23 de maio de 2022
Walter Navarro

Vento Forte Para Um Papagaio Subir


(And now, the end is near and so I face the final curtain
My friend, I’ll say it clear. I’ll state my case, of which I’m certain
I’ve lived a life that’s full. I’ve traveled each and every highway
But more, much more than this. I did it MY WAY)
Vida e Morte de uma Alegria!
Conheci Otávio Clementino há uns 23 anos mais pra menos. Foi em seu clube, como ele gostava de nomear, o Primo Prima.
Clube, boate, bar, lupanar, nosocômio, curral de aflitos e desesperadas; todos beliscando azulejo. Deliciosa, enfumaçada e barulhenta loucura.
Por causa das impressões digitais de Matusalém no ambiente, o primo Paulo Navarro, maldosamente, chamava o espaço de “Avô Avó”… Mas não saía de lá, sempre em busca de mais uma aeromoça do 14 Bis, sempre servido pelos garçons da Última Ceia.
Nunca consegui acompanhar os “habitués” porque a noite deles, invariavelmente, durava noite e madrugada inteiras.
Mas sempre tive vontade de ser vizinho do Primo Prima, só pra explicar que o pecado morava ao lado.
Pecado para os fracos e beatas que fazem Deus perder a fé.
Eu achava o nome dele engraçado porque me lembrava a Clementina de Jesus cantando: “Não vadeia Clementina”.
Até tentei entoar um “Não vadeia Clementino”, mas logo vi que era Missão Impossível. O homem nasceu pra vadiar e este elogio o define perfeitamente.
Quando conheci Otávio, de cara, já o achei a cara e o jeito de outro maluco beleza, José Celso Martinez Corrêa. A mesma extravagância de gestos e excesso de palavras. E olha que Zé Celso foi o único sujeito que não deixou o Jô Soares falar mais que o entrevistado…
Otávio soltava 269 palavras por segundo. 69 eu captava…
Otávio, dentro ou fora de seus domínios, nunca me pagou uma mísera dose de whisky, o que também nunca pedi. Em compensação, como era caro seu whisky! Kkkkkkk. Fazer o quê, né? Nova York é Nova York!
Mas sua generosidade vinha em dobro e de uma forma que ninguém pode negar; em forma de alegria, conversas alucinantes e risadas. E isso, meus amigos, não tem dinheiro de papel ou plástico que pague.
Otávio era muito engraçado, rápido no raciocínio que ganhava ares de piada.
Era, como Zé Celso, diretor e ator de seu teatro de vampiros.
Era exibicionista como os grandes artistas. Dançava e cantava sobre as mesas, possuído pela arte que mais amava e disseminava, a boa música.
Não à toa, a decoração que eu mais gostava no Primo Primo era uma foto. Uma fotomontagem onde ele se colocou, de smoking, entre seus ídolos do “Rat Pack”, Dean Martin, Sammy Davis Jr e, claro, o seu, o meu, o nosso Sinatra, Frank, Sinatra, que ora me inspira estas linhas despretensiosas.
Ele fazia um truque para seduzir os novos amigos. Os velhos também. Um negócio com o cigarro… Acho que sem usar as mãos, jogava o cigarro pra cima e conseguia abocanhá-lo pelo filtro, o lado certo… Malabarista de cigarros.
A última vez que falei com Otávio, não falei. Ele não deixava. Foi claro, no Primo Prima. Ele me apresentava venerandas senhoras, contava casos, ria, fumava e brincava ao mesmo tempo.
As raras vezes que o vi durante o dia, quase não o reconheci como simples mortal que, principalmente hoje, tenho certeza que ele era.
À luz do dia ele ficava até sério, flanando pela Savassi.
Era essencialmente uma criatura da noite.
Por isso, a última vez, de verdade, em que conversei com ele, foi no Rio de Janeiro, quando um bando de belorizontinos invadiu a cidade, para a reinauguração da boate Hippopotamus, em Ipanema, 2017.
Estávamos, no início da noite, antes da festa, no Belmonte de Copacabana. Domingos Ferreira?
De repente vejo, todo fagueiro, do outro da rua, sozinho, Otávio Clementino em passos galantes. Na mesa grande, cheia de damas e vagabundos, claro que sobrou pra mim chama-lo.
Atravessei a rua driblando carros e entregadores de gelo, abordando Otávio com meu bordão favorito: “Canalha!”.
Ele já virou-se rindo e, ao saber da plateia, chegou ao Belmonte antes de mim, em desabalada carreira.
Chegou já falando e encantando, literalmente pelos cotovelos.
À noite, ainda trocamos doces injúrias e difamações na Hippo, mas tinha muita gente e pouca conversa.
Ano passado, mais em Barbacena que BH, ainda estive com ele, esta última vez, no Primo Prima e ele já estava doente. Um pouco mais magro, mas com a verve intacta.
O resto da história dele todo mundo sabe agora e eu nem quero saber.
PS: Mon cher Otávio, não te aconselho o Paraíso porque vais morrer de tédio. Nem o Inferno, pois acabas de sair dele. Te desejo o Inferninho, é onde estão Sinatra, Vinicius e outros nossos amigos. Espero te rever, firme e forte como a pluma que eras, daqui uns 30 anos, OK? Beijos.
Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.