29 de fevereiro de 2024
Colunistas Walter Navarro

A arte de amolar uma Jubarte

Não escrevo, creio, desde a morte de Rita Lee, mas não resisti à rima. Em pleno Carnaval, consegui meia hora, antes de voltar ao trabalho. O tema merece.

Amigo e mestre, Eduardo Almeida Reis (1937-2022), deixou ótimas lembranças, saudade e um monte de saborosos livros. Entre eles, “A arte de amolar o boi: manual do proprietário de sítios e fazendas”. Uma pena, o manual se sobrepor à arte de amolar o boi.

Principalmente porque, apesar de saber tudo sobre sítios, fazendas e afins; conheci e convivi com Eduardo, quando ele era “fazendeiro do asfalto”, em Belo Horizonte; um “gentleman”, com cara de lorde inglês e humor carioca afiado nas pedras de Minas.

Sou alucinado com as expressões vá “amolar o boi”, “pentear macacos”, “catar coquinho – com garfo e dor na coluna” e “ver se estou na esquina”. Convites mais adequados e educados para os mais diretos e comuns: “não encha o saco” ou “vai tomar no c…”. Difícil hoje é saber quem tem saco, o outro lado todo mundo tem e com mil e uma utilidades.

Pessoalmente, prefiro um insulto de minha lavra: “vá chupar meia”. Mais tarde, aperfeiçoada com mais sadismo: “vá chupar meia de maratonista com micose”. Modéstia às favas, meu insulto só perde para a maldição árabe: “que as pulgas de mil camelos infestem teus sovacos e que teus braços sejam muito curtos para coçá-los”. Uma maravilha!

Mas, voltemos à vaca fria ou à arte de amolar o boi. Imagino uma pessoa com absolutamente nada a fazer, nem mesmo um tratamento de canal sem anestesia. Seu programa então é achar um boi para ser amolado. Mas onde?

Em Belo Horizonte, em plena Zona Sul, no meu bairro, o Sion, já presenciei uma cena insólita: obstinado grupo tentando alcançar uma cabra, em desabalada carreira, na Rua Costa Rica, certamente fugindo da churrasqueira, em alguma favela, perdão, comunidade.

Mesmo em plena era de “O Amor nos Tempos da Picanha”, é raro flagrar um boi na cidade, mesmo num açougue, aqui, em Barbacena. Proponho então a quem precisar amolar um boi, visitar alguma zona rural, dessas que abundam em Minas.

Mas como é que se amola, perturba, incomoda um ruminante? Ruminante de quatro patas! De duas é fácil. E fica a dica. Na falta de boi, temos o carneiro, o veado, o camelo e a cabra vadia, tão cara a Nelson Rodrigues.

Fiquemos com o boi, porque camelos, só na Amazônia, ao lado de girafas, leões e tigres.

Bom, você teve sorte e achou um boi, uma vaca ou uma novilha. Parabéns, mas como amolá-los? Eu me postaria ao lado do boi e, com o dedo indicador ficaria espetando-o e dizendo: “Ôoooo boi! Ôooooo boi!”.

Mas cuidado com o coice! Ou boi não dá coice? Não sei. Cavalos e algumas pessoas de meu convívio dão.

Se o Ibama não te pegar por amolar o boi, o máximo que pode acontecer é ele, entediado, te ignorar e ir pastar alhures, te deixando espetando o ar. Missão cumprida, você pode voltar para casa e ligar a TV.

Contaram-me que, na falta de boi, um cara aí resolveu amolar baleias. Corajoso! Depois de ler “Moby Dick”, aconselho ninguém a incomodar estes cetáceos. O fim é trágico e certo.

É mister lembrar também que, baleia é como um elefante ou um gigante. Se uma baleia incomoda muita gente, dois elefantes e um gigante incomodam muito mais.

Temendo represálias, não vou contar quem amolou a baleia, mas o nome dele, claro, começa com J…

Querem saber? Dane-se, falo mesmo, sem medo: Jonas!

Jonas ousou desobedecer a Deus. E deuses e reis, sem a diversão de tenebrosas transações, são muito perigosos. Como castigo, Deus afundou o jet ski de Jonas que, no fundo do mar, foi engolido por uma baleia. Lá dentro, Jonas aprontou muito: deu festa, acendeu fogueira, importunou tanto as sardinhas e os robalos, que foi cuspido em terra firme, três dias depois.

Morales, quer dizer, moral da história: quando faço uma escolha errada, posso me arrepender e tentar de novo. Fugir da presença e da vontade de Deus, pode trazer perdas para os que estão com você no mar. Deus amava Jonas e também te ama, mas eu não!

Então, amigos e idolatradas, todo cuidado é pouco quando, com a cabeça vazia, você ouvir o diabo e resolver imolar quem amola bois ou mamíferos da ordem dos cetartiodáctilos, subordem dos cetáceos e infraordem dos misticetos.

Quem não tem cão, caça baleia com gato. Quem só tem rato, cassa e manda prender. Lei da Selva e dos Oceanos!

P.S.: espero não ter incomodado nenhuma hiena, tubarão ou escorpião. No país do carnaval, o importante é ser fevereiro e ter golpe pra gente sambar, não é verdade? O resto a gente vê depois.

Walter Navarro, Barbacena, 11 de fevereiro de 2024

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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