vingança e humilhação. E aí cada um implica com um detalhe diferente. A voz. O cabelo. As muletas verbais (“talquei”, “no tocante”). O pão com leite condensado. A simplicidade/ tosquice. A retórica para lá de exacerbada. A insistência em, mesmo preso e doente, se mostrar como força política. Os filhos. Em se tratando de Bolsonaro, praticamente todo mundo tem na ponta da língua um, digamos, argumento para explicar por que ele não é um cidadão comum, digno da proteção da lei, e merece apodrecer numa masmorra, quando não ter seu nome apagado da história.
Mas aí é que está! São justamente as pessoas que nos causam ojeriza as que merecem a aplicação justa, e não justiceira, da lei. Da lei, e não da nossa vontade. Lembre-se: somos falhos. Tão falhos que precisamos pedir a Deus que nos dê força para perdoar os que de alguma forma nos ofenderam. É instintivo: queremos nos vingar dos que nos causam repugnância com sua mera existência – como parece ser o caso de muitos em relação a Bolsonaro. A ojeriza, porém, não pode se sobrepor à lei. Afinal, é isso o que nos torna civilizados: o domínio de nossos instintos mais baixos e primitivos. Algo que se consegue por meio da Graça, sim, mas também por meio da razão. Ah, a razão!…
Fonte: Gazeta do Povo

