
De: Jacques Tati, França, 1953
(Disponível no Looke e em “Filmes Completos – Leg. Português” no YouTube em 4/2026.)
Sui generis. O termo ficou rolando na minha cabeça depois de ver, pela primeira vez (antes tarde do que nunca…) As Férias do Sr. Hulot/Les Vacances de Monsieur Hulot, o clássico de Jacques Tati de 1953, cinco anos antes de Meu Tio.
Fui ao Aurélio para checar como ele define sui generis, e está lá: “Que não apresenta analogia com outra (pessoa ou coisa); peculiar.”.
Sui generis. As Férias do Sr. Hulot é um filme sui generis. Monsieur Hulot é sui generis. Jacques Tati é sui generis.
Aí fui ver o que eu havia escrito sobre Mon Oncle, e… Diabo, o que eu gostaria de escrever agora sobre Les Vacances de Monsieur Hulot já está lá, no texto que escrevi em 2014, depois de ver o filmaço que já havia visto quando garoto, em Belo Horizonte.
Não tem jeito – vou repetir aqui o que escrevi 12 anos atrás.
O tio, o personagem, é uma peça, uma figura rara, daquelas carimbadas, que a gente encontra poucas vezes na vida. Meu Tio, o filme, também.
(Basta trocar “o tio” por Monsieur Hulot e o nome do filme de 1958 pelo de 1953…)
Jacques Tati faz um tipo de humor que é único, peculiar. Não é igual a nada feito antes dele, nem outro artista que veio depois fez algo exatamente como aquilo. Exatamente como Monsieur Hulot, e como o tipo de narrativa de Tati, não há.
Igualinho, não. Mas é claro que dá para sentir um pouco de Charlie Chaplin atrás dele – e, depois dele, um pouco de Blake Edwards, especialmente o de Um Convidado Bem Trapalhão/The Party (1968), bastante de Jerry Lewis, especialmente o de Mensageiro Trapalhão/The Bell Boy (1960), e um tanto de Mel Brooks, no conjunto da obra. Todos eles demonstram ter sido influenciados por Jacques Tati. E eu ousaria dizer até que os personagens fellianos aprenderam um pouco com o cinema desse realizador sui generis.

Parece um filme mudo – porque os personagens mal falam
Mesmo quando o cinema era mudo, os personagens falavam. Surgiam na tela grandes letreiros – legendas que contavam para o espectador o que o personagem estava dizendo.
Em As Férias do Sr. Hulot, não há propriamente diálogos. Quer dizer, os personagens falam, sim – mas, na imensa maior parte das vezes, não é para o espectador compreender o que eles falam. Com exceção de alguns poucos momentos em que as palavras são inteligíveis, os atores falam de tal modo que não é para o espectador entender as palavras. Fica claro o sentindo geral do que está sendo dito – mas, na verdade, exatamente o que está sendo dito importa pouco, ou nada.
As Férias do Sr. Hulot é um dos pouquíssimos filmes semi-mudos que já foram feitos, nestes mais de 130 anos de História do cinema.
Quando Hulot chega ao hotel à beira-mar onde vai passar alguns dias de férias, posta-se diante do funcionário da recepção, que, claro, pergunta o nome do visitante. A gente não entende a voz do funcionário, mas sabe muito bem o que ele perguntou.
Hulot – o papel de Jacques Tati, que é também o diretor e co-autor do argumento e do roteiro – pronuncia a palavra Hulot, e desta vez o espectador entende quase perfeitamente a palavra. Quase, porque Hulot está com seu cachimbo, uma de suas marcas registradas, na boca, e então o som não sai muito direito.
O funcionário do hotel, num gesto bem pouco usual, retira o cachimbo da boca do hóspede, e pede para que ele repita. Hulot-Jacques Tati repete – e a palavra “Hulot” é uma das pouquíssimas faladas por um dos atores do filme de maneira inteligível para o espectador.
Há uma situação bastante inusitada: a cópia que Mary e eu vimos, disponível no YouTube, é uma tirada do DVD do filme na excelsa coleção Criterion, especializada em grandes filmes, obras-primas, em versões restauradas, com som remasterizado, a coisa mais caprichada que há. E, de fato, a imagem é absoluta e absurdamente de boa qualidade. Encontrei essa pérola em um canal do YouTube chamado “Filmes Completos – Leg. Português”. A sensacional ironia é que… As Férias do Sr. Hulot não tem legendas!
Claro que não tem legendas, né? Pois se as falas das pessoas são ditas para o espectador não entender perfeitamente, como poderia haver legendas?

Assim propriamente uma história, uma trama, isso não há
Semi-mudo, sem diálogos audíveis, As Férias do Sr. Hulot é também um filme sem assim propriamente uma trama, enredo, entrecho, história…
A “trama” do filme é assim:
O sr. Hulot (Jacques Tati), um sujeito bastante esquisitão, trapalhão, vai passar uns dias de férias à beira-mar. Envolve-se em várias situações bizarras, estranhas, hilariantes – e, depois pega a estrada de volta para casa.
Credo! Acho que é a primeira vez em minha looonga vida que consigo fazer uma sinopse de um filme em apenas três linhas!
A ver outras sinopses.
A do IMDb: “Durante as férias de verão, Senhor Hulot vai à praia e se hospeda em um hotel, causando algumas confusões ao longo do caminho e de sua estadia”.
Menor que a minha!
Ah! A do Guide des Films do mestre Jean Tulard traz uma sinopse mais longa. A ver: “M. Hulot, um simpático farfelu (maluco), sai de férias em seu antigo automóvel. Ele se instala em um pequeno hotel, perto da praia. Seu comportamento fora das normas vai atrair a antipatia da maior parte dos veranistas, que não amam os que são diferentes deles. M. Hulot zomba deles. Seus amigos são a bela Martine, uma velha inglesa e sobretudo as crianças, que se entediam com os adultos ‘normais’.!
A do Cinéguide, um delicioso guia especialista em sinopses curtas: “M. Hulot, que passa suas férias em uma praia bretã, corteja uma jovem”.
Ahnnn… Tenho considerações a fazer sobre essas sinopses.
Muito bom que Cinéguide revele o que eu não percebi no filme – a localização daquela praia. ‘Plage bretonne”! Então é na Bretanha, aquela região que fica no extremo Oeste da França, ao Sul do Canal da Mancha. Legal! Isso explica a presença daquelas turistas inglesas…
E, sim, há uma bela jovem, Martine (o papel de Nathalie Pascaud, nas duas fotos abaixo ), a mais importante entre todos os outros que vemos – com exceção, é claro, do protagonista, o personagem título. E, tá, com alguma boa vontade dá para admitir que M. Hulot corteja Martine. Embora, na verdade, diacho, o bicho seja tão esquisitão, tão difícil, que nem fica absolutamente claro que ele está cortejando, paquerando, dando de cima da moça.
Uma coisa é absolutamente certa: não acontece nada entre os dois.
Quanto ao que diz o Guide de Jean Tulard… Atrair a antipatia da maior parte dos veranistas, crianças que se entendiam com os adultos ‘normais’, creio que isso é mais opinião, interpretação do crítico, do que fatos claros, mostrados nitidamente no filme.

“Um soltrirão desengonçