21 de maio de 2022
Walter Navarro

Adorável e Deplorável Mundo Novo


Voltei a, e para Belo Horizonte. É a primeira vez, em ano e meio, que estou a lazer.
Amanhã, sábado, dia 6, comemoraremos, com churrasco vegano, 30 anos de formatura em Jornalismo, na PUC/MG. Claro, escreverei sobre isso, domingo, se tiver condições ou na segunda feira, dia de gente profissional, louca ou normal.
Assim, esquentando os tamborins, agora há pouco, fui tomar um Toddynho, no bar da esquina. Para rimar, fui sozinho, logo, muito bem acompanhado.
E fiquei lá, uns 45 minutos, divagando; exercitando meus neurônios de Robinson Crusoé, numa sexta-feira, sem o Sexta Feira, claro!
Aliás, nosso convite de formatura, tinha texto de Daniel Defoe (1660-1731), autor de Robinson Crusoé.
Para quem não sabe, muito antes da revista Crusoé, ele foi personagem e título de um dos maiores clássicos da literatura, talkei?
Bom. Sentei-me à mesa sobre a calçada torta como eu e fiquei urubuservando henrique cardoso.
Três bares lotados. Bares que não são bares. Locais deveras familiares, de bairro. O Sion careta é assim. O Sion é careta assim. Tem um espetinho, uma pizzaria e uma hamburgueria. Três ilhas, nada desertas, no desértico Sion. Um descanso na loucura, com hora para acabar, coisa que odeio.
Vi casais tristes e/ou entediados, como sempre. A exceção era um casal de namorados. Namorados sempre são felizes, até o negócio ficar mais sério e chato.
“Bares” familiares, como os meus vizinhos, forçosamente, têm crianças. Foi aí que me bateu este pensamento nada original: os pais atuais não mais precisam de babás, muito menos de vigiar as crianças que, nem assaz alhures e antanho, corriam pelas calçadas e correndo o risco de atropelamento no asfalto selvagem.
Crianças, que nunca gostaram de bares, hoje não brincam, nem correm. Ficam como múmias zumbis de pequeno porte, grudadas em seus celulares e/ou tablets.
Legal e muito triste ao mesmo tempo.
Mesmo porque, os adultos portam-se do mesmo jeito. Todo mundo ligado nas telinhas.
Vi também mesas repletas de amigos. Só que, antes, eles contavam piadas, casos, adultérios. Hoje, um mostra o celular para o outro e todos morrem de rir virtualmente, ao vivo. Geralmente de vídeos sem graça.
Parece até que os encontros ao vivo servem para isso, dividir piadas e vídeos pelo celular.
No já jurássico 1967, aquele genial, vagabundo e petista, Chico Buarque, compôs, “A Televisão”.
Letra e música perfeitas, como sempre.
Vejam ou leiam o que ele dizia, quando era sóbrio.
“O homem da rua fica só por teimosia, não encontra companhia, mas pra casa não vai não. Em casa a roda já mudou, que a moda muda. A roda é triste, a roda é muda, em volta lá da televisão (…) Os namorados já dispensam seu namoro. Quem quer riso, quem quer choro, não faz mais esforço não. E a própria vida ainda vai sentar sentida, vendo a vida mais vivida, que vem lá da televisão…”.
Quando Chico escreveu isso; celular, Internet, WhatsApp, computador, Facebook, Instagram, Twitter, etc., e até e-mail nem estavam na Idade do Papel.
Hoje, a vida, muito menos vivida, vem de uma telinha.
PS: E vai piorar ou melhorar… Escolham. Eu, fico aqui, esperando a banda, o bonde, Godot ou uma mensagem no celular, para um encontro ao vivo, em cores e sabores.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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