28 de maio de 2022
Walter Navarro

“Resisto a tudo, menos às tentações”


Há exatos 16 anos guardo uma frase… Uma tentação…
Sou um colecionador de frases.
Sou alucinado por um bom entre aspas, um aforisma gostoso, uma citação peituda.
Amo a trilogia do meu sósia, Ruy Castro: “O Humor de Mau Humor”, “O Amor de Mau Humor” e “O Poder de Mau Humor”; com as mais suculentas tiradas de escritores, músicos, poetas, políticos, pensadores e gênios como Oscar Wilde, autor do título desta crônica.
Há 16 anos abafo um desabafo na garganta, na ponta dos dedos, na lapela, nas mangas, na cueca e até nas calcinhas que docemente arranco com os dentes.
“Tudo o que quero é voltar ao útero. Qualquer útero…”. (Woody Allen)
“Certa vez, durante a Lei Seca, fui obrigado a passar dias a comida e água”. (W. C. Fields)
“Minha receita para enriquecer? Acorde cedo, trabalhe muito, ache petróleo”. (J. Paul Getty)
“A Bolsa de Valores é algo assim como uma suruba em que você entra com a bunda”. (O Planeta Diário)
Confesso, tenho inveja mesmo!
E são milhares sem fim.
A frase que guardo há 16 anos, me guardando pra quando o carnaval chegar, tem nada de espirituosa, mas muito de ironia, não na frase, mas na atualidade.
Há 16 anos, estávamos no longínquo 2002 de sinistra memória.
Em 2002, Lula foi eleito, pela primeira vez.
Em 2002, eu e Diogo Mainardi éramos os únicos a dizer, escrever e profetizar que o Presidente Eleito era, na verdade, Presidiário Eleito.
Não quero loas, nem vou dizer a chata e pedante “Eu avisei…”. Agora o leite de Inês está derramado. Mas quem duvida, basta ler nossas crônicas. As minhas no jornal O Tempo, de Belo Horizonte; as do Diogo na revista Veja.
Nestes 16 anos fomos perseguidos, processados, caluniados, xingados, ameaçados. Diogo conseguiu fugir para Veneza, eu, “mifu”!
Foram 16 anos desperdiçados, pelo menos no meu caso, porque Diogo ficou rico, famoso e feliz. Ele está colhendo os frutos. Eu, o adubo deles, Kkkkkkkkkkkkkkkkk (amarelo).
Mas, sigamos, contento-me com minha porção Nostradamus. Quem sabe um dia, alguém vai escrever: “Bem que o Walter Navarro avisou…”.
2002! 16 anos!
Com tanto “mimimi”, “chororô” de petista e resistência Lorenzetti, eu bem poderia pedir um Bolsa Justiça e “assistir de camarote o teu fracasso, Palhaço”. Mas, sei que Godot é um furão.
Em 2002, eu estava na fila de um caixa do Carrefour. Logo atrás surgiu um cidadão, constatando e contestando uma nojenta inflação. Aos gritos, ameaçava: “Isso é um absurdo, um roubo… Mas isso vai acabar dia 1º de janeiro… Lula vem aí…”.
Olhei, escutei, calei, guardei na geladeira ao lado do champagne.
PS: A tentação é grande, mas não vou gritar, muito menos ameaçar: “Depois de tanto absurdo, tanto roubo… Isso vai acabar dia 1º de janeiro… Bolsonaro vem aí…”.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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