
Gente, outro dia, bisbilhotando o Instagram — esse zoológico antropológico a céu aberto – assisti a um desabafo da Silvia Poppovic sobre restaurantes brasileiros. Boni concordou.
E quando Silvia e Boni concordam sobre barulho, convém ouvir. Se conseguir, claro!
Porque sair para jantar no Brasil, hoje, exige mais preparo emocional do que apetite. Virou modalidade radical.
Você entra para comer e, sem perceber, está inscrito num Ironman auditivo.
É Não é só ruído não. É o conceito do caos.
As pessoas falam como se uma estivesse aqui em BH e a outra em Tóquio.
Celulares berram em viva-voz, porque compartilhar o áudio da própria vida virou gesto comunitário.
Até que surge o auge civilizatório:
De tempos em tempos, alguém faz aniversário. E ninguém escapa. O restaurante inteiro é convocado para cantar parabéns para um desconhecido. É quase um serviço militar.
E não importa se é restaurante estrelado ou boteco: a falta de educação democratizou o país.
Mas peraí, peraí. Não estou generalizando. Uma honrosa minoria escapa — by the way.
Há restaurantes onde ainda se janta em paz. Agora, se algum dono se ofender com o que digo, talvez esteja apenas reconhecendo o próprio salão.
Há também o desfile.
Gente que não saiu para jantar. Saiu para ser vista jantando. O prato é coadjuvante. E a pose, protagonista.
E, antes de comer, fotografa-se a comida — como se o risoto tivesse vocação para influencer.
Não se janta. Produz-se conteúdo.
O paladar virou figurante. E o algoritmo? – maître.
E os restaurantes colaboram, viu?
Acústica parece superstição. Porque quanto mais eco, mais “atmosfera”.
Lugar bom, hoje, parece ser aquele em que ninguém ouve ninguém.
Portanto, não surpreende porque tanta gente prefira o caminho revolucionário: ficar em casa. Convidar amigos. Abrir um bom vinho e conversar em volume humano.
Em casa, milagrosamente, a comida volta a ter gosto e a companhia, voz. Um luxo!
Silvia tem razão, gente. Boni também.
Sair para jantar não deveria exigir nem tampões de ouvido nem heroísmo. Mas, às vezes, exige.
Bon appétit.
E sobrevivam!

