
O que temos presenciado nas últimas semanas é o acirramento dos debates e a tomada de responsabilidade por parte de alguns governadores para as mudanças conjunturais no cenário político nacional.
O parlamento está engessado pela inoperância vergonhosa de Davi Alcolumbre e Hugo Motta, no congresso e no senado. Ambos se venderam ao fisiologismo petista e não votam projetos e demandas da oposição. Eles transformaram o parlamento num puxadinho do STF e do governo.
Correndo por fora, ancorados por votações expressivas em seus colégios eleitorais estão os governadores Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas. Os três são os que mais confrontam o governo e causam estragos dada a discrepância até de nível intelectual.
Os dois primeiros assumiram a responsabilidade de empreender a jornada pela sucessão à presidência da república, enquanto Tarcísio, de apoiar Flávio Bolsonaro, atendendo a pedido de Jair Bolsonaro. Por essa razão tem ido para cima de Lula e feito críticas ácidas à inoperância do estado petista.
Como fez na ocasião em que recebeu em 21 de abril de 2026 o Grande Colar da Inconfidência, a mais alta honraria concedida pelo governo de Minas Gerais. A medalha foi entregue em Ouro Preto durante as celebrações do Dia de Tiradentes.
Na ocasião, o governador fez um discurso bastante contundente, criticando as mazelas do patrimonialismo que capturam o estado. Ele fez um breve passeio pela história da República e disse que as motivações que levaram à Inconfidência Mineira, nomeando todos os combatentes, e lembrou que a mão pesada do estado continua vitimizando os brasileiros, como foi no passado. “Porque o Brasil não dá certo?”, desabafou.
Os três estados juntos, Minas, São Paulo e Goiás, em um elenco de 26, representam mais de 43% do PIB nacional, sendo que somente a capital paulista concentra 10% de todas as riquezas do país. Portanto, as vozes desses governadores não são dissonantes, têm enorme relevância e incomodam o poder.
E é por essa razão que a esquerda está migrando seus “ases políticos” para o colégio eleitoral paulista e está injetando muito dinheiro em impulsionamento de notícias e agências de pesquisas. Seus soldadinhos mequetrefes de perfis restritos estão qualhados pelas mídias sociais, gerando fakes e causando confusão.
Para o PT, que tem o caixa do país no bolso, mas sem produzir quadros na política nacional há anos, resta Fernando Haddad, o perdulário. Para o partido, ele vai levar o governo paulista, em dobradinha para o senado com as inexpressivas Marina Silva, do Acre, e a sul-mato-grossense Simone Tebet – duas estafetas de Lula, execradas pela opinião pública. Não basta a injeção de dinheiro público em campanhas que prometem ser fragorosos fiascos.
Essa tomada de posição mais dura por parte dos governadores acontece em um momento crucial, que prenuncia um limiar entre o que vai sobrar de um narcoestado falido, permeado pelo fisiologismo, corrupção, judicialização da vida pública e desprezo pelos valores sociais e o que virá. A interrupção desse sistema podre e a retomada da democracia é crucial porque ninguém aguenta uma nova edição petista.
Nesse contexto, não importam os partidos de filiação política e quem os lideram, nem mesmo o fato de existirem ou não em suas fileiras nomes alinhados ao centrão. O que vale no momento é o exemplo de quem fala ao público, quem chama a briga para si com a aprovação dos eleitores. O resto é filigrana. E quem não entender esse jogo e se prender a extremismos vai ficar sozinho no convés, para afundar com o barco. Ou pega o bote ou se afoga.
Entre os líderes citados não há exemplos de envolvimento com negociatas, mas de exemplos de pulso firme frente às suas gestões, probidade administrativa e respeito ao caixa dos estados.
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, deixou seu segundo mandato com aprovação de 62% dos eleitores, para disputar a corrida presidencial. É visto como exemplo de retidão na gestão pública.
Ele herdou um estado colapsado pelo petista Fernando Pimentel, com uma grave situação de calamidade financeira, com calote a servidores e municípios. A dívida monumental chegou a pouco mais de R$ 36 bilhões. Só em saúde e educação o passivo atingiu R$ 6 bilhões. Em valores de 2025, a dívida do estado ultrapassou um total de R$ 200 bilhões. Uma tragédia.
E foram esses números que Gilmar Mendes jogou no ventilador, numa entrevista à Globo. Eivado por um vergasto rançoso, o ministro disse que quando precisou, Zema foi ao STF negociar. Mas o que deve fazer o representante de um estado? Ele fez o seu trabalho, mas quem causou a catástrofe sequer foi citado.
Zema cortou os gastos e adotou uma estratégia de austeridade fiscal, renegociou dívidas e promoveu parcerias com a iniciativa privada e conseguiu abater 20% das dívidas. Com as medidas, ano a ano veio obtendo superávit orçamentário, como o de R$1,2 bilhão obtido em 2025. Ele fez a lição de casa e agiu no estado, com faz com seus negócios – nada de prejuízo.
Mesmo ridicularizado pela oposição pelo seu perfil e linguajar de simplório mineirês, Zema não se rendeu ao sistema. O que faz dele um pré-candidato de envergadura em gestão pública.
Nas últimas semanas, Zema adotou um tom mais forte e começou a rebater o STF, acendendo a ira dos que ele chama de “intocáveis”, os ministros do supremo. Gilmar Mendes o alvo das maiores críticas ficou picado e baixou o nível. Mas o governador não vai parar. Ele é obstinado em seus propósitos.
Ronaldo Caiado, veterano na vida pública entre os presidenciáveis conservadores, é o mais experiente e o que apresenta os melhores índices em seu estado. Deixou o governo com um índice de aprovação de 84,7%.
