8 de maio de 2026
Editorial

Quando o samba vira panfleto

O Carnaval é uma festa plural, feita de cores, ritmo, fantasia… e crítica social. Mas o enredo da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que colocou Lula como protagonista absoluto, acaba sendo mais propaganda emocional do que crítica criativa. Em vez de provocar reflexão, o samba parece feito para confortar os já convencidos. Não dá pra negar que Lula é uma figura histórica multifacetada: o operário que virou líder político, símbolo de conquistas sociais para uns e alvo de críticas para outros. Vê-lo como herói incontestável empobrece o drama. O melhor do Carnaval é transformar histórias complexas em metáforas potentes — mas aqui sobra didatismo e falta ambiguidade.

Mas, Escola de Samba é arte — e como toda arte, deve provocar, inquietar, fazer rir ou fazer pensar. Quando um enredo abraça um personagem político vivo de forma declaradamente elogiosa, a avenida corre o risco de virar extensão de disputa eleitoral antecipada. Isso dilui a função crítica da festa e a aproxima de um comício disfarçado de fantasia.

Musicalmente o samba pode ser envolvente — e, sem dúvida, a bateria e os cantores cumprirão sua missão de empolgar. Mas ritmo não substitui a substância. Um enredo que não apresenta contradições, nuances ou questionamentos fica estagnado na superfície. O público quer ser desafiado, surpreendido e envolvido em uma narrativa que vá além do rótulo.

Ao abraçar uma narrativa uníssona de aplauso, o enredo ignora partes relevantes da sociedade que não compartilham a mesma visão. O Carnaval é espaço de encontro — e também de tensão criativa. Ignorar discordâncias é perder a chance de dialogar, refletir e fazer arte que represente a diversidade de visões.

O problema não é falar de política no Carnaval. O Carnaval sempre falou disso. O problema é quando o enredo abandona a crítica, a ironia e o exagero criativo para assumir, sem pudor, o tom de material de campanha eleitoral fora de época. Alô TSE, tão ativo na última eleição presidencial e tão calado agora.

A narrativa escolhida é linear, previsível e confortável: o herói injustiçado, o povo sofredor e a redenção final, via STF. Não há conflito real, não há contradição e não há risco estético. Tudo é contado como se a história recente do país fosse um folheto explicativo, com mocinhos bem iluminados e vilões convenientemente genéricos. O samba até pode empolgar, mas empolga mais pela batida do que pela ideia.

Lula é uma figura política complexa, controversa e central para o bem e para o mal da história brasileira recente, surge pasteurizado, sem arestas e sem sombra. O enredo não pergunta, afirma. Não provoca, catequiza. E quando o Carnaval deixa de provocar, perde parte essencial da sua razão de existir.

Há também um incômodo institucional difícil de ignorar. Escola de samba não é partido político, e a avenida não é palanque. Quando a homenagem escorrega para a exaltação de um líder vivo, em pleno exercício de poder – e candidato à reeleição – o desfile deixa de dialogar com a cultura popular e passa a conversar apenas com convertidos. Quem discorda não se sente desafiado; sente-se excluído.

Seguem imagens de Bolsonaro que serão – ou seriam – mostradas na avenida.

Vejam que virou apelação… Bolsonaro abraçado à Carla Zambelli e um “meme” com a foto de Bolsonaro, como condenado, rindo.

No fim, o enredo diz mais sobre a pobreza de imaginação política do que sobre o homenageado. O Brasil oferece dramas, paradoxos, contradições e personagens suficientes para mil carnavais. Reduzir tudo a um samba de exaltação é desperdiçar a chance de fazer arte onde cabia reflexão — e reflexão onde cabia, sim, um pouco mais de ousadia.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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