1 de julho de 2022
Colunistas Walter Navarro

Banquete dos Mendigos

Escrevo tendo como trilha sonora o álbum, “Banquete dos Mendigos” (Beggars Banquet), dos Rolling Stones, 1968.

Em 1973, por coincidência, “Banquete dos Mendigos” foi um show organizado por Jards Macalé com astros da MPB, comemorando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em 1979, foi lançado um vinil duplo, com os mesmos. Na capa, sem intervenção “artística”, uma reprodução de “A Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci que, mesmo assim, claro, foi censurada.

No Brasil de hoje, Jesus é representado como travesti, ridicularizado de várias formas, impunemente. Sinal e final dos tempos.

Um ano antes, em 1978, Chico Buarque lançava sua “Ópera do Malandro”, um tipo de autobiografia, comédia musical e também um disco duplo.

Como nada se cria, sempre se copia, Chico Buarque inspirou-se na “Ópera dos Três Vinténs”, 1928, de Bertolt Brecht, “uma crítica à sociedade burguesa que tolera a existência de um mundo marginalizado, contraventor e corrupto”.

Por sua vez, Brecht inspirou-se, finalmente, na obra original, a “Ópera do Mendigo”, 1724, de John Gay.

Por que esta introdução? Para falar do mendigo que comeu a mulher de um “personal trainer”, em Planaltina. Vejam bem que falta de absurdo! Em Planaltina! O fim do mundo está mesmo acabando! Planaltina! Vejam se é possível! Era só o que faltava! Planaltina!

Achei o caso deveras interessante, mas, de tão comentado, “viralizado em piadas” e difundido, deixei pra lá.

Acontece que, até ontem, dia 23, ainda tinha gente me perguntando: “Que história é essa do mendigo? Estou entendendo nada”. Eu respondi, repassei versões e explicações, fotos e claro, as 1001 gozações (memes), inclusive, minha favorita, que até adaptei e prolonguei: “Nos tempos de FHC, o povo pôde comer frango; com Lula, carne; com Bolsonaro, até mendigos comem carne nobre, filé mignon”.

Este é o Brasil brasileiro!

Para ser sincero, até dia 16, eu mesmo não conhecia o caso ocorrido em 8 ou 9 de março. Em Planaltina! Enfatizo! Recebi a primeira piada, não entendi, perguntei e meu amigo, Sérgio “Bola nas Costas” Ricardo, para meu deleite, forneceu a explicação completa. Por que “Bola nas Costas”? Perguntem ao Renato Savassi, no Instagram dele. Eu, rapaz pudico, tenho vergonha de contar.

Fiquei pensando, pensando, pensando no assunto e resolvi escrever porque o buraco é mais embaixo e raspadinho.

O assunto rende uma tese de sociologia. Lembrei-me, claro, de meu mestre maior, Nelson Rodrigues, filmado por Neville d’Almeida. Em “A Dama do Lotação”, conto de Nelson, 1951, filme de Neville, 1978, lá está Sônia Braga, mais linda e gostosa que jamais! Chamemos Mr. Google!

Solange (Sônia Braga) e Carlos (Nuno Leal Maia) se conhecem desde a infância e se casam. Na noite de núpcias, Solange resiste ao marido, que, impaciente, acaba estuprando-a. Solange fica traumatizada e, apesar de desejar Carlos, não quer mais nada com ele. Para se satisfazer, ela começa a fazer sexo com homens que não conhece, que encontra andando de lotação (ônibus)”.

Melhor seria “dando de lotação”. Que me lembre, ela não pega mendigos, mesmo porque eles não se locomovem de ônibus, mas chega bem perto. É uma “Geni que dá para qualquer um; na praia, no cemitério, atrás do tanque, no mato”. Não esqueçamos que Geni (e o Zepelim) era personagem de “A Ópera do Malandro”.

Do mesmo Nelson Rodrigues, profundo conhecedor da alma e lama humanas, temos “Bonitinha, mas Ordinária ou Otto Lara Resende”, 1962, que também “inspirou” uns três filmes.

Numa das versões, a de Braz Chediak, 1981, lá estava, muito jovem e também saborosa, nossa eterna “Escrava Isaura”, Lucélia Santos, como a bela e inocente Maria Cecília.

No fim da trama, sabemos que de inocente Maria Cecília tinha nem o umbigo. E até gostou de ser estuprada por vários e abomináveis tarados, principalmente, pelo chefe deles, seu favorito, “Cachorrão”. Nelson, profeta de si mesmo e do Brasil, antecipou, em 11 anos, a “Síndrome de Estocolmo”, que só seria “descoberta” em 1973.

Mas, vamos que vamos, porque tem mais, muito mais!

Certa feita, no Café Três Corações, em BH, meu saudoso amigo Linguiça, enciclopédia ambulante da sacanagem, confessou, à atenta alcateia de Canalhas, ter possuído uma mendiga, na avenida Paraná. Releiam! Paraná, isso mesmo!

Até hoje não sei se foi verdade ou pura provocação. Mas não duvido. Aliás duvido de nada. Na mesma conversa um outro libertino, animado pela história, disse que sentia tesão pela Miriam Leitão, no “Bom Dia Brasil”. Meu Deus! “Bom Dia Brasil”! Misericórdia! O próprio Linguiça completou que tomava Viagra para masturbava-se com um “santinho” da Marina Silva e, quando em sua imaginação pantanosa, ela soltava os cabelos, ele gozava! Minha turma é ou não digna de Nelson Rodrigues?

Para mim, trata-se, simplesmente, do bom e velho fetiche. Tem muita gente, de todos os mil sexos atuais, que sonha transar com um pedreiro de mãos calejadas, caminhoneiros de para-choque duro, ou um lenhador suado de camisa xadrez, bem no estilo Village People.

Afinal, além de carente, subindo pelas paredes e beliscando azulejos, o que faz uma mulher linda, gostosa, rica e cheirosa ter conjunções carnais (dar) com um mendigo.

Ou seria Sem Teto? Morador de Rua? Desprovido de Lar?

É “A Dama e o Vagabundo” de Walt Disney, 1955. “A Princesa e o Plebeu”, de William Wyller,1953. A vida imitando a arte da Geni que, “de tudo que é nego torto, do mangue, do cais, do porto, ela já foi namorada. O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes. É de quem não tem mais nada. É a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos moleques do internato”.

Tenho um minúsculo livro de poemas, francês, onde o cara se excita com a zeladora portuguesa do prédio: feia, peluda e exalando forte cheiro de bacalhau norueguês em seus Países Baixos. O que é esta fusão de asco com tesão? Fetiche!

No filme “Alfie, o Sedutor”, 2004, o lindo Jude Law tem um caso efêmero com a ainda mais linda e apetitosa Sienna Miller. Um dia, ele está sentado na sala, vendo a namorada, vestindo o corpo mais que perfeito, com apenas com minúscula calcinha, enquanto picava legumes na cozinha americana. Ele pensa e fala apenas para nós, espectadores: “A gente sabe que o amor terminou quando vê uma cena desta e sente nada”.

É o que sempre digo; caviar, todo dia, enjoa. Tem dia que a gente quer é uma vulgar mortadela Sadia.

Falando em mortadela, isso também serve para a política. Vejamos a primeira eleição de Lula – quase virgem no Bordel. Naquele sinistro 2002, mesmo sem a “Herança Maldita”, depois de oitos anos de brioche francês, o povo queria a mortadela de Garanhuns. Ah! Brioche podre, mas francês.

É pura transgressão. Não tem jeito que dê jeito. Quando o povo quer algo diferente, um sabonete novo, vai experimentar. Nem que o sabonete seja de soda cáustica, como vimos e como vemos gente que até hoje não viu e quer mais. Viu ou não quer ver?

Os brutos também mamam. E como mamam! Tem muita mulher de malandro sem ópera por aí, doida com o Vladimir, tendo sonhos eróticos com Putin, vão por mim! E na Ucrânia!

E vocês? Gostam de filmes com gladiadores seminus e suados? Ah! Os labirintos da mente humana!

Até eu já tive casos com mendigos. Não sexuais, claro. Os mendigos franceses são diferentes. Muitos estão na rua, não por miséria, mas por opção, por depressão. Foram à falência ou abandonados pela mulher, pela família, etc. Vestem-se “bem” e até nos confundem, têm classe.

Num já longínquo fim de noite eu estava esperando o metrô e, lá no fundo da estação, vi um cara sentado. Fiquei tranquilo, sinal de que, como no filme de Truffaut, havia o último metrô.

Que nada! Quando as luzes se apagaram descobri que tinha perdido o metrô e estava preso na estação. Correntes no portão. O cara estava lá para dormir no “quentinho…”. Acabamos tendo uma longa conversa e dividimos o vinho dele, no gargalo. Vinho em garrafa de plástico e de 1,5l.

Ele me ensinou a sair de lá. Caminhei pelos trilhos, com ratos e quase no escuro total, até a próxima estação, onde as portas eram automáticas. Quando saí, entrou outro mendigo e ainda disse “merci”.

Em meu último endereço, rua Vaugirard, Porte de Versailles, o pessoal do prédio cedeu a única garagem, ao Daniel, outro mendigo, outrora “normal”. De vez em quando eu entrava em sua batcaverna e ficávamos lá, conversando e bebendo vinagre francês. Quando morreu, relativamente jovem, fizemos uma “vaquinha” para um enterro digno.

Tá bom por hoje, né?

Ops! Não! Esqueci o melhor da festa. Hoje, vi uma entrevista com o famoso mendigo de Planaltina! Vejam bem, Planaltina! Onde é que vamos parar? O cara se expressa muito bem, fala melhor que o Sérgio Moro. E ainda mostrou-se preocupado com a “coisa mais maravilhosa e linda, num corpo perfeito de mulher”. Ele disse a ela “que precisa ter um certo cuidado porque pode pegar uma pessoa de má índole e fazer muito mal para a vida dela”.

Para terminar, a cereja do bolo, com Givaldo Alves de Souza, o mendigo mais famoso, inteligente e fino do Brasil: “Quero agradecer demais, demais mesmo, o serviço humanitário e social do nosso presidente, no qual eu votei… Eu estava num bar em Peruíbe e ponderei: se esse cara não arrumar o Brasil, depois daquele negócio da Lava Jato… Eu já estava votando no outro partido, há muito tempo, mas votei nele e votarei outra vez”. Voz do povo, voz de…

PS: Depois dessa, o “meme” mais novo: “O mendigo é bolsominion, o corno é petralha e a musa fitness é a terceira via”.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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