21 de maio de 2022
Walter Navarro

Trinta Anos Esta Noite


“Trinta Anos Esta Noite” (Le Feu Follet) é um puta filme de Louis Malle. Mais uma beleza roubada da “Nouvelle Vague” e de 1963.
A tradução em português de Portugal, como sempre, entrega o final do filme: “Fogo Fátuo”. Isso, muito antes de “contar o fim do filme” virar “spoiler”.
O filme registra as fátuas 48 horas de Alain Leroy, um fudido pela vida, como conhecemos muitos, que sai do hospital onde lutava contra a cachaça, ou melhor, o vício maldito da bebida, outra tragédia comum desde que homem descobriu as rodas que o álcool dá.
Sua amásia, Lydia, até que dá uma força, quando Alain volta a Paris, lugar ótimo para conhecer antes de morrer, morrer e, melhor ainda, viver.
Alain ronda a cidade, a procurar velhos amigos, sem encontrar.
No meio de olhares espia em todos os bares e nada.
Ah, se Alain tivesse quem bem lhe quisesse, esse alguém lhe diria: Desiste, esta busca e inútil. No máximo, vai encontrar um Pierre, bebendo com outras mulheres, rolando um dadinho, jogando bilhar.
Mas o que Alain encontra em suas andanças é um vazio existencial, que o fará…
Tudo será dito no próximo capítulo!
No ano 2000, eu e minha irmã, Nívea, ou teria sido a Gláucia? Não, foi Nívea, mesmo. Acompanhamos meu pai à sua festa de 50 anos de formatura pela faculdade de Direito da UFMG, em Belo Horizonte. 1950, o ano em que o Brasil tomou de 7X1 do Uruguai, no Maracanã.
Foi muito engraçado e emocionante ver aqueles senhores, quase octogenários, procurando, “proustianamente”, seus semelhantes, seus sobreviventes perdidos no tempo.
Eles mal se reconheciam, mas juro que vi lágrimas nos olhos do meu pai, sempre durão. Como pródigo filho, bebi por mim e por ele. Ninguém sabia, ainda bem, que meu lindo pai tinha apenas mais nove ou dez meses de vida.
Há 30 anos eu ainda não tinha 30 e nem sabia se ia chegar lá. Não só cheguei, como já quase dobrei a meta da Dilma. E sem mandioca!
Além de ultrapassar os 30 anos de idade, com velocidade de Nelson Piquet e Senna juntos, acabamos de comemorar 30 anos de formatura em Jornalismo, na PUC MG: julho de 1989.
Completei também 30 anos de Propaganda & Publicidade, na mesma PUC, fizeram festa, mas esqueceram de mim. Tudo bem, as melhores festas são aquelas que lembram de mim e, ainda por cima, me convidam.
Assim, dia 6 de julho, agora Dia de São João (Gilberto), no Buritis, comemoramos 30 anos de diploma. E fica aí.
As únicas coisas que aprendi foram na escola. Em Medicina não sei se a pessoa aprende e vira médico, mas não foi o curso de Jornalismo que me ensinou escrever. Os livros me ensinaram o pouco ou muito que sei, dependendo da Freguesia do Ó.
O que a faculdade me deu foi coisa muito maior e melhor: os amigos, entre colegas e professores.
Não tivemos festa de 10 anos. Ainda não tinha baixado a saudade. A de 20 anos, em 2009, foi estranha como a primeira Coca-Cola. Os primeiros 20 anos de ausência doem mais, envelhecem mais. A de 30 foi o oposto exposto.
Foi muito bom!
Os 30 anos só estavam do lado de fora e com muito frio. Por dentro, ainda somos os mesmos. Não como nossos pais, mas como Charles Aznavour cantando: “Ainda ontem, eu tinha 20 anos, eu acariciava o tempo, brincava com a vida, como a gente brinca com o amor”. E eu vivia dentro da noite veloz, sem contar meus dias que fugiam dentro do tempo afora”.
Confesso até que estava meio preguiçoso, um tanto receoso com este encontro marcado.
Acontece que, recentemente, o cordão dos amigos que se foram, como meu pai, Louis Malle, Charles Aznavour e João Gilberto, cada vez aumenta mais. Mas, por sorte ou teimosia, os vivos ainda são maioria.
Meus queridos desaparecidos continuarão desaparecidos e queridos em vastas emoções e lembranças. E para aumentar este Baú de Espantos, temos mais é que dividir novas histórias com os vivos. Mas só os vivos ainda vivos valem a pena e as delícias.
Não faço planos, com tanta antecedência, como o dia de amanhã, por exemplo.
Não sei se estarei; se todos deste julho estarão por aqui em julho de 2029.
Para este 2019, missão dada, missão cumprida.
Meu pai levou vida muito mais saudável e careta que a minha. E estou longe da genética do Mick Jagger. Luciana Gimenez que o diga!
Quem sabe, por acaso, por descuido, distração ou poesia chegaremos aos 50 anos de formatura, em 2039!
Desde que sem fraldas geriátricas, “please”…
Só quero chegar lá, se puder dizer a algum colega de bengala, sem perder a dentadura: “Minha cuidadora é mais gostosa que a tua”, kkkkkkkkkkkkkkk.
PS: Não vou contar o final do filme “Trinta Anos Esta Noite”, mas o ator principal, Maurice Ronet, morreu em 1983…

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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