17 de abril de 2024
Colunistas Walter Navarro

Que Rita roubou meu sorriso e um braço de Noel?

Nos tempos dos dinossauros de Matusalém, muitos romances, originalmente, eram publicados em capítulos diários, nos jornais. Daí a palavra folhetim, do francês “feuilleton” que, até hoje são as chatas novelas francesas de verão, para atrair telespectadores, quando ninguém liga a televisão.

No verão escaldante de Paris, a cidade é dos turistas correndo de lá para cá, caçando monumentos para fotos, suando pela cidade, com um litrão de Coca-Cola quente na mão. Como os cariocas fogem do calor, subindo a Serra, os parisienses ricos descem para o litoral, mas antes, alguns gaiatos penduram irônicas placas no comércio fechado: “Estamos com os pés na água, voltamos dia 1º de setembro”.

Mas folhetins não existem mais. Neste admirável e lamentável mundo novo, os cada vez mais raros leitores não têm paciência, nem o hábito de seguir longas histórias em jornais e/ou em mídia nenhuma. Tudo precisa ser rápido e fácil de engolir como “fast food”.

Por isso, nunca publiquei, em jornal, três crônicas sobre minhas aventuras, numa única tarde, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, no início deste século, em busca do túmulo de Vinicius de Moraes (1913-1980).

Foi uma epopeia até muito engraçada. Não sei onde estão estas crônicas inéditas. Talvez em algum CD perdido na minha bagunça, em algum notebook estragado e com certeza, no HD da minha cabeça. HD que consigo abrir em longas e agradáveis tertúlias nos bares ou casa de amigos com inveja de Jó.

Minha ilíada no São João Batista é rica em detalhes e descobertas, teve mil percalços e um final feliz. Hoje de manhã, lembrei-me de um detalhe pitoresco e nem tão feliz.

Coveiros do São João Batista não são cultos como seus colegas do cemitério Père-Lachaise, em Paris, outro museu a céu aberto, repleto de silenciosos e ilustres moradores. Assim, quando eu perguntava pelo túmulo de Vinicius de Moraes, faziam cara de Inútil Paisagem e respondiam qualquer coisa.

Um deles me respondeu com outra pergunta: “Vinicius? É um que tocava violão?”.

Respondi que até podia ser. Ele me ensinou a localização, mas não era Vinicius, era a tumba do cantor Francisco Alves (1898-1952), cujo apelido ainda é “Chico Viola”. Por causa desta viola, sobre a lápide de Francisco Alves, havia um violão em bronze. Havia! Há muito já tinha sido roubado.

Sobraram apenas as tristes garras de metal no negro mármore.

Absurdo? Sim, claro, mas se o brasileiro não respeitou nem a Taça Jules Rimet, a do Tri no México, transformando-a em caldo e barra de ouro, vai respeitar o violão de bronze do “Chico Viola”?

Dizem que o gelo conserva, o fogo destrói. Museu Nacional e Notre Dame sabem do que estou falando. Só o Trump não sabe disso, ele acha que o Aquecimento Global só derrete o gelo do meu whisky.

Contudo, não só as chamas destroem. O vandalismo, a “necessidade”, ganância, ignorância e ausência de valores também derretem ouro, prata e bronze. Derretam também quilômetros de fios de luz, cabos de energia, roubados e vendidos em ferro velho, nem tão velho assim.

Por que escrevi tudo isso?

Porque acordei com a notícia de que, aos poucos, estão roubando e derretendo a estátua de Noel Rosa (1910-1937), em Vila Isabel, no mesmo Rio de Janeiro, nosso Faroeste Caboclo.

“A delegacia está abrindo uma investigação… A prefeitura vai abrir uma licitação para a restauração”, kkkkkkkkkkk. Isso daria outro lindo samba de Noel.

Só fui à Vila Isabel uma vez, para pegar as chaves reserva de um apartamento emprestado, na Urca.

Era dezembro e fazia um calor panamenho de derreter catedrais quenianas e viadutos senegaleses.

Brinquei com amigos, que o calor da Zona Norte do Rio ia derreter Noel e o garçom que o servia na estátua em tamanho natural. O que sol e calor não fizeram, alguns cariocas estão cometendo.

Do garçom sobraram apenas as pernas, do joelho para baixo. De Noel, levaram o braço direito, o encosto de sua cadeira e o tampo de sua mesa, aquela da “Conversa de Botequim”, onde Noel suplica, entediado e com certeza, de ressaca: “…Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada. Um pão bem quente com manteiga à beça, um guardanapo e um copo d’água bem gelada. Feche a porta da direita com muito cuidado, que não estou disposto a ficar exposto ao sol. Vá perguntar ao seu freguês do lado, qual foi o resultado do futebol”.

Outra ironia, Noel não estar disposto de ficar exposto ao sol. Deveria ter pedido era uma grade ou proteção policial.

PS: No mesmo cemitério São João Batista, ao lado de Carlos Prestes (1898-1990), está também Tom Jobim (1927-1994), grande fã de Noel. Ainda bem que, no túmulo de Tom, não colocaram, num cantinho, um violão e muito menos um piano de bronze…

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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