
De: Carol Reed, Reino Unido-EUA, 1940
(Disponível no YouTube em 4/2026 com o título de Trem Noturno para Munique:.)
Night Train to Munich, no Brasil Gestapo, é um filme fascinante, um prato cheio para quem adora cinema e História.
Pode não ser um dos grandes filmes do respeitadíssimo diretor Carol Reed, de Rex Harrison (os dois nomeados Sir pela Rainha Elizabeth II), de Margaret Lockwood, “uma das mais belas, energéticas e espirituosas atrizes da história do cinema britânico”, nem da grande dupla de roteiristas e também diretores e produtores Sidney Gilliat e Frank Launder – e provavelmente não é mesmo.
Mas é um bom filme, agradável de se ver também agora, 85 anos depois de seu lançamento, em 26 de julho de 1940.
Registrar a data do lançamento é muito importante. Night Train to Munich chegou aos cinemas do Reino Unido menos de um ano depois da declaração de guerra contra a Alemanha nazista, em 3 de setembro de 1939 – e a ação do filme se passa exatamente no ano em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial.
“A ação deste filme se passa durante o ano que precedeu a guerra e na noite de 3 de setembro de 1939”, informa um letreiro logo após os rápidos créditos iniciais, e antes da primeira tomada.
O filme que Carol Reed dirigiu – com os jovens astros Margaret Lockwood e Rex Harrison e roteiro da dupla Gilliat e Launder, baseado em conto do australiano de ascendência chinesa Gordon Wong Wellesley – tinha a urgência, o frescor de um trabalho jornalístico, uma grande reportagem sobre fatos recentíssimos, eventos que ainda estavam acontecendo naquele momento.

Foi o primeiro filme em que um ator interpretou Adolf Hitler. (O nome do ator, Billy Russell, ironicamente não aparece nos créditos do filme.) O imenso, imprescindível clássico O Grande Ditador, em que Charles Chaplin interpretava um déspota em tudo por tudo parecido com Hitler, chegaria aos cinemas em outubro de 1940, três meses depois, portanto, do lançamento na Inglaterra deste Night Train to Munich.
Este filme, aliás, só estrearia nos Estados Unidos em dezembro de 1940.
E aqui é obrigatório lembrar que os dois filmes, o grande clássico de Chaplin e este muitíssimo menos conhecido de Carol Reed, foram feitos e lançados quando os Estados Unidos ainda eram neutros na guerra de Alemanha, Itália e Japão contra o resto do mundo. Só em dezembro de 1941, após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, os EUA finalmente entrariam na guerra.
Night Train to Munich está disponível no YouTube, grátis que nem passeio no parque, em cópia boa, som original e legendas em português – só que com o título traduzido literalmente do original, Trem Noturno para Munique. Quando foi lançado no Brasil, teve o título de Gestapo – o que não era desapropriado, não. Night Train to Munich é um filme sobre agentes de inteligência, espionagem, e tem como um dos personagens centrais da trama um oficial da Gestapo.
Mais um detalhe interessante: o oficial nazista fanático é interpretado por Paul Henreid (na foto abaixo). O ator que, apenas dois anos depois, faria o herói antinazista Victor Laszlo em um dos clássicos mais amados entre todos os clássicos, Casablanca. Victor Laszlo era tão herói e tão antinazista que, no final, fica com a mocinha, Ilsa Lund-Ingrid Bergman, a mocinha mais bela de todas as mocinha destes 130 e tantos anos de cinema, deixando o coitado do Ricky Blaine-Humphrey Bogart pra sair por aí com o capitão Louis Renault-Claude Rains, da polícia do arechal Pétain, o chefe de governo francês colaborador do nazismo…

O filme tem uma característica que é essencialmente britânica: embora trate/ da guerra que naquele momento estava acontecendo, embora apresente o regime nazista como um inimigo perigoso, apavorante, que precisa ser enfrentado com dureza, o filme se permite muitos momentos de bom humor, e até de humor escrachado, hilariante.
Absolutely British!
Uma trama bem complexa, interessante
A história – que mereceu uma indicação ao Oscar de melhor história original para Gordon Wellesley – é intrincada, como costumam ser as tramas envolvendo serviço secreto, espionagem. Dois dos principais personagens se disfarçam de agentes do inimigo para conseguir seus intentos – e, no meio de tudo, esses dois personagens ficam interessados pela mocinha, Anna, o papel da bela Margaret Lockwood, então na flor de seus 25 aninhos.
A base da trama é uma invenção de um industrial e cientista da Checoslováquia, Axel Bomasch (James Harcourt) – uma fórmula capaz de blindar totalmente materiais como o ferro e o aço. Bomasch está trabalhando para finalizar a execução de sua fórmula, em sua fábrica em Praga, quando os nazistas invadem a Checoslováquia. Um dos objetivos dos invasores é capturar o cientista para que ele passe a trabalhar para a Alemanha.
Grandes empresários, amigos de Bomasch, armam um esquema para retirá-lo do país antes da chegada dos nazistas, e enviá-lo para o Reino Unido, para continuar seu trabalho juntamente com as forças armadas britânicas. O cientista consegue embarcar no avião rumo a Londres – mas Anna, sua filha única, é detida pelos nazistas quando se preparava para ir até o aeroporto ao encontro do pai.
Volto um pouco atrás. O filme abre com sequências que mostram Adolf Hitler em sua mansão nas montanhas da Bavária, recebendo comandantes militares e ordenando a invasão da Áustria, depois da região dos Sudetos, depois da Checoslováquia. Eu não sabia que a Checoslováquia havia sido invadida ainda em março de 1939, antes do início da guerra – que só foi declarada por França e Reino Unido quando os nazistas invadiram a Polônia, no início de setembro daquele ano.

