16 de fevereiro de 2026
Sylvia Belinky

Curso de velhice

Imagem gerada pelo Meta IA do WhatsApp

As pessoas costumavam acreditar que, na vida, para serem lembradas, seria necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, não necessariamente nessa ordem.

Parece que as coisas mudaram bastante: tem quem escreveu livros e já foi praticamente esquecido, quem teve filhos, mas não plantou árvores ou escreveu livros e o destino foi o mesmo de quem o fez ou não, bem como houve quem reflorestou uma chácara, e por isso mesmo faltou tempo para escrever o livro – ou, vai ver, era analfabeto.

De minha parte, tive filho, plantei árvores e escrevi crônicas, mas não estou achando que vai funcionar!

Na semana passada, resolvi fazer um curso de velhice, que na verdade foi só para checar o que estou fazendo uma vez que, já estando velha, não vai mais ser possível alterar o curso da história.

O curso visa criar as condições ideais para se envelhecer bem. Mas, como fazer isso pareceu, pelos comentários que li, no mínimo controverso.

Gosto muito da doutora que ministrou o curso, simpática e delicada, que conta com leveza – o que ela acredita ser necessário para se encarar a “melhor idade” – e começa aí a minha dúvida, uma vez que, em se tratando da “melhor idade”, bastaria esperar chegar lá, né?

Mas, não. Um dos comentários, que ela fez e causou celeuma, foi que há pessoas que chegam a seu consultório e dizem: “Doutora, cheguei aos 70 anos, mas não estou preparada para viver esta idade!”

Eu me pergunto qual seria a minha reação, eu que nem geriatra sou, nem dou um curso para ficar “un vecchio in gamba” (o que se poderia traduzir por “um velho inteirasso”.

E esta joia de doutora pergunta à incauta onde ela esteve nos últimos 30 anos que não trocou ideias com ninguém mais velho, para ter uma noção do que a esperava.

E leio a opinião de muitas pessoas, furibundas com a médica e sua pergunta: diziam que jamais iriam a um consultório para “levar bronca“…

Opa! E eu achando que a reação da doutora foi gentil. Fico imaginando essa criatura se fosse eu a dizer: “Mas… só agora você se deu conta disso?! Ferrou!”

Meu caso é mesmo perdido, não tenho como retroceder, mudar o que já fiz e, honestamente nem quero, não tenho arrependimentos graves: fiz o melhor que pude!

Sou uma velha exatamente como fui jovem: distraída, bem humorada, conversadeira e feliz por não ser mais obrigada a coisa alguma! Ir a festas de família onde estarão também aqueles que não curto, frequentar gente chata, preocupar-me com o que vou vestir… Nada disso mais me pertence!

A liberdade de ser eu mesma, de vestir o que eu preferir e comer o que gosto, não tem preço!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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