Cucarachas eternos


Uma amiga chilena, após vinte anos por aqui com mãe, cachorros, gatos e marido, resolveu voltar para a própria terra de mala e cuia, em agosto do ano passado.
Menos de um ano depois, está de volta. Seus conterrâneos não reconhecem mais o seu sotaque, seus parentes não se aproximam – sentem que são estranhos – e o frio de sua terra atinge em cheio sua esperança e convicção de ter chegado em casa.
Tempos estranhos estes em que vivemos: infelizes na nossa terra, dela saímos e, às vezes, na nossa volta, caso ocorra, nem sempre seremos bem recebidos. A parcela de brasileiros que se dispõe a ser imigrante e um estranho em outro país, diferentemente da maioria, tem dinheiro e, consequentemente, pode escolher não só para onde ir como também, lá chegando, onde morar. E não se sentem – e não estão – irmanados com venezuelanos, bolivianos, peruanos , menos ainda, com sírios e haitianos.
Mas, talvez devessem, porque existe um ponto em comum. Como todos, serão “cucarachas”; leia-se, estranhos e cidadãos de segunda categoria para sempre. Mesmo morando bem e tendo dinheiro, nunca serão iguais aos donos da pátria.
Exemplo acabado de imigrantes milionários e que ninguém quer, a não ser pelas caixinhas, estão nossos milionários da carne que, ao invés de mala e cuia, levaram jatinho e iate, ancorados na força de sua grana. Hoje, com seu castelo de cartas desmoronando, quem quer que seja que os reconheça irá hostilizá-los e destratá-los – onde quer que estejam.
No início do século passado, o tratamento dispensado aos nossos avós ou nossos pais, ao chegarem aqui, foi bem outro; imigrantes eram sempre olhados como quem tivesse vindo para somar força de trabalho e consequentemente, progresso. Não eram vistos como inimigos dispostos a nos roubar a comida do prato e a lesar o Brasil. E, por essa razão, eram recebidos de braços e corações abertos. Em sua maioria vinham fugidos de guerra e perseguição religiosa ou de raça, tendo, em boa parte educação, cultura e escolaridade.
Hoje, todos que fogem de seus países ainda o fazem por causa de guerras e fome, perseguição religiosa e racial ou intempéries diversas, querendo um lugar seguro para trabalhar, cuidar de seus filhos e ter um teto . Mas, os brasileiros os olham com desconfiança e os encaram como se fossem usurpadores do lugar que seria seu.
Mas, será que oferecemos tudo isso ao brasileiro sem teto, drogado, semi analfabeto, favelado, miserável, sem instrução, sem sombra de futuro como força de trabalho? Certamente não e, quem chega com outra disposição, outro histórico, pode e deve ser bem recebido: uma oportunidade é o que pedem e será o que irão valorizar.
Nossa terra é vasta e tem rincões mal explorados. Se fornecermos as ferramentas para que lá se desenvolvam e criem seus filhos, é quase certo que não irão desperdiçar a oportunidade!

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