11 de agosto de 2022
Sylvia Belinky

Indecência


Não me considero careta, ainda que já seja “idosa”; mas, confesso que estou tendo trabalho para digerir certos acontecimentos, no mínimo esdrúxulos, no noticiário da semana…
A exposição de arte no Banco Santander no Rio Grande do Sul – que, cá para nós, eu não rotularia do estado mais cabeça aberta do Brasil – é um desses fatos.
Toda arte é questão de gosto e não há nada que possa ser impingido nessa área.
Levando essa premissa em consideração, eu poderia ou não ir vê-la. O que discuto é a razão pela qual justamente essa exposição, que tem um tema fora do usual, polêmico, tenha que ser patrocinada pela Lei Rouanet, que põe à disposição dinheiro de impostos, dinheiro do povo? Por que não o dinheiro do próprio banco?
Não surpreendeu ninguém a celeuma – na verdade, eu diria que estavam esperando por ela ansiosamente, tanto artistas quanto expositores. O barulho foi grande, as redes sociais extrapolaram – este tem sido seu papel – e a solução dada foi drástica: encerrá-la.
E hoje, vejo a encenação, no MAM, de um teatrólogo, cuja “peça” escolhida é franqueada às crianças que, eventualmente, até poderiam encarar sem grande susto o artista nu.
Entretanto, boa parte dos pais e mães não irá encarar o tema como normal e saudável, e não levaria os filhos para ver a “encenação do pinto de fora” ou, mais cientificamente, “do pênis exposto”.
O país passa por uma série de problemas seriíssimos de identidade, de muita discussão em torno do que é moral, decente, aceitável.
Nada neste país é mais indecente, pornográfico até, do que a roubalheira desenfreada e desavergonhada das nossas maiores autoridades – de modo que, se escandalizar com um pênis, fica até ridículo.
Mas será que não estamos misturando alhos com bugalhos, leia-se, o que eu não quero que meu filho veja, com o que eu não quero que meu filho… seja?
Mais uma vez, estamos sendo manipulados seja pela mídia, pelos artistas ou por qualquer “figura de proa” que esteja dando seu parecer “abalizado” durante seus 15 minutos de fama…
Não estamos mais em condições de escolher, de gostar ou desgostar sem patrulhamento.
Fato é que vivi um tempo em que ter opinião formada era possível e não tinha que estar de acordo com nada além da minha consciência e o meu gosto, sem o efeito “manada” dos dias de hoje.

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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