Esta extraordinária Copa do Mundo trouxe de volta Cauby Peixoto.
A Copa do Mundo é o maior evento planetário. Mexe com as emoções de mais gente, e de maior número de países, do que qualquer outro grande acontecimento. Mais do que as Olimpíadas, a Assembléia Geral da ONU, a cerimônia do Oscar, a passagem de quatro bípedes desplumados pertinho da Lua.
Para mim, esta Copa 2026, a maior que já foi feita, a primeira com 48 seleções nacionais, ante as 32 das últimas décadas, esta Copa que vem se revelando extraordinária desde o início, desde os seis gols de Messi nos três primeiros jogos de nuestros odiados & amados hermanos, teve um efeito colateral inesperado, esquisito, gostoso. A Copa 2026 trouxe de volta Cauby Peixoto!
A culpa é da Africa Creative, a agência de publicidade criada em 2002 por Nizan Guanaes e outros bambas. E aqui é preciso registrar que o Brasil, se é ou pelo menos já foi o país do futebol, tem também dois outros campos em que é um dos melhores do mundo: a música – nosso melhor produto, na minha opinião – e a publicidade.
Os Washington Olivetto, os Nizan Guanaes, os Duailibi-Petit- Zaragoza atuais da Africa criaram para a cerveja Brahma uma campanha chamada “Tá Liberado Acreditar”, com uma linha de comerciais que é um espanto, uma maravilha, uma obra-prima de se aplaudir de pé como na ópera – ou no estádio de futebol.

A base da campanha é o fato de que, neste ano da graça (melhor talvez fosse dizer da desgraça) de 2026, uma pesquisa mostrou que 72% dos brasileiros não acreditam que a Seleção vá ganhar a Copa. Um jornal com essa manchete – “72% do Brasil não acredita no hexa” – é enrolado, vira uma bola e passa a ser chutado por um bando de gente. O espetacular filmete de lançamento – que depois seria dividido em vários menores, é claro – tem a enormidade de 3 minutos e 40 segundos, e, como participações especiais, tem Ronaldinho Fenômeno e Mister Carlo Ancelotti. (Jamais vou entender por que Carlo Ancelotti é Mister, e não Signore, mas tudo bem…)
Ao longo do filmete comprido – e nos trechos pequenos extraídos dele –, ouve-se uma voz forte, ampla, quase operística, uma voz nada bossa nova, cantando um samba que, posso jurar, nenhuma pessoa de menos de 60 anos de idade jamais tinha ouvido na vida. Mas que, em compensação, todos os brasileiros de mais de 60 anos conheciam, e estava lá no fundo de suas memórias:
Samba blim
Blim blau
Tamanco batucando no quintal
Samba blim
Blim blau
Tamanco levanta poeira do chão
Tamanco levanta poeira do chão.
***
Eu me lembrava perfeitamente da música, da letra. Canção que a gente ouviu muito quando criança e início da adolescência fica gravada lá nos neurônios que na época eram novinhos, fresquinhos. Depois que vi o comercial, a canção não saía da minha cabeça. Cantei “Samba blim / Blim blau / Tamanco batucando no quintal” pela casa até a Mary não aguentar mais.
Mas porém todavia contudo… Não identifiquei quem era o cantor!
Logo eu, que acho que, se conheço alguma coisa na vida, é MPB.
Achei que poderia ser Simonal. Simonal também tem uma voz potente, redonda, com gingado, e a canção tem muita ginga, um quê de malandragem, de pilantragem. O mais puro sambalanço.
Mary foi ao Tio Google antes de mim.
Que Simonal, que nada. É o Cauby, diacho! Óbvio que é o Cauby!
(É incrível como, depois que a gente checa esse tipo de informação que não tinha jeito de vir à nossa memória, fica parecendo óbvio demais. Como é que eu pude não reconhecer a voz do Cauby, meu Deus do céu e também da terra?)
“Tamanco no Samba”, de Orlandivo e Helton Menezes, foi gravada por Cauby no álbum Tudo Lembra Você, da RCA Victor, de 1963, e foi lançado também em compacto simples, com “A Noite de Ontem” no lado B. Além dele, gravaram o sambalanço Célia Reis, Cláudia Telles, a orquestra de Waldir Calmon e o próprio compositor Orlandivo.
Mas acho que dá para dizer com segurança que o grande sucesso da música foi mesmo a gravação de Cauby Peixoto, essa figura extraordinária, marcante, para quem as pessoas da minha geração em geral torciam o narizinho empinado, por considerar meio brega – embora o termo não existisse naquela época tão distante.
Quando Cauby lançou “Tamanco no Samba”, os ginasianos como eu gostavam de piadinhas sobre ele. (Adolescentes, ginasianos, gente da quinta série – todos sabemos – adoram piadas idiotas.) Nós o chamávamos de Caubycha – e riamos ao dizer que quando ele cantava “Conceição” o auditório gritava “Trinta”!
(Acho que muita gente não entenderia hoje essa piada infame. Mas explicar piada não dá pé, certo?)
Ainda bem que a juventude é uma doença que o tempo cura.
Cauby Peixoto merece respeito.
E “Tamanco no Samba” é uma delícia. Que nem ver um gol de Vini Jr.
Fonte: 50 anos de textos

