
A mãe de um amigo de longa data tinha um linguajar típico de cidade de interiorzão, onde, às vezes, os moradores criam um vocabulário próprio pra conversarem entre eles. É tão diferente que quando chegam na cidade grande até sofrem bullying dos urbanoides.
A gente morria de rir da dona Joana quando rolava fofoca sobre alguma vizinha, digamos, mais dada do que as senhoras mais recatadas do pedaço. Ela dizia que fulana era uma “mulher fascinante”. Não no sentido de ser glamourosa, atraente. Era no outro sentido, aquele em que esse tipo se encaixava mais no termo “mulher da vida”.
A declaração de Flávio Bolsonaro sobre Michelle Bolsonaro nesta semana me trouxe essa lembrança.
Ele disse que sua madrasta “não era fiel” ao seu pai. Por que Flávio teria usado uma palavra de duplo sentido para se referir a ela?
Não ficou claro se ele quis dizer que ela não é fiel aos ideais políticos do marido, ou da família, ou se malandramente quis colocar uma pimentinha no comentário, dado o histórico “voluptuoso” que algumas pessoas atribuem a Michelle.
Não se sabe se ele quer com isso tirar o véu de evangélica temente a Deus, que prega fidelidade eterna ao marido, com o intuito de que ela caia em desgraça política de uma vez por todas, ou se quer mudar o foco de seu próprio desvio de conduta na suruba intergalática promovida pelo seu “irmão” Daniel Vorcaro.
Mas como em briga de enteado e madrasta não se mete a colher, melhor deixar que os dois se desnudem diante dos eleitores.
Só que a coisa ultimamente não anda muito boa pro lado do pré-candidato à Presidência da República.
Não bastasse o irmão “americano” que faz lobby com o presidente laranja pra afundar o Brasil, mais o neto do ex-ditador cheirador de cavalo falando merda, e ele próprio transgredindo as leis ao mostrar a carta do papi, sabendo que ele não pode se manifestar em redes sociais, porque está preso em casa (eles não se dão conta disso; até armas o prisioneiro mantinha em seu doce lar), tem também o pessoal daqui contribuindo para que seus “predicados” venham a público.
A ex-deputada Joice Hasselmann disse com todas as letras, em entrevista ao ICL Notícias, que Flavito é ladrão: “Entrei na casa de Flávio Bolsonaro e tive certeza de que ele era ladrão”. Disse que móveis e obras de arte não poderiam ter sido adquiridos com os rendimentos declarados pelo parlamentar, “absolutamente incompatíveis”, nas suas palavras.
Não que a gente não soubesse, porque a comprovada rachadinha não deixa de ser roubo, mas ser chamado de ladrão publicamente tem um certo peso.
E talvez esse peso, somado a todos os outros, esteja puxando seus números de intenção de votos lá pra baixo, como apontou a pesquisa Quaest do último dia 15.
Mas, como ele confia nos seus belos olhos e na “honestidade” que prega, desconfiou do resultado e criticou o instituto. Disse que se o “selo de acerto” proposto pelo presidente do TSE Nunes Marques estivesse valendo, “teriam vergonha de publicar essa pesquisa da Quaest de hoje”.
Bem, tem quem goste de enganar os eleitores e tem quem goste de se autoenganar.
Pelo visto, Flávio Bolsonaro consegue reunir as duas coisas ao mesmo tempo: enganar parte do eleitorado e, de quebra, enganar a si mesmo.


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