23 de maio de 2022
Walter Navarro

A fome e vontade de devorar


Devido ao pecado capital da preguiça ou simples falta de disposição e paciência, não comentei, até este momento, um dos últimos abomináveis escândalos do PRESIDENTE Bolsonaro: “Não existe fome no Brasil. Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira…”.
Sinto muito galera mas, para o furor uterino e histeria das viúvas e órfãos de Nicolas Maduro, Bolsonaro está certo, de novo e mais uma vez. E provo!
Mesmo convicto de que não adianta explicar a quem não quer entender ou pior, a quem quer entender errado, vou seguir o conselho de José Miguel Wisnik e jogar “pérolas aos poucos”.
Se existe um consenso no Brasil, “a torto e à direita” é de que todos os políticos mentem.
Todo mundo, no mundo inteiro, critica e sempre criticou a falsidade dos políticos. Os menos mentirosos são caras de pau.
Aí, quando aparece um, o primeiro que fala a verdade, fala o que pensa sem pensar; é sincero, chove granito.
É a velha história: a verdade dói e a hipocrisia evita guerras.
Ontem, vi um vídeo de Bolsonaro, aparentemente chegando em casa, ao Palácio do Alvorada, Brasília, a “Sin City”.
Mais uma vez, como quando ele estava em campanha, um grupo o esperava em delírio. Um grupo, não uma multidão, talkey?
Bolsonaro manda a comitiva parar, sai do carro e, com paciência de Jó e de Buda; prazer e sedução de Afrodite, começa a cumprimentar os populares, responder perguntas, ouvir elogios e posar para “selfies” com todos que pediam, no maior bom humor.
O grupo tinha homens e mulheres de todas as idades e foi ali que destrinchei a tão criticada espontaneidade, naturalidade do PRESIDENTE.
Simpatia, gente fina e sangue bom! Para pavor da segurança, lá estava o Jair, de novo, à mercê de outro Adélio ou Amélia.
Por trás de baixa barreira metálica, uma mulher vem, abraça Bolsonaro, desce elogios e apresenta sua tia, fã do Capitão. Uma senhorinha, aparentemente meio perdida…
A sobrinha adverte: “Presidente, me deixa fazer uma foto sua com ela. Mas ela não enxerga bem…”.
E Bolsonaro, direto: “Então, é por isso que ela me acha bonito” e solta sua típica gargalhada cheia de dentes.
Um cara vem e se apresenta: “Presidente, meu nome é Fernando Haddad, sem H, Addad, mas trabalhei muito pelo senhor” e mostra a carteira de identidade a Bolsonaro que, de bate pronto, responde: “Se fosse o outro, o eleito, ele estaria jantando com o Maduro agora…”. E dá-lhe mais risadas gerais.
Uma voz avisa: “Presidente, é um grupo de gaúchos, tudo gaúcho”.
E Bolsonaro: “Então, só tem macho”, kkkkkkkkkkkk.
Bolsonaro vai até o fim do grupo e um adolescente fala em seu ouvido, Bolsonaro responde em voz alta e de frente para o celular do garoto que gravava a mensagem: “Olá Carolina! Este cara está apaixonado por você. É o cara! Até aqui ele lembrou de você”, kkkkkkkkkkk.
Depois, completou e terminou falando ao garoto: “Com essa (depois dessa) você vai ganhar (a amada ou mamada)…”.
Este é o mesmo Bolsonaro. O Bolsonaro de sempre. Se ele mente? Provavelmente, como todos nós. Mas tem nem comparação com os profissionais de antes.
Ninguém é perfeito, reza o clichê. O próprio Lula, por exemplo, só não é um perfeito idiota justamente porque ninguém é perfeito”. Mas como mente! E mal! A prova maior é que ele está preso, Babacas! (Copyright by Cid Gomes).
Meu pai puxou a mim: um gênio! E modesto!
Há uns 50 anos, eu, menino, estava com meu pai dentro do carro, em frente à uma padaria.
Quando alguém saiu de lá com um saco de pãezinhos franceses, ele me disse: “Impossível alguém passar fome, como é barato o pão!”.
Há vulgares 20 anos, um pãozinho francês custava nove centavos. Imaginem há 50 anos…
Antes que comecem a xingar meu saudoso pai de nazista, elitista e fascista filho da puta como fazem com o filho dele, pergunto: “Vocês sabem o que é uma metáfora?”.
É claro que meu pai sabia que ninguém vive a pão e água, apesar das controvérsias de alguns náufragos como Robinson Crusoé e Tom Hanks.
O pão, além de metáfora, é um símbolo. Desde que foi inventado. Jesus repartindo e multiplicando pães e peixes, lembram? Nem eu, mas dizem… Contam…
E o “Pão e Circo” dos Romanos que crucificaram Jesus? Jesus, que não rima com Coliseu, mas com cruz…
Quantas guerras não começaram por falta de trigo, pão…? A própria Revolução Russa de 1917…
Até o diabo amassa pão!
Estão entendendo? Querem entender? Os petistas não, claro.
Como disse Leonel Brizola, em 1992: “O PT acha que o ovo nasce na geladeira…”.
Voltando então e finalmente à bomba atômica de Bolsonaro: “Não existe fome no Brasil. Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira…”.
Pressionado pela má fé, ele logo refez sua frase, com outra verdade, esta, bem mais óbvia, a de que o brasileiro passa fome sim, mas porque come mal.
E comer mal, o mundo inteiro anda comendo, até na França. Daí a obesidade filha dos hambúrgueres, sem trocadilho, “please”… Mas o maior problema da fome é o desperdício.
O desperdício também é uma velha canção em nossos ouvidos fatigados.
O que se joga fora no Brasil e no mundo, diariamente, dava para alimentar, diariamente, a África.
Em nossas próprias casas cometemos o desperdício fatal. Nos restaurantes, sacolões e supermercados…
É um pecado e um crime.
Felizmente, as pessoas estão mais conscientes. Mais ou menos.
Esta semana, aconteceu o “Dia da Ultrapassagem”: dia 29 de julho, a humanidade já havia consumido o que a natureza leva um ano para renovar/produzir. Em 1999, este data foi dia 29 de setembro… Captaram? Vamos viver, a crédito, até o fim do ano.
Isso não quer dizer apenas que muita gente, inclusive os brasileiros, passa fome. Quer mostrar, principalmente, o quão e quanto desperdiçamos.
Com uma distribuição justa e menos desperdício não veríamos seres humanos revirando lixo como bicho.
Por isso, não existe fome no Brasil e no mundo. Existe é egoísmo e a burrice de sempre.
Esqueçam Bolsonaro, deixem o homem trabalhar em paz. Pensem em Jesus dividindo o pão, com manteiga ou sem metáfora.
Em Nova York, vi um restaurante ostentando linda placa mais ou menos assim: “Aqui, no fim do dia, nada jogamos fora, doamos tudo o que sobrou a quem tem fome”.
Em Paris, nem assaz antanho, as pessoas tinham vergonha de levar para casa o que sobrava do jantar nos restaurantes. Hoje é o contrário. Cada vez mais está na moda o “embrulha pra viagem”.
Até a mesma França, terra da fina gastronomia, investe em pratos/comidas recicláveis, com sobras que certamente estariam fadadas ao lixo. E cozinhando, inclusive, sem gás ou eletricidade, usando o calor do sol.
PS: Agora, licença, que vou atacar a geladeira. Quem sabe acho um Camembert vencido, uns fragmentos amorosos de frango à Kiev ou uma chuleta macia e rósea?
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Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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