2 de julho de 2022
Sylvia Belinky

Bodas… sem cerimônia


Ontem, fui a um almoço em que uma amiga muito querida se “casou” com “seu príncipe encantado”. Ela com 66 anos e o príncipe… com 77 – sem “papel passado” ou bênçãos religiosas.
Viúvos os dois, conheceram-se através de um anúncio feito para a venda do carro do marido falecido. Ele veio ver o carro e o comprou, mas interrompeu a negociação e a transferência de propriedade porque sua esposa, muito doente, acabou por falecer entre as providências de um e outro documento.
Minha amiga, por seu lado, não tinha pressa e pôde esperar. Mal sabia ela que esperou não só pelo comprador, como por seu futuro companheiro. Primeiro um café, depois um almoço, gentilezas e sutilezas comuns a quem tem mais idade, tempo e prazer em trocar mais do que uma simples mensagem no WhatsApp…
Essa foi uma festa diferente, em que os membros da família de ambos eram a maioria: filhos, filhas, noras, genros, netos e até bisnetos, com direito a uma sogra de 99 anos, mãe da noiva, e uma tia, irmã mais velha dessa mãe, com… 103, bonitas, bem dispostas, com a cabecinha lúcida…
Poucas vezes, pessoas idosas têm a oportunidade de presenciar um momento tão significativo, em que o dia, o horário, a indumentária e os convidados, tudo foi escolhido pelos interessados diretos, sem pressões ou imposições sociais.
Na verdade, a noiva escolheu tudo e o fez com maestria, algo que nunca lhe tinha sido permitido fazer antes: seu primeiro marido sempre fez questão de comandar tudo e todos com pulso forte…
Os noivos também decidiram continuar vivendo cada um na sua casa, reservando-se o direito de receberem juntos os amigos e, separados, os netos quando forem para dormir no quarto, para ouvir  historinhas ou uma canção de ninar daquelas que só as avós conhecem e sabem cantar – e até a fazer brigadeiro no meio da noite dando muitas risadas, chocolate e beijos estalados, lembranças de amor prá uma vida inteira!
Ter estado presente em um momento tão intenso e cheio de emoção, no qual os filhos de um e de outro lhes renderam homenagens, discursando com palavras simples e cheias de amor e carinho, foi mais do que uma festa: foi um prêmio e um privilégio!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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