
No Brasil, a diplomacia descobriu um velho hábito nacional: chamar briga de princípio. E não qualquer princípio — um com nome elegante: reciprocidade. Traduzindo para o português da feira, com troco contado em moeda de um real: “se me cutuca, eu cutuco de volta”. É, claramente, retaliação! O Itamaraty, aquela casa de tradição secular e sussurros em francês, ficou enrolado com o teatro de absurdos que envolve um delegado da Polícia Federal, o temido ICE americano e Alexandre Ramagem.
O enredo é digno de um roteiro de espionagem de quinta categoria. O nosso adido nos EUA, imbuído de um espírito de missão impossível, resolveu que a burocracia da extradição era coisa para amadores. Por que esperar juízes e tratados quando se pode dar um jeitinho no guichê da imigração? A tentativa de acelerar a volta de Ramagem via remoção administrativa foi vista por Washington com a mesma simpatia que um turista de sunga no Capitólio. Resultado: o delegado recebeu o famoso “convite para se retirar”, tendo suas credenciais retiradas.
Agora, Lula, ferido em seu “brio soberano”, brada por reciprocidade. Ah, a reciprocidade! Essa palavra mágica que, no dicionário do Planalto, é sinônimo de “você mexeu no meu brinquedo, agora vou mexer no seu”. Lula quer retaliação. Quer, em outras palavras, mostrar que o Brasil também sabe ser difícil. Se eles expulsam o nosso “007” do cerrado, nós faremos o mesmo com os rapazes do FBI ou da CIA que tomam água de coco por aqui. É a geopolítica do “bateu, levou”, onde a inteligência e a cooperação policial são jogadas na fogueira para alimentar o ego de quem não admite perder uma queda de braço em solo estrangeiro.
A grande questão que paira no ar de Brasília não é sobre o futuro das relações comerciais ou a estabilidade geopolítica, mas sim: qual agente americano será o sorteado para fazer as malas em nome da isonomia? Será que haverá um critério? O que tiver o visto mais recente? O que for pego torcendo contra a seleção no bar, ou o que está comprando pão de queijo de forma suspeita ou elogiando o nosso mate com pouco entusiasmo.
É a diplomacia do pátio de escola em seu mais alto nível. “Você tirou o brinquedo do meu amigo, agora eu vou tirar o do seu”.
O Itamaraty, nosso bastião da diplomacia, tinha a hercúlea tarefa de encontrar um agente americano em solo brasileiro para poder “convidá-lo a se retirar” também. E já o fez. A retaliação veio rapidamente: a Polícia Federal retirou as credenciais de um agente de imigração dos Estados Unidos lotado em Brasília. O oficial americano, cuja identidade não foi divulgada, perdeu o acesso às dependências da PF e a bancos de dados de cooperação internacional. “Agora estamos iguais!”.
Resta saber até onde vai esse jogo. Porque, quando dois países começam a medir forças por gestos, corre-se o risco de esquecer o essencial: que diplomacia não é duelo, é negociação. E negociação exige mais do que troco — exige cálculo, paciência e, sobretudo, algum compromisso com a realidade. Mas aí talvez já seja pedir demais.
Preparem a pipoca. O próximo ato promete ser uma aula magna de como transformar um imbróglio policial em um desastre diplomático de proporções continentais. No final, quem perde é a segurança pública, mas quem se importa com isso quando temos uma bela narrativa de “soberania” para vender no horário nobre?