Anna Bomasch é levada presa para um campo de concentração; é colocada para trabalhar como auxiliar de enfermagem, e presencia os nazistas espancando um prisioneiro que se mostra rebelde e insulta seus captores.
O sujeito, Karl Marsen (o papel de Paul Henreid), atrai, é claro, a simpatia de Anna. Aproxima-se dela. Diz que pretende fugir, que conta com a ajuda de um amigo que foi recrutado à força pelos nazistas – e se oferece para levar a moça com ele. O plano de fuga dá miraculosamente certo, e o casal consegue chegar à Inglaterra, onde se hospedam na casa de um conhecido dele. Marsen, bonzinho demais, sugere a Anna um plano para entrar em contato com seu pai – colocar um pequeno anúncio no Times, todos os dias, dando seu telefone como contato.
Alguém faz de fato contato com Anna, através de uma carta, e dá instruções para que ela vá a determinada cidade não muito longe de Londres, onde será levada até o pai, que está trabalhando em seu projeto de blindagem de material junto com a Marinha britânica. Cuidadosa, Anna não abre para Marsen, seu “salvador”, para onde está indo.
No lugar marcado, Anna fica conhecendo Gus Bennett (o papel de um Rex Harrison jovenzinho de tudo, aos 32 anos mas parecendo ter uns 25), o agente secreto do governo britânico que está protegendo o cientista checo e mantendo em sigilo sua identidade, para evitar que agentes nazistas infiltrados descubram seu paradeiro.
Revela-se, então, que o bonzinho Karl Marsen é na verdade um oficial da Gestapo, que se fingiu de antinazista exatamente para se aproximar de Anna, e levá-la para a Inglaterra, a fim de descobrir o paradeiro do pai cientista.
Mais tarde, Bomasch é raptado por agentes nazistas e levado para a Alemanha juntamente com Anna – e aí será a vez de Gus Bennett se fazer passar por um oficial do exército nazista.
Ufa! Acho que consegui fazer um relato não longo demais do que rola ali pelos primeiros 20, talvez 30 minutos do filme que dura 95. Ainda vai haver muita ação – e surpresas – pela frente, mas chega de relato.

Os roteiristas foram também ótimos diretores
Um registro sobre os autores do roteiro, a dupla Sidney Gilliat (1908–1994) e Frank Launder (1906–1997). Os dois tiveram sólidas carreiras como roteiristas, diretores e produtores. Juntos, fizeram mais 40 filmes, e fundaram sua própria produtora, a Individual Pictures. Launder se concentrou em comédias, enquanto Gilliat fez mais thrillers com toques de comédia e também dramas.
Já foram comentados aqui neste site
Um Estranho na Escuridão/I See a Dark Stranger, de Frank Launder, 1946,
O Passado do Meu Marido/The Constant Husband, de Sidney Gilliat, 1955,
A Fortuna é Mulher/Fortune is a Woman, de Sidney Gilliat, 1957, e
Noite Interminável/Endless Night, de Sidney Gilliat, 1972.
Um ano antes deste Night Train to Munich, em 1939, Sidney Gilliat havia assinado o roteiro de um filme de Alfred Hitchcock, A Estalagem Maldita/Jamaica Inn. Em 1938, a dupla Gilliat e Launder havia feito o roteiro de A Mulher Oculta/The Lady Vanishes, um dos grandes (e dos últimos) filmes da fase inglesa de Hitchcock.
Há coincidências entre The Lady Vanishes e este Night Train to Munich. Nos dois, parte importante, fundamental da ação se passa em um trem. Nos dois, a grande estrela é Margaret Lockwood. E nos dois lá pelas tantas surgem Charters e Caldicott.
No meio da trama dramática, surgem dois tipos hilários
Charters e Caldicott são passageiros no trem no trem noturno que se dirige a Munique, em 3 de setembro de 1939, o dia da declaração de guerra de França e Reino Unido contra a Alemanha nazista que acabara de invadir a Polônia. A viagem no trem que dá o título ao filme acontece quando a narrativa começa a se encaminhar para o final.
Estão no trem os personagens centrais da história – o cientista Axel Bomasch e sua filha Anna, o agora assumido oficial da Gestapo Karl Marsen, o agente secreto inglês Gus Bennett agora se fazendo passar por oficial nazista. E, do nada, surgem esses dois novos personagens, passageiros do trem, Charters e Caldicott – interpretados respectivamente por Basil Radford e Naunton Wayne (na foto abaixo).

