7 de novembro de 2026
Editorial

O novo que insiste em ser velho

Há algo de particularmente curioso na política brasileira: governos envelhecem, acumulam problemas, repetem erros, mas continuam encontrando maneiras de se apresentar como portadores de um futuro promissor. Mudam-se os discursos, renovam-se as promessas e anunciam-se novos horizontes. Na prática, entretanto, o que se oferece ao país é sempre a reprise de um filme já conhecido.

O governo Lula parece caminhar exatamente nessa direção. Depois de mais uma disputa eleitoral, seria razoável esperar alguma reflexão sobre os desafios econômicos e institucionais do Brasil. Afinal, governar não significa apenas comemorar uma vitória nas urnas. Significa compreender que o mandato recebido não é um cheque em branco e que a responsabilidade de administrar o país exige muito mais do que fidelidade a velhas convicções ideológicas.

Mas os primeiros sinais apontam para a continuidade. Aumenta-se a estrutura administrativa, cogitam-se novos ministérios, acomodam-se aliados e preserva-se uma máquina pública que parece ter vida própria. Enquanto isso, a palavra eficiência continua ausente do vocabulário de quem deveria estar preocupado em fazer o Estado funcionar melhor e gastar menos.

O problema não é simplesmente o número de ministérios ou a quantidade de cargos distribuídos. É a concepção de governo que essas decisões revelam. No Brasil, a máquina pública frequentemente parece organizada para atender às necessidades políticas de quem governa, e não às necessidades de quem paga a conta. O contribuinte financia a estrutura, mas nunca é consultado sobre sua utilidade.

Na economia, o cenário tampouco inspira confiança. O país convive com despesas elevadas, dívida crescente, juros persistentemente altos e dificuldades para construir um ambiente favorável aos investimentos. Ainda assim, qualquer discussão séria sobre contenção de gastos é recebida como ameaça política. Parece que o governo considera mais fácil aumentar a arrecadação do que rever suas próprias despesas.

É uma lógica perversa. O Estado gasta, endivida-se, paga juros elevados e transfere para a sociedade o custo de suas escolhas. O cidadão sente isso no supermercado, no financiamento, nos serviços e na perda do poder de compra. A conta não desaparece porque o discurso oficial prefere não mencioná-la.

Também merece atenção a relação entre governo e poder. A administração pública não pode ser confundida com patrimônio de um partido, tampouco os ministérios e as empresas estatais podem funcionar como instrumentos de acomodação de interesses políticos. O Estado pertence à sociedade, não a quem ocupa temporariamente o Palácio do Planalto.

A democracia não se esgota no resultado das urnas. O voto confere legitimidade para governar, mas não elimina a obrigação de prestar contas, respeitar instituições e administrar com responsabilidade. Quem vence uma eleição recebe um mandato para governar o país inteiro, inclusive daqueles que votaram contra.

É perfeitamente legítimo que o governo mantenha suas convicções e execute o programa que apresentou ao eleitorado. Mas isso não o dispensa de demonstrar resultados. Não basta invocar a vontade popular para justificar qualquer decisão, muito menos transformar divergências econômicas em demonstrações de hostilidade política.

O Brasil precisa de crescimento, produtividade, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e serviços públicos de qualidade. Precisa de um Estado que resolva problemas, não de um Estado que se transforme no próprio problema.

O mais preocupante, portanto, não é que o governo Lula pretenda continuar sendo Lula. É que pareça não reconhecer a necessidade de corrigir os erros que já demonstraram seus efeitos. Um país não avança apenas porque muda o calendário eleitoral ou porque seus governantes anunciam uma nova etapa.

O Brasil não precisa de um governo que se reinvente no discurso. Precisa de um governo que tenha coragem de mudar na prática. Até agora, o que se anuncia como futuro tem um indisfarçável cheiro de passado.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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