26 de abril de 2026
Editorial

Supremos, mas desacreditados

Há instituições que perdem prestígio. Outras, como o Supremo Tribunal Federal, conseguiram algo mais raro: transformaram-se em sinônimo nacional de descrédito. Não foi por acaso. Foi por escolha. Uma escolha lenta, arrogante e, sobretudo, despudorada. A crise de confiança deixou de ser monopólio da política e contaminou, de forma inédita, o Judiciário — especialmente o STF.

Diz a lenda que o Brasil é o país do futuro. O problema é que o futuro chegou, olhou para o painel de votações em Brasília e resolveu pedir um Uber de volta para o passado. Enquanto a política se digladia nas paixões eleitorais, há um andar de cima que flutua. Refiro-me, é claro, à nossa Corte Suprema. Ou, como alguns ministros parecem acreditar, ao novo Monte Olimpo, onde a ambrosia foi substituída por lagostas premiadas e o Direito pela vontade soberana de quem veste a toga de seda preta.

Mas há um dado novo nesse cenário: as pesquisas de opinião, silenciosas e implacáveis, têm mostrado o que antes era apenas murmúrio de esquina: a credibilidade do STF já não é pressuposto, é dúvida. O tribunal que deveria pairar acima das disputas passou a ser percebido como parte delas. E, pior, como parte interessada.

Quando seu decano – Gilmar Mendes – declara, sem constrangimento, que “o nome é Supremo, porque nós somos supremos”, não se trata apenas de uma frase infeliz. É um sintoma. Um reflexo cristalino de uma instituição que, aos olhos de muitos, já não se vê como intérprete da Constituição, mas como sua própria encarnação. Uma frase que, por si só, já valeria um tratado sobre a distância entre a toga e o povo. É a arrogância em estado puro, a declaração de que o poder não emana do povo, mas da própria cadeira que ocupam.

Especialmente sobre Gilmar Mendes, quando Joaquim Barbosa, à época do Mensalão em um raro momento de sinceridade absoluta no plenário, acusou Gilmar de comprometer a credibilidade do Judiciário e mandou-o falar com seus “capangas do Mato Grosso”, ele não estava apenas brigando por um processo. Estava denunciando um modus operandi. Anos depois, Barroso reforçou o coro ao chamar o colega de “pessoa horrível que desmoraliza o tribunal”.

Se até os próprios colegas tratam um ministro como se ele fosse uma vergonha institucional ambulante, talvez seja hora de admitir que o problema não é “perseguição da mídia” ou “ataque à democracia”. O problema também é Gilmar.

Toffoli, que já foi chamado de “o ministro do Planalto” mesmo quando não era mais, e Alexandre de Moraes, que transformou o inquérito das fake news numa espécie de Star Chamber digital onde ele é juiz, promotor, investigador e executor, completam o triste trio que mais fez para corroer a imagem do Supremo nos últimos anos.

A máscara caiu de vez. Não se trata mais de guardiães da Constituição. Trata-se de uma casta que se autoproclama acima do bem e do mal, acima da lei que supostamente deve aplicar, acima do povo que paga seus salários e privilégios. Gilmar não é um caso isolado. É o retrato mais fiel do que o tribunal se tornou.

Quando o veneno vem de dentro do frasco, não se trata mais de crítica política externa, mas de um testemunho ocular do desgaste. Se é preciso um argumento poderoso em favor de mandatos fixos para ministros do STF, poucos são tão eloquentes quanto a biografia de Gilmar. O poder vitalício, nesse contexto, parece ser a mãe da soberba, permitindo que magistrados se sintam imunes ao tempo e ao bom senso.

E então entram em cena as decisões monocráticas, os inquéritos heterodoxos e infinitos, e o protagonismo político. O STF, que deveria ser árbitro, passa a jogar. E, como todo jogador, passa a ser vaiado. Não por uma torcida específica, mas por uma plateia cada vez mais ampla — aquela captada pelas pesquisas, que registram uma erosão lenta, porém constante, da confiança pública.

Não se trata aqui de discutir o mérito de decisões específicas, mas de reconhecer um fenômeno mais profundo. Instituições não vivem apenas de prerrogativas formais; vivem de legitimidade. E legitimidade não se decreta — se constrói, se preserva e, quando negligenciada, se perde.

O cidadão comum talvez não domine teses jurídicas sofisticadas, mas entende algo essencial: quando a Justiça parece falar mais alto do que ouvir, quando se mostra mais presente no debate político do que na contenção dele, algo saiu do lugar.

No fim, resta uma ironia incômoda. Em um país que busca uma “terceira via” na política, talvez a verdadeira urgência esteja em outro lugar: no resgate da confiança nas instituições que deveriam garantir o jogo — e não participar dele. Porque, na República, não há poder que sobreviva por muito tempo apenas se autoproclamando “supremo”. Sobretudo quando as pesquisas começam a sugerir o contrário.

O resultado está aí, escancarado: o STF hoje é uma das instituições com menor credibilidade no Brasil. Pesquisas de opinião repetidamente mostram que o tribunal perdeu o respeito de grande parte da população. E não é por “bolsonarismo” ou “petismo”. É porque o brasileiro médio, mesmo aquele que não entende de Direito, percebeu o que está acontecendo: uma corte que age como se fosse um superpoder não eleito, capaz de suspender leis, prender sem julgamento, censurar redes sociais, decidir eleições e, ao mesmo tempo, blindar os seus.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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