Quando eu era obrigado a ser feliz

Cuco
Tenho a estranha mania de não gostar de Natal, Réveillon e Carnaval, entre outras datas nostálgicas. Dá vontade de estar com todo mundo e, no fim, é a maior solidão, a dois, ou em multidão.
Pelo jeito, sobrevivi a todas. E, sinceramente, mesmo não gostando, espero testemunhar outros carnavais, Natais e anos novos, antigos e seminovos.
Nestas efemérides (adora esta palavra, só perde para hortifrutigranjeiros e picatoste) o melhor programa é “arrumar as coisas”, arrumar gavetas e botar a casa em ordem; principalmente quando, no meu caso, só um galpão e um armazém no cais do porto de Lisboa ou do Rio de Janeiro resolveriam meu problema.
Enquanto isso; fico esperando Godot, o bonde e a Mega Sena, abrindo caixas e tentando jogar alguma coisa fora. Diógenes explica! O interessante é que, quando você procura alguma coisa, acaba achando outras e bem mais interessantes.
Marcel Proust tinha suas “Madeleines”. Eu tenho as minhas, ainda que menos comestíveis, mas recheadas com o indefectível creme das lembranças.
Achei um “livro” que nem livro é. É este aí da ilustração. É uma publicação infantil, sem assinatura e por uma editora que, suspeito, nem existe mais, a espanhola Editorial Brughera.
Com toda a certeza este livrinho deve ter quase 50 anos. Pena não ter o nome do autor, data e/outra referência; apenas história, o que não é pouco. Pela idade está mui bem conservado. Lá ainda estão, como podem ver, os ponteiros de plástico azul que se movem, ensinando as horas que passam tão rápido, transformando minutos em quase meio século. Também está pouco amassado e algo rabiscado, sinal que, desde priscas eras eu já tentava fazer arte. Ops! Lembrei do político baiano, Prisco Viana, que agora é ainda mais prisco, porque morreu ano passado.
“O Relógio de Cuco”, através das horas, mostra a rotina diária do Ursinho. Desde 7h, quando acorda, até 20h, hora de dormir; passando pelas tarefas e atividades de todo dia como escola, almoço e brincadeiras com os amiguinhos. Com seus horários fixos, o Ursinho parece o metódico farmacêutico, Teodoro, o segundo marido da Dona Flor, de Jorge Amado, que se vangloriava por dominar a arte de “um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar”. Coisa de corno, né? Isso e minha bagunça, com certo alívio, lembram-me outro personagem, muito mais rico, o Gabriele, de Marcello Mastroianni, no estupendo filme, “Um dia muito especial”, do recém falecido, Ettore Scola.
Mas voltemos a Proust, please!
“O Relógio de Cuco” me levou láááááááááá pra trás, pro fundo do meu baú de felicidades. Lembro-me perfeitamente de como o ganhei. Eu devia ter uns 6 ou 7 anos (hoje tenho 53), em São José dos Campos ou Campinas, onde morei por causa de suas refinarias de petróleo. Meu pai foi advogado na Petrobras que o PT destruiu.
Meu pai me levou ao barbeiro, pra cortar os cabelos, claro, porque barba eu não tinha. Corte ridículo, tipo, militar, ou pior: “Príncipe Danilo”. Naquela época não existia Playboy e o cuco do Ursinho certamente serviu para me acalmar do suplício da tesoura e da máquina zero nas laterais. Mesmo hoje não gosto de perder tempo em barbearias. E olha que a moda voltou mais forte que nunca, principalmente em São Paulo.
Que saudade boa! Que falta faz meu pai! Ele costumava me levar a outros lugares que, aparentemente meus irmãos não curtiam. Lembro-me de ter ido umas duas ou três vezes à refinaria de Paulínia, em Campinas, onde catei enxofre que caía líquido dos caminhões e virava estalactites amarelas no asfalto.
Lembro-me de ir comprar guaraná, na distribuidora em Barbacena, quando tínhamos algum aniversário em casa. E lembro-me também, de novo em Campinas, de nossas idas ao Mercado Central, onde ele me fazia experimentar aquela azeitona pequenina, portuguesa e preta com pão francês. Até hoje adoro comer isso.
Ah meu Deus! Em que Brahmas, em que brumas, me perdi? Cadê, não o tempo perdido, mas a delicadeza perdida, a inocência de quando eu era apenas um ursinho cheio de horários felizes?
“Agora é fatal que o faz-de-conta termine assim. Pra lá daquele quintal é uma noite que não tem mais fim (…) E agora sou um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim”.
ps: O Drummond podia não saber, mas eu sei que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

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