28 de junho de 2026
Tecnologia

O problema nunca foram as bets. O problema é a cultura da irresponsabilidade

Nos últimos anos, o Brasil transformou as apostas esportivas em um dos principais debates nacionais. Para muitos, as bets seriam as grandes responsáveis pelo endividamento das famílias, pela compulsão em jogos e até pela deterioração financeira de milhares de brasileiros. Outros direcionam suas críticas aos influenciadores digitais que divulgam essas plataformas, tratando-os como os grandes culpados pela expansão do setor.

Mas talvez estejamos discutindo o problema errado.

As bets não criaram o comportamento humano de assumir riscos. O jogo acompanha a humanidade há milhares de anos. Cassinos, loterias, bingo, rifas, corrida de cavalos, jogo do bicho e mercado financeiro sempre envolveram a possibilidade de ganho rápido e perda igualmente rápida. O que mudou foi o meio pelo qual essas oportunidades passaram a ser oferecidas.

O verdadeiro problema brasileiro não é a existência das apostas. É a cultura paternalista que insiste em retirar do indivíduo qualquer responsabilidade sobre suas próprias escolhas.

No Brasil, sempre buscamos um culpado externo. Se alguém bebe em excesso, culpa-se a propaganda da cerveja. Se alguém compra além do que pode pagar, culpa-se o banco que concedeu crédito. Se alguém passa horas nas redes sociais, culpa-se o algoritmo. Agora, se alguém aposta compulsivamente, culpa-se a casa de apostas ou o influenciador.

Pouco se fala sobre a responsabilidade daquele que apertou o botão de “aceito”, realizou o cadastro, depositou dinheiro repetidas vezes e decidiu continuar apostando mesmo após sucessivas perdas.

Isso não significa ignorar que o vício em jogos exista. Ele existe e merece tratamento sério, como qualquer transtorno relacionado à dependência. Entretanto, não se pode transformar toda pessoa que perde dinheiro em apostas em vítima incapaz de responder por seus próprios atos. A exceção não pode se tornar regra.

Existe ainda um problema mais profundo: a deficiência educacional.

O sistema educacional brasileiro dedica pouquíssimo espaço ao ensino de matemática financeira, estatística, probabilidade, análise de risco e tomada de decisão. Milhões de brasileiros chegam à vida adulta sem compreender conceitos básicos como juros compostos, valor esperado ou gestão financeira pessoal.

Como consequência, cria-se um ambiente perfeito para decisões impulsivas.

Não é apenas nas apostas.

A mesma falta de educação financeira explica por que tantas pessoas caem em pirâmides financeiras, compram cursos que prometem enriquecimento instantâneo, acreditam em golpes do PIX, investem em esquemas fraudulentos ou seguem “gurus” que prometem rentabilidades irreais.

O problema não é o produto. É a incapacidade de avaliar riscos.

Outro ponto frequentemente ignorado é a cultura brasileira da terceirização da culpa.

Vivemos em um ambiente onde fracassos individuais frequentemente são reinterpretados como falhas coletivas. Se alguém perdeu dinheiro apostando, busca-se responsabilizar quem ofereceu a plataforma. Se alguém investiu sem estudar, culpa-se quem vendeu o investimento.

Essa lógica produz um efeito perverso: quanto menos responsabilidade individual se exige, menor é o incentivo para que as pessoas desenvolvam autonomia, senso crítico e capacidade de decisão.

Isso não significa defender um mercado sem regras.

É absolutamente legítimo exigir fiscalização, combate à publicidade enganosa, proteção de menores, transparência nas probabilidades, mecanismos de prevenção ao jogo compulsivo e punição para operadores ilegais.

Da mesma forma, influenciadores que ocultam publicidade, simulam ganhos inexistentes ou induzem seguidores ao erro devem responder civil, administrativa e, quando cabível, criminalmente.

Mas nenhuma dessas medidas substitui aquilo que realmente transforma uma sociedade: educação.

Enquanto continuarmos formando adultos incapazes de interpretar probabilidades, administrar dinheiro, distinguir risco de oportunidade e assumir as consequências de suas escolhas, apenas mudaremos o alvo da culpa.
Hoje são as bets.

Ontem foram as criptomoedas. Antes delas foram os empréstimos consignados. Amanhã será qualquer outro setor que envolva decisões financeiras.

O Brasil precisa abandonar a cultura do paternalismo permanente e investir na construção de cidadãos mais preparados para exercer a liberdade com responsabilidade.

Uma sociedade madura não elimina escolhas arriscadas. Ela forma indivíduos capazes de entendê-las.

Porque liberdade e responsabilidade sempre caminham juntas. Quando uma desaparece, a outra inevitavelmente deixa de existir.

Bruno Cesar Oliveira

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

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