13 de junho de 2024
Colunistas Walter Navarro

Todo dia a mesma noite sem fim

Todo dia a mesma noite sem fim

O Brasil, (in) felizmente, não sabe o que é nazista, fascista, genocida e muito menos terrorista. No Brasil quem pensa diferente é racista, machista, dentista, taxista e malabarista.

E por falar em bêbados e equilibristas, “Caía… a tarde como um viaduto…”.

No caso do João Bosco e Aldir Blanc, o viaduto, provavelmente, é uma alusão ao elevado Paulo de Frontin que desmoronou, ainda em construção, na Tijuca, Rio de Janeiro, em novembro de 1971, matando 29 infelizes.

O amigo Borgerth me contou que um dos sobreviventes foi o cara que saiu do carro, no trânsito parado, para comprar cigarro. Do bar ele viu o viaduto desabar. Neste caso, prejudicial à saúde é outra coisa.

Nove meses antes, em Belo Horizonte, o Pavilhão da Gameleira despencou e esmagou 69 almas. E olha que o projeto era do Niemeyer!

Dia 24 de fevereiro de 1972. Um incêndio no edifício Andraus, São Paulo, consumiu 16 pessoas carbonizadas ou que se atiraram das janelas. Mesmo cenário de horror, dia 1º de fevereiro de 1974, também em São Paulo. O inferno na torre do Joelma exterminou 187.

No Carnaval de 1998, dia 22 de fevereiro, parte do edifício Palace II, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, desabou, fazendo oito vítimas, entre as 30 pessoas, de 120 famílias, que procuravam seus pertences no prédio condenado. Foram apenas oito porque o prédio já estava interditado. Foi implodido seis dias depois.

Em novembro de 2015, no rompimento de uma barragem em Mariana, aqui em Minas, por milagre, apenas dezenove pessoas foram engolidas.

Em 2014, na Copa do Mundo, um viaduto caiu em Belo Horizonte, matando dois azarados. Fichinha!

Para compensar as poucas mortes em Mariana, dia 25 de janeiro de 2019, outra barragem de minério, agora em Brumadinho, caprichou e levou 270 desta para melhor.

Todas estas tragédias não foram frutos de terremoto, tsunami, guerras ou bombas terroristas, juro.

Terroristas adoram o começo de ano! E vou nem falar de Israel x Palestina, de novo e sempre. Um atentado suicida e talibã matou, até agora, 61 fiéis em uma mesquita, no Paquistão.

Dia 7 de janeiro, de 2015, em Paris, um atentado islâmico eliminou 12 “infiéis”, na sede do jornal “Charlie Hebdo”.

Em 13 de novembro do mesmo ano, entre fuzilamentos, atentados suicidas e explosões terroristas, 130 mortes em Paris. 90, só no Bataclan.

Em 2016, no dia 14 de Julho, com J de Janeiro, festa nacional da França, outro fanático do Estado Islâmico jogou um caminhão, carga pesada, numa multidão, em Nice, sul da França, dizimando 86 “foliões”.

Bom, paro por aqui, porque acho que já matei quase mil…

Toda esta retrospectiva é pra falar de uma nova série, “Todo Dia a Mesma Noite”, na Netflix.

Uma exceção, uma boa surpresa no deserto criativo brasileiro.

Vi o primeiro capítulo e gostei. No Brasil não faltam crimes e tragédias. Falta é competência: bons diretores, roteiristas e atores.

E nas próximas catástrofes, como sempre, aconselho chamar os bombeiros. Esqueçam o Exército!

Na minissérie são apenas cinco capítulos, baseados no livro “Todo Dia a Mesma Noite: A História não Contada da Boate Kiss” (2018), de Daniela Arbex.

E dá-lhe janeiro! Dia 27 de janeiro de 2013, um incêndio na boate Kiss queimou, asfixiou, esmagou 242 pessoas e feriu 636 outras, em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Recomendo a série a todos que confundem terroristas com manifestantes pacíficos.

Porque ninguém precisa de grandes estudos para saber que terrorista não é só o cara que explode e se explode, que fuzila e degola. Terroristas também são engenheiros incompetentes e empresários gananciosos que economizam em segurança e desperdiçam vidas, fazendo do Brasil, todo dia a mesma lama.

PS: Ops! Quase esqueci! Sabem quem mata mais que terrorismo, incêndio, desabamento, bala de carabina, veneno estriquinina, pexeira de baiano, atropelamento de “automover” e bala de “revorver”? Ladrão! Corrupção!

Walter Navarro, Islamabad, 30 de Janeiro de 2023

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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