
Para uma boa parte da direita, Trump está correto em tudo o que faz, mesmo que, por vezes, adote políticas nada liberais. Protecionismo e pressão para a queda da taxa de juros, inclusive com a utilização do aparato estatal contra uma diretora do Fed, são condutas econômicas adotadas por ele que mais se assemelham ao governo Dilma do que ao do ex-presidente republicano Ronald Reagan, ferrenho defensor do livre mercado.
Seus apoiadores mais fiéis aqui no Brasil vão encontrar sempre uma justificativa para defender o que Trump faz, mesmo que isso signifique adotar um discurso absolutamente contraditório. Por um lado, criticam, com razão, as taxas das blusinhas implementadas pelo governo petista, dizendo que é uma medida protecionista, anticapitalista e que prejudica o mais pobre. Por outro lado, quando Trump faz o mesmo, elevando as tarifas de importação, aí é jogada de mestre, gamão cósmico, xadrez 5D, war invertido, para atingir a China, reindustrializar os EUA e reduzir o déficit comercial e fiscal dos EUA.
O ponto é que não existe liberalismo de ocasião. No passado, as pessoas primeiro defendiam ideias. Em seguida, verificavam se o político se enquadrava nos princípios sustentados para daí criticá-lo ou elogiá-lo. Hoje, com as redes sociais, a emoção tomou conta de tudo, transformando o debate público num verdadeiro Fla-Flu. Agora, apoia-se o político incondicionalmente, mesmo que seja necessário adaptar a realidade para defendê-lo a qualquer custo.
A esse processo, os psicólogos chamam de racionalização ou dissonância cognitiva, ou seja, quando a realidade vai contra aquilo em que acreditávamos e, para não termos um desconforto mental causado pela contradição entre fatos e crenças, utilizamos justificativas inconscientes para continuarmos com nossas convicções.
No caso de Trump, político de direita, a racionalização é utilizada para justificar suas políticas econômicas, que mais se assemelham à esquerda do que ao liberalismo de direita.
Antes que digam que sou esquerdista, tucano, direita limpinha, faria limer, vendido etc., reitero que defendi publicamente várias vezes Trump durante o processo eleitoral, acreditando que seria a melhor opção para os EUA contra Kamala Harris. Disse também que ele fez um bom primeiro mandato, de 2016 a 2020. Mas confesso que, assim como boa parte de seus apoiadores do movimento MAGA, tenho me decepcionado com as políticas de Donald Trump.
Tanto a política externa quanto a comercial trazem ônus econômico ao americano médio. Não à toa, sua popularidade está no nível mais baixo desde que assumiu o seu segundo mandato.
No caso das tarifas, as justificativas para a adoção do protecionismo pelos apoiadores de Trump eram as mais diversas: quebrar a China, reduzir o déficit fiscal, reindustrializar os EUA e até derrubar o mercado acionário para pagar a dívida norte-americana a um preço menor — sabe lá Deus como — apareciam como a grande jogada de mestre com a arma das tarifas protecionistas.
Passado um ano de tarifas, o ponto é que o déficit comercial aumentou e o total arrecadado não faz nem cócegas perto do déficit fiscal norte-americano. Houve também encarecimento de preços de produtos para o consumidor norte-americano. Não à toa, ele voltou atrás no caso das carnes e do café brasileiro.
Além disso, se a ideia das tarifas era enfraquecer a China, o tiro saiu pela culatra. Na escalada da guerra tarifária, quando os EUA ameaçaram a China com tarifas de 140%, Pequim deu o troco, avisando que iria parar de exportar terras raras (minerais essenciais para a indústria bélica e de tecnologia) para a América, levando Washington a recuar.
A cereja do bolo foi a derrota de Trump na Suprema Corte americana, de maioria conservadora. A Justiça americana determinou que Trump reembolse os importadores americanos, pois o presidente utilizou as tarifas de maneira ilegal, sem aprovação do Congresso. Ele somente poderia fazer isso se as tarifas fossem utilizadas em uma situação emergencial.
Trump deveria agradecer a decisão da Suprema Corte, que livrou o presidente de um baita problema. Se Trump quer, de fato, reindustrializar os EUA, deveria entender que a queda do valor agregado industrial vem bem antes da ascensão da China.
Deveria também entender que o déficit comercial pouco tem a ver com tarifa protecionista. Isso apenas indica que um país gasta mais do que produz ou investe mais do que poupa. E isso ocorre justamente porque o elevado gasto fiscal leva a um déficit na balança comercial.
Se Trump quer tornar os EUA grandes novamente, um bom começo seria entender que o elevado gasto público tem penalizado a economia americana. Em parte, esses gastos estão associados à guerra. Aparentemente, Trump, antes de ser eleito, identificou esse problema. Tanto é que prometeu acabar com as guerras e cuidar mais da economia americana. Por enquanto, o choque do petróleo fala mais alto.
Fonte: Gazeta do Povo

