
As pessoas costumavam acreditar que, na vida, para serem lembradas, seria necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, não necessariamente nessa ordem.
Parece que as coisas mudaram bastante: tem quem escreveu livros e já foi praticamente esquecido, quem teve filhos, mas não plantou árvores ou escreveu livros e o destino foi o mesmo de quem o fez ou não, bem como houve quem reflorestou uma chácara, e por isso mesmo faltou tempo para escrever o livro – ou, vai ver, era analfabeto.
De minha parte, tive filho, plantei árvores e escrevi crônicas, mas não estou achando que vai funcionar!
Na semana passada, resolvi fazer um curso de velhice, que na verdade foi só para checar o que estou fazendo uma vez que, já estando velha, não vai mais ser possível alterar o curso da história.
O curso visa criar as condições ideais para se envelhecer bem. Mas, como fazer isso pareceu, pelos comentários que li, no mínimo controverso.
Gosto muito da doutora que ministrou o curso, simpática e delicada, que conta com leveza – o que ela acredita ser necessário para se encarar a “melhor idade” – e começa aí a minha dúvida, uma vez que, em se tratando da “melhor idade”, bastaria esperar chegar lá, né?
Mas, não. Um dos comentários, que ela fez e causou celeuma, foi que há pessoas que chegam a seu consultório e dizem: “Doutora, cheguei aos 70 anos, mas não estou preparada para viver esta idade!”
Eu me pergunto qual seria a minha reação, eu que nem geriatra sou, nem dou um curso para ficar “un vecchio in gamba” (o que se poderia traduzir por “um velho inteirasso”.
E esta joia de doutora pergunta à incauta onde ela esteve nos últimos 30 anos que não trocou ideias com ninguém mais velho, para ter uma noção do que a esperava.
E leio a opinião de muitas pessoas, furibundas com a médica e sua pergunta: diziam que jamais iriam a um consultório para “levar bronca“…
Opa! E eu achando que a reação da doutora foi gentil. Fico imaginando essa criatura se fosse eu a dizer: “Mas… só agora você se deu conta disso?! Ferrou!”
Meu caso é mesmo perdido, não tenho como retroceder, mudar o que já fiz e, honestamente nem quero, não tenho arrependimentos graves: fiz o melhor que pude!
Sou uma velha exatamente como fui jovem: distraída, bem humorada, conversadeira e feliz por não ser mais obrigada a coisa alguma! Ir a festas de família onde estarão também aqueles que não curto, frequentar gente chata, preocupar-me com o que vou vestir… Nada disso mais me pertence!
A liberdade de ser eu mesma, de vestir o que eu preferir e comer o que gosto, não tem preço!