Em1989, após a democratização, Caiado, então com 40 anos, se lançou como candidato à presidente, representando a bancada ruralista. Portanto, não é principiante nessa iniciativa.
Exerceu mandatos como deputado federal e senador. E como governador foi eleito em primeiro turno nos dois mandatos. Mas no cenário nacional, não tem a mesma performance, em que pese ter mudado de legenda e se juntado ao PSD, a máquina política de Gilberto Kassab. Talvez seja sua última chance como candidato à presidente.
Seu legado em Goiás foi o equilíbrio nas contas públicas, a educação e a segurança pública. Recuperou a saúde financeira do estado e empreendeu uma verdadeira cruzada contra a criminalidade. E diz: “em Goiás bandido não se cria”.
Talvez merecessem entrar para essas fileiras de governadores exemplares e estar presentes na disputa presidencial também, os governadores Ratinho Jr, do Paraná, e Jorginho Mello , de Santa Catarina. Porém, ambos enfrentam situações complicadas em seus estados, por motivos bem diferentes, mas que os fizeram refluir nas pesquisas da política nacional e desistir da intenção.
Com base em informações deste mês de abril, Ratinho Júnior continua involucrado em um cenário complexo que mistura investigações financeiras, denúncias de corrupção envolvendo aliados e problemas de transparência na privatização de empresas estatais.
Mas o pior de tudo foi a possível envolvimento do Grupo Massa, ligado à família (mais especificamente a seu pai), com operações financeiras suspeitas que surgiram nas investigações do Grupo Master, no montante de R$ 24 milhões, no período entre 2022 e 2025. Essa foi a principal razão pela sua desistência de participar da corrida eleitoral pela presidência. Seria massacrado pelos opositores.
Outro problema que pesou foram as irregularidades encontradas na privatização da Celepar. Há denúncia de falta de transparência na contratação de empresa espanhola, sem licitação. O processo enfrenta questionamentos no Ministério Público. Vale ressaltar ainda que o processo de privatização foi suspenso pelo STF, na pessoa do ministro Flavio Dino, um prócere do PT.
Aliás, quando o assunto é estatal o PT se desespera. Perder um caixa polpudo para o serviço privado não é opção. Toda narrativa vale para dar um caráter legal aos fatos e preservar as estatais, que na verdade funcionam como balcões de negócios e de “venda” de cargos.
Pesam ainda sobre Ratinho Júnior possíveis fraudes em licitações. Como uma movimentação suspeita no valor de R$ 54 milhões por um secretário de governo. Por tudo isso ele abandonou a corrida presidencial.
E como não pode se reeleger, por estar no segundo mandato, não decidiu ainda se vai disputar a uma vaga no senado pelo PSD, fazendo uma dobradinha com Ronaldo Caiado, ou se afastar para cuidar dos seus negócios.
O seu indicado para a sucessão no governo é o deputado federal e ex-secretário de infraestrutura e logística, Sandro Alex. Contudo, o senador Sérgio Moro, pré-candidato do PL ao governo paranaense, lidera as pesquisas no estado.
Jorginho Mello, governador de Santa Catarina, por sua vez, enfrenta uma mistura de polêmicas políticas, investigações sobre segurança pessoal e desafios de gestão no seu mandato.
Nada que efetivamente resvale em seu caráter ou honra, mas investigações policiais que envolvem ameaça de morte, polêmicas de separatismo, racismo e “fogo amigo”.
Devido a uma brincadeira feita em meados de 2025, sobre a separação de estados do Sul do resto do país, passou a ser massacrado por opositores.
Em outra polêmica, Jorginho sancionou uma lei que proíbe as cotas raciais em universidades estaduais, gerando controvérsias e denúncias de inconstitucionalidade. Fato agravado também por comentários em relação à pele branca numa festa pomerana. Por essa razão, foi acusado de racismo. O processo já foi arquivado, mas gerou desgastes e um trabalho extra para a equipe de crise do governo.
Além de tudo isso, o catarinense enfrenta outro problema: fogo amigo. Jorge Bornhausen, político de direita de 88 anos, considerado uma espécie de “kaiser” no estado, manipula o cenário político em Santa Catarina há décadas e tem se empenhado em destruir a reputação do governador.
Só que essa guerra política escalou para o nível criminal em março de 2026, tornando-se o maior escândalo político do estado.
Bornhausen acusou publicamente Jorginho Mello de tentativa de suborno político. Segundo ele, o governador ofereceu R$ 300 milhões em investimentos estaduais para a prefeitura de Chapecó. Em troca, o prefeito João Rodrigues (PSD) deveria desistir de sua candidatura ao governo em 2026, limpando o caminho para a sua reeleição.
O caso foi parar no Ministério Público, por suposto crime eleitoral e uso indevido da máquina pública. Tudo isso porque Bornhausen, como grande estrategista do PSD no estado, vê a candidatura de Jorginho Mello como um obstáculo para a hegemonia de seu grupo político. Seu objetivo é inviabilizar o candidato do PL em 2026.
Um detalhe: o filho de Jorge, Paulinho Bornhausen, é secretário de Jorginho Mello e saiu em defesa do governador. Com tantos desgastes, apesar de cotado para a presidência, decidiu se afastar, apoiar Flávio Bolsonaro e enfrentar o segundo mandato. A gestão de Jorginho Mello é aprovada por mais de 50% dos eleitores.
Mesmo diante de um quadro geral crítico, no país há ilhas de exceção e bons combatentes nas unidades da República. A briga é grande, mas quando os combatentes têm envergadura moral e competência, os resultados são inequívocos.
Ainda é pouco, pois a maioria dos estados vive dependurada nos êxitos daqueles que apresentam resultados. Uma discrepância que o congresso, mais dia menos dia, terá que resolver.

