9 de agosto de 2022
Sylvia Belinky

Gentilezas esquecidas


Lembro-me de ir à escola de ônibus, de conhecer e ser conhecida pelos motoristas, para quem sempre dava bom dia e agradecia quando ia descer. Nessa época, vinha escrito no alto, bem na frente: “Proibido conversar com o Motorista”.
Mas eles eram amigos, sabiam a que horas deveríamos aparecer e, muitas vezes, vendo a gente chegando esbaforida, esperavam com um sorriso e abriam a porta fora do ponto – outra coisa que até hoje é proibida!
Em nosso trajeto, sabíamos quem deveria estar no ponto e, se não estivessem, ficávamos cismando se atrasaram ou, dependendo da idade, se estavam doentes, e perguntávamos ao cobrador, também nosso amigo, que sempre sabia o que tinha acontecido; outros tempos, em uma São Paulo menor e mais afável.
Hoje, voltei a frequentar o ambiente do ônibus e já não é proibido falar com o motorista. Como se entra, contrariamente ao que era antigamente, pela frente, cumprimentar o motorista e dar um sorriso, faz parte de um mínimo de civilidade.
Mas, é impressionante como, no dia a dia, as pessoas, ainda que precisem umas das outras e vivam em sociedade, a comunicação parece só funcionar via… celular!
Você chega perto de alguém digitando freneticamente e dificilmente receberá um olhar que demonstre que você não ficou transparente.
E por que não sorrir para aquele que vai ser seu companheiro de banco ao menos por alguns minutos, antes de sentar? E, que tal pedir licença antes de se acomodar ao lado dele ou dela?
Há coisas interessantes que você vai ter a oportunidade de fazer – ao vivo e em cores: ver tipos interessantes, outros que, claramente solitários, querem só trocar duas palavras, ainda que seja sobre o tempo…
Vai dar para analisar muita gente e se convencer de que se trata de um mini-universo muito mais autêntico do que o que encontramos nas assim chamadas “redes sociais”…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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