Ensaio sobre a Memória


Basta um dia?
Um dia vicia?
Amizade não tem idade; não se pesa, não se mede.
Amizade é um momento grandão.
Na segunda feira morreu meu amigo Carlos Alberto Ratton. Ontem morreu João Gilberto. Hoje morreu meu amigo, de uma noite, Ado.
Carlos Eduardo Ataíde. Um nome bonito para um homem bonito. Só perdia pro meu amigo Pedro “O Homem Mais Bonito do Brasil” Aguinaga porque aí é covardia; concorrer com nosso Alain Delon tropical.
Foi outro sinônimo de amizade, Nely Rosa, quem me acordou hoje com a lamentável notícia. Eu ainda estava amadurecendo João Gilberto em barril de carvalho.
Só tenho uma história com Ado, mas é ótima.
Logo que voltei ao Brasil, em 1996, conhecia ninguém em Belo Horizonte.
Saía todas as noites em busca do tempo perdido. Ávido de gente, grávido de novas histórias.
Numa dessas noites, nos estertores da mítica Casa dos Contos, estávamos numa mesa grande. O pessoal foi indo embora e, mais que de repente, ficamos só eu, Ado e a cerveja.
A conversa estava boa tanto que, em vez de irmos cada um para seu destino, Ado sugeriu continuarmos a conversa em outro bar, outro bairro, no antigo boêmio Santo Antônio.
Era uma rua como não existe mais. Um bar atrás do outro, ao lado do outro. Todos coloridos, animados, cheios, barulhentos como a vida.
Escolhemos o mais convidativo. Sentamos e continuamos a conversa bem regada.
Pra rimar com Ado, em dado momento, duas lindas mulheres vieram puxar conversa. Até aí, tudo ótimo, com um pequeno detalhe: não percebemos que era um bar gay; as duas eram namoradas e queriam uma noite a quatro… Quando eu disse que eu e Ado não éramos namorados, muito menos gays, elas fizeram cara de nojo, de desdém e foram embora.
Rimos muito, bebemos mais, conversamos ainda mais e fomos embora.
Depois desta longínqua noite ímpar, encontrei Ado pouquíssimas vezes.
A última vez, acho, foi em 2017 e ele me pareceu meio distante. Logo depois soube que ele estava com esta merda de Alzheimer.
Perder a memória é perder tudo, a própria história, a história dos outros, incluindo, claro, os mínimos momentos.
Então, Alzheimer FDP, aqui pra você! Contra você, minha vingança mais doce; minha memória intacta, inviolável e fatal, nem que seja sobre um momento, uma única e fugaz noite.
PS: Ado, “mon cher”, com João Gilberto você vai lembrar de tudo e talvez, até relembrar uma noite, para mim, sem fim. Dois abraços e cuidado com os bares aí de cima.

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