
Em um país onde o trabalhador médio celebra o décimo terceiro como um milagre econômico e estuda o extrato do FGTS com a solenidade de um texto sagrado, há quem nos ofereça uma perspectiva diferente sobre o que significa “ter dinheiro”. A notícia de que o casal Moraes e Viviane investiu mais 23 milhões de reais em imóveis, pagos à vista, é mais do que uma manchete. É uma peça de teatro do absurdo, encenada no palco da vida real para nos lembrar de nosso devido lugar.
Se a moda pega, o corretor de imóveis pode trocar o cafezinho por champanhe e passar a atender pelo título de “consultor de liquidez instantânea”. Afinal, nem o mais otimista dos mortais costuma chegar a um cartório com a leveza de quem paga um cafezinho — e sair de lá com escrituras que somam mais de R$ 23 milhões, à vista, como quem resolve a conta no débito.
Enquanto o brasileiro comum faz malabarismos para entender por que o quilo do feijão parece cotado em dólar, o casal de ouro do momento, Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane, resolveu mostrar que a crise é apenas um estado de espírito — ou, no mínimo, algo que não frequenta o condomínio deles.
Segundo registros de cartório, o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa teriam adquirido imóveis nesse valor, sem recorrer a financiamento. Nada de parcelas intermináveis, nada de juros que fariam corar qualquer gerente de banco. À vista!
No país onde o cidadão médio financia o sonho da casa própria em 30 anos — e ainda agradece —, esse tipo de operação causa, no mínimo, uma leve curiosidade. Não necessariamente jurídica, que fique claro, mas quase antropológica. Que espécie de fauna financeira é capaz de tamanha desenvoltura?
É realmente inspirador observar tamanha confiança na economia nacional. Enquanto a maioria dos mortais gasta três décadas para quitar um apartamento de 50m2, o casal demonstra uma agilidade invejável na gestão do fluxo de caixa pessoal. Afinal, quem nunca guardou uns 23 milhõezinhos no porquinho para uma oportunidade imperdível de última hora? Justiça seja feita: em tempos de juros altos, pagar à vista não é apenas uma demonstração de poder, é economia doméstica levada a um nível estratosférico.
Vamos refletir sobre a beleza da expressão “à vista”. Para a maioria de nós, isso significa usar o cartão de débito em vez de parcelar em 12 vezes com juros. Para outros, aparentemente, significa mobilizar uma quantia que poderia financiar um bairro inteiro com a mesma facilidade com que pedimos um café. Esqueça a burocracia do financiamento imobiliário, a montanha de papéis, a análise de crédito que nos humilha. Estamos falando de uma pureza financeira quase poética, uma relação com o dinheiro tão direta que dispensa intermediários, bancos e, quem sabe, até perguntas.
Nada disso, evidentemente, constitui crime por si só. Comprar à vista é perfeitamente legal. O detalhe que incomoda não é a legalidade do ato, mas o contraste gritante com a realidade nacional — esse abismo silencioso entre quem vive de salário e quem transita com cifras que dispensam parcelamento.
A ironia suprema reside na “transparência” de tal ato. É tudo registrado em cartório, claro. Mas a origem e o transporte de 23 milhões em espécie são detalhes que a nossa vã filosofia, acostumada a declarar até o último centavo no Imposto de Renda, simplesmente não consegue processar. Seria em malas? Carrinhos de mão? Ou talvez exista um serviço de entrega “prime” para quantias que superam o PIB de pequenas cidades?
Resta saber se o próximo investimento será uma ilha privativa ou se eles vão apenas continuar colecionando metros quadrados de luxo pelo país com a mesma facilidade com que se coleciona selos. Por enquanto, fica a valiosa lição para o trabalhador brasileiro: se sobrar um troco do transporte público este mês, não gaste tudo em bobagens. Quem sabe, em alguns milênios de economia severa, você também não consiga assinar uma escritura sem precisar de um carnê. Haja caneta para tanto registro de imóvel; é o Brasil avançando, ou ao menos, o patrimônio de quem sabe onde assinar.
Enquanto nos preocupamos com o limite do PIX noturno e a segurança de andar com duzentos reais na carteira, a notícia serve como um lembrete agridoce. Há dois Brasis: o nosso, que vive de boletos e limites; e o outro, um universo paralelo onde a liquidez é tão vasta que se torna abstrata, e a compra de um palácio é apenas mais um item na lista de compras da semana. Sem juros, sem preocupações e, claro, sem limites.
É claro que tudo é absolutamente legal, transparente e declarado. Afinal, estamos falando de um guardião da Constituição, não de um simples mortal sujeito às mesmas regras chatas de declaração de IR que o resto da nação.
E assim seguimos, entre o carnê e o cartório, entre o financiamento e o pagamento à vista, entre a realidade e a exceção. No Brasil, há quem conte centavos — e há quem conte imóveis.