São dois respeitáveis cidadãos britânicos absolutamente típicos, obcecados por críquete, aquele jogo absolutamente típico da Grã-Bretanha, turistando pela Alemanha. São engraçadérrimos, hilariantes, dentro daquele humor tipicamente, absolutamente britânico.
Eles são capazes de diálogos assim:
Charters: – “Eu comprei um exemplar de Mein Kampf. (Vemos o livro de Hitler, em uma grande edição de capa dura, nas mãos do inglês.) Me ocorreu que ele poderia lançar uma luz sobre tudo isso. Já leu?”
Caldicott: – “Nunca tive tempo”.
Charters: – “Parece que eles dão um exemplar para todos os casais de noivos aqui.”
Caldicott: – “Ahn, não acho que seja desse tipo de livro, meu velho.”
A criatividade, o espírito, a graça da dupla Gilliat e Launder fizeram com que esses tipos criados para The Lady Vanishes entrassem também na trama bolada pelo escritor Gordon Wellesley. E a entrada acontece numa boa. Caminhando pelo trem, eles passam por Gus Bennett, em sua personificação de oficial nazista. Charters o reconhece – já havia jogado críquete com ele uma vez. Conta isso para o amigo, e os dois ficam imaginando o que um perfeito cidadão britânico estaria fazendo dentro de um uniforme de oficial nazista. Cadicott sugere que ele é um traidor, ao que Charters responde: – “Traidor? Não pode, meu velho. Ele jogou pelo Gentlemen. Uma vez só.”
Charters e Caldicott fizeram tanto sucesso que a dupla G illiat e Launder os colocaram em quatro outros filmes! Depois apareceriam também em uma peça de teatro e diversos programas de rádio.
Coisas que só acontecem na Grã-Bretanha…

Maltin gostou do filme. O Guide de Tulard torce o nariz
Leonard Maltin deu ao filme 3 estrelas em 4: “Hábil thriller hitchcockiano sobre agente da inteligência britânica (Rex) Harrison tentando salvar o cientista checo que havia escapado dos nazistas mas foi sequestrado novamente e levado para Berlim. Fotografado de forma estilosa (por Otto Kanturek), com roteiro esperto de Frank Launder e Sidney Gilliat, que também escreveram The Lady Vanishes, de Hitchcock (que introduziu os personagens cômicos reprisados aqui por Radford e Wayne). Baseado no romance Report on a Fugitive. Originalmente lançado nos EUA como Night Train.”
Algumas fontes também dizem que Report on a Fugitive é um romance; outras explicam que na verdade se trata de um conto.
O Guide des Films de Jean Tulard não foi muito com a cara de Train de Nuit pour Munich. Eis a avaliação:
“Um filme de propaganda antinazista que tenta retomar a receita de Une Femme Disparaît sem conseguir igualar-se a ele: mesmos roteiristas, mesma atriz, mesmo produtor, etc. É um filme de espionagem bem inverossímil com algumas cenas de ação bem sucedidas (a do teleférico, por exemplo), um pingo de humor, mas também muita falação. Registramos que Paul von Hernreid ficaria famoso com Casablanca (1942) com o nome de Paul Henreid.”
Une Femme Disparaît, naturalmente, é The Lady Vanishes, aqui A Dama Oculta. E, sim, de fato nos créditos iniciais do filme o nome do ator é grafado como Paul von Hernreid. Vejo agora que o ator era filho do barão Karl Alphons Hernreid, banqueiro e consultor financeiro do imperador Franz Josef. Ao nascer em 1908 em Trieste, então Império Áustro-Húngaro, recebeu o nome de Paul Georg Julius Freiherr von Hernreid Ritter von Wasel-Waldingau! Cresceu em Viena, e, como ator iniciante, conheceu o também austro-húngaro Otto Preminger. Mas esta é outra história…
Anotação em abril de 2026
Gestapo/Night Train to Munich
De Carol Reed, Reino Unido-EUA, 1940
Com Margaret Lockwood (Anna Bomasch),
Rex Harrison (Gus Bennett),
Paul Henreid (Karl Marsen)
e Basil Radford (Charters), Naunton Wayne (Caldicott), James Harcourt (Axel Bomasch, o pai de Anna), Felix Aylmer (Dr. John Fredericks), Wyndham Goldie (Dryton), Roland Culver (Roberts), Eliot Makeham (Schwab), Raymond Huntley (Kampenfeldt), Austin Trevor (capitão Prada), C.V. France (almirante Hassinger), Frederick Valk (oficial da Gestapo), Billy Russell (Adolf Hitler)
Roteiro Sydney Gilliat & Frank Launder
Baseado no conto “Report on a Fugitive – A Drama of the Secret Service”, de Gordon Wellesley
Fotografia Otto Kanturek
Direção musical Louis Levy
Montagem R.E. Dearing
Direção de arte Alex Vetchinsky
No YouTube. Produção Edward Black, 20th Century Fox.
P&B, 95 min (1h35)
Fonte: 50 anos de filmes

