
Enquanto cobra sacrifícios da população e busca aumentar a arrecadação, o governo amplia a estrutura de terceirizados da Presidência, reforçando a distância entre o discurso da austeridade e a prática no Palácio do Planalto.
Existe um ditado segundo o qual “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Poucas expressões traduzem tão bem o momento vivido pela atual administração federal. Enquanto milhões de brasileiros enfrentam impostos elevados, inflação persistente e perda do poder de compra, a estrutura do Palácio do Planalto continua expandindo seus quadros de apoio, como se a necessidade de economizar fosse uma recomendação válida apenas para quem está do lado de fora dos palácios.
Enquanto o brasileiro comum aperta os cintos diante da inflação e ouve o discurso oficial sobre a necessidade de responsabilidade fiscal, os corredores do poder em Brasília parecem viver em uma realidade paralela. Desde que o casal Lula e Janja assumiu o controle dos palácios da Alvorada e do Planalto, a máquina pública federal passou por uma metamorfose silenciosa, marcada pelo inchaço.
O exemplo mais cristalino dessa desconexão entre a retórica da austeridade e a prática da opulência está na explosão dos contratos de mão de obra terceirizada para atender à Presidência da República: um salto de quase 20% no contingente de funcionários privados pagos pelo contribuinte.
Os números oficiais contam a história sem os floreios do marketing político. Em dezembro de 2022, no apagar das luzes do governo Bolsonaro, o Palácio do Planalto mantinha 895 servidores terceirizados, o que a meu ver já era muito. Bastaram menos de quatro anos para que esse contingente saltasse para 1.064 trabalhadores, conforme os dados mais recentes de maio deste ano. É um exército de serviçais mobilizado para garantir que nenhuma engrenagem dos caprichos palacianos sofra qualquer atrito.
Ao esmiuçar a folha de pagamento dessa estrutura, o que se vê é um padrão de privilégios que evoca tempos imperiais. Lula, cujo gosto por hotéis de luxo e frotas de limusines em agendas internacionais já é de conhecimento público, replica a lógica da ostentação dentro de casa. Para garantir os seus deslocamentos e os de sua comitiva, a Presidência mantém à disposição uma tropa de 75 motoristas!!! Todos, evidentemente, financiados pelo bolso do cidadão que, na ponta final, muitas vezes depende de um transporte público precário.
A hospitalidade dos palácios também exige cifras astronômicas. O cidadão comum talvez imagine que a rotina de servir cafezinhos e águas nas reuniões ministeriais seja algo enxuto. Ledo engano. O contingente dedicado exclusivamente a essa função impressiona: são 52 copeiros em atividade. Se isso não bastasse para aplacar a sede e o apetite das autoridades, somam-se a eles outros 81 garçons de prontidão.
O paradoxo da segurança é outro capítulo que chama a atenção. A Presidência da República tem à sua disposição a estrutura de elite da Polícia Federal, o aparato do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e o respaldo logístico das Forças Armadas. Ainda assim, sob a tutela direta do Planalto, mantêm-se 38 vigilantes privados terceirizados. É a sobreposição de funções financiada pelo mesmo pagador de impostos.
A lista de especialidades contratadas parece não ter fim e detalha caprichos específicos do cotidiano do poder. São 26 recepcionistas, seis gesseiros, quatro piscineiros dedicados à manutenção das águas palacianas e até um chaveiro exclusivo de plantão!!! A engrenagem conta ainda com um corpo técnico que inclui arquitetos e engenheiros, transformando a estrutura administrativa em uma verdadeira corte autossuficiente.
O aumento expressivo no número de terceirizados na Presidência é o sintoma de uma mentalidade que enxerga o Estado não como um prestador de serviços ao cidadão, mas como um provedor de confortos para quem o comanda. No teatro político de Brasília, o discurso é de sacrifício coletivo e ajuste de contas. Nos bastidores dos palácios, contudo, a ordem é expandir o exército de serviçais, assegurando que o rigor da crise passe bem longe dos tapetes vermelhos do Alvorada.
A credibilidade de qualquer política de austeridade depende, antes de tudo, do exemplo dado por quem governa. Sem isso, todo discurso sobre responsabilidade fiscal corre o risco de soar apenas como mais um pedido de sacrifício dirigido aos mesmos de sempre.

