4 de julho de 2022
Walter Navarro

O proprietário da Delicadeza Perdida


A morte e a morte de Lenoir, Ronaldo Lenoir, não me chegou pelas frias espirais telefônicas, como chegavam as tristezas na época de Vinicius de Moraes.
Chegou pelo FaceBook, in box; sinal e final dos tempos.
A morte de Lenoir chegou e me levou a todas e várias boas lembranças desta figura, lembranças que assombram meus baús.
Eu o conhecia há quantos anos? Uns 20? 22? Foi logo que cheguei de Paris e, por isso mesmo, já gostei dele de cara, primeiro por causa do sobrenome francês, Lenoir, depois pelo conjunto da obra. Um gentleman 24h/24h.
E olha que Ronaldo Lenoir, de francês mesmo, tinha nada, a começar pela preferência etílica, o whisky, e puro. Este hábito sempre me lembrava uma propaganda antiga: “A Terra é composta por 99% de água, nem uma gota a mais no meu whisky, por favor”.
Assim que tive mais intimidade com Lenoir – uns cinco minutos depois de conhecê-lo – contei-lhe uma, também de Paris, descobrindo desta forma sua oceânica timidez mineira.
Num dos meus lugares favoritos de Paris, o cemitério do Père Lachaise, tem um túmulo muito interessante, o do também jornalista Victor Noir que durante muito tempo achei que fosse Lenoir… Culpa do Boulevard e também estação de metrô, Richard Lenoir, um capitão de indústria, outro ilustre habitante do cemitério Père Lachaise. (“noir”, em francês é a cor preta, é “negro”).
Victor Noir foi assassinado num duelo, aos 22 anos, um dia antes de seu casamento, por um sobrinho-neto de Napoleão Bonaparte.
Confundindo Noir com Lenoir, contei a história ao Ronaldo Lenoir. Contei que a estátua de bronze, deitada no túmulo, mostra um colossal pau duro.
Esta ereção eternizada em metal fez do túmulo um dos mais visitados do cemitério. Gerou também a lenda. Mulheres que têm dificuldade para engravidar, devem passar a mão no pau de bronze e assim, quase por milagre, tombariam grávidas. Ou dizem que tombam, não experimentei, mesmo porque só passo a mão no meu e não posso ficar grávido…
Com tanta mulher passando a mão no defunto/estátua, o pau de Victor Noir ficou mais brilhante, dourado, contrastando com o resto do bronze verde, oxidado, datado de 1870.
Foi a primeira vez que, de propósito, deixei Lenoir sem graça, mesmo porque ele ria e sorria mais pelos olhos que pela boca.
Graças a Deus enchi muito o saco do Lenoir, ele ficava puto, cansado, mas no fundo curtia. Fazia parte de seu charme, aquela seriedade e o sentimento do mundo que carregava sem dificuldade.
Já fazia, vai fazer ainda mais falta, meu companheiro de whisky, o meu com muito gelo, please. Juntos, eu e Lenoir poderíamos reclamar umas glebas de terra na Escócia. Indireta e liquidamente investimos muito naquele belo país.
Daí minhas ótimas lembranças estarem sempre ligadas a festas bem regadas, 99% delas em torno da amiga comum, Nely Rosa, esta especialista na arte de aglomerar outras muitas ótimas amizades.
Como eu gostava de horrorizar e perturbar a força tranquila de Lenoir!
Certa feita, numa das campanhas políticas que fizemos juntos, depois de mais uma bebedeira, Lenoir me deu carona, éramos vizinhos de rua, no Sion. No calor do Exército de Baco esqueci no carro dele uma enorme bandeira do candidato à Presidência, José Serra, contendo também o nome de sua vice, a gostosa da Rita Camata.
Pobre Lenoir, desde então, toda vez que me via, ouvia: “Canalha, cadê minha bandeira do José Serra? Você perdeu ou vendeu?”. Ela já não tinha paciência para a provocação mas nunca perdeu a paciência, só a estribeira…. Até quando me xingava era elegante. Saía do sério e a gente nem percebia. Mas eu adivinhava porque ao vivo, por escrito e até ao telefone ele sempre ouvia: “Lenoir, cadê minha bandeira do José Serra?”.
Doutra feita, estávamos no saudoso Chez Fumoir, fumando e bebendo com um turco irlandês. Pintou uma promoção. Comprando uma garrafa do bourbon whiskey, Jim Beam, ganhávamos um kit de quatro copos longos com a logo em alto relevo.
Lenoir não ficava bêbado, ficada inebriado. E inebriado, coitado, esqueceu seus copos em minha mesa, claro que levei os oito pra casa e uns seis meses para devolver, intactos, os dele. Com muita chantagem, claro. Pelo simples prazer de tentar lascar a paciência de Jó do Lenoir. Não consegui.
Se conversávamos sério? Claro, mas nem quero me lembrar.
O Galo perde um muito fiel torcedor. Várias vezes, indo fazer besteira em casa, cruzei com Lenoir, na rua Venezuela, pegando carona para o Independência gritar pelo Galão da Massa.
Quantos bares e jantares!
Até no Rio de Janeiro, de novo e sempre em torno de Nely Rosa. Numa bela manhã me carregou para um programa “daqueles”… Ficar quarando ao sol senegalês de derreter catedrais quenianas, nas areias escaldantes e movediças de Ipanema.
Aí surge a salvação de minha Pátria: Ronaldo Lenoir. Atravessamos a Vieira Souto e tchum: guerra, sombra e whisky.
No outro dia, ele veio me encontrar no Arpoador, em frente ao hotel Arpoador Inn, na Francisco Otaviano, Ipanema “again”, de frente para o mar, com preços idem.
Ao ler o exorbitante cardápio, Lenoir me tirou célere de lá…
Rodamos, rodamos e descobrimos um boteco, atrás da Praça General Osório, quase na boca de uma favela. Foda-se!, pensamos. Sentamos e mamamos uma garrafa inteira de Johnnie Red a preço de banana “yellow”.
Trabalhava muito Ronaldo Lenoir e bem. Cara sério, responsável, inteligente, culto, articulado.
Era o primeiro ou o último a chegar, jamais o primeiro ou último a sair.
Eu sentia saudade dele até mesmo ao lado dele.
Tinha um olhar triste, mesmo sempre emoldurado por bom humor.
Vai ver desconfiava de seu fim de Policarpo Quaresma.
Eu não. Nunca imaginei sua morte. Azar o meu que agora não preciso nem mais imaginar.
Au revoir, mon cher Lenoir e merci por tudo; de nada. Foi um raro prazer e tim-tim!
PS: Ah! Antes que me esqueça, cadê minha bandeira do José Serra?
PS2: Na foto, Lenoir em uma de suas visitas a este combalido amigo, no LifeCenter, 2015.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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