Minha criatura ou Os travessões explicativos


Era cedo. Pensando bem, era bem cedo pra alguém sair de casa num domingo – tá bom que ele não trabalhava, mas quem o conhecia sabia que ele gostava de levantar cedo – para assim, começar mais cedo a não fazer nada.
Alguns vão me perguntar o que é que tenho com isso e será bem difícil dizer; posso responder “bom, é cria minha e como tal, decido seu destino”. E poucos serão aqueles que irão questionar minha atitude; afinal, a premissa me faculta qualquer coisa, boa ou ruim, para ele ou para mim, que nem sou personagem da história…
Perdido em seus pensamentos nada profundos, ainda assim deixou de cumprimentar pessoas que conhecia e de quem nem fazia questão; mas, cumprimentava porque não custava nada e assim mantinha a aparência de sujeito educado…
“– Xisto, vem aqui, cachorro, nada de atravessar a rua sozinho! Quem chamou você, bicho preto?” disse, coçando a orelha do Xisto – e nem tão preto ele era.  E não é que ele nem percebera quando o cão passou por ele antes que fechasse o portão? Melhor assim; sabia que, quando saia e o deixava preso em casa, ele ficava ganindo, inconsolável por muito tempo…
A rua não era de fato preocupação: poucos carros passavam por ela e, como tinha buracos e calombos – é isso, são aparentados das lombadas, mas não feitos de propósito – que, se alguém passasse depressa, acabaria dando lucro à única oficina do pedaço… Ainda bem, porque naquela lonjura, ninguém nem se daria conta de por ali ter passado.
Aliás, a placa que mencionava “Real das Matas de São Alcaguete” – e nem mencionava tudo isso: ela era pequena e dizia apenas “Real Alcaguete” – o que não levaria ninguém a se enganar de lugar por conta disso…
Pode-se achar estranho que uma vila tenha esse nome, mas foi-lhe dado por conta de um que, contando tudo, a salvou de destino imerecido – dado que não é linda, mas nela moram uns caras pacatos – e outros também bons de briga, e que, àquela altura, nada tinham feito – pelo menos, foi o que me disseram e, como eu não estava lá, tive que acreditar…
Sem muita pressa, vai até o bar do seu Eugênio – que nem era o mais perto, mas era o que tinha um café melhorzinho  – deu preguiça de fazer seu café em casa e como era domingo, talvez encontrasse por lá alguém disposto a jogar conversa fora, ou até a emprestar algum…
Essa coisa de escritor onisciente vai pesar um pouco, acaba sendo pouco divertido saber até os pensamentos do Xisto: isso mesmo, do Xisto! Porque eu tenho certeza de que bicho pensa – e é claro que isso não irá incomodar ninguém quando esta história estiver pega e todos estiverem à espera do próximo capítulo!…

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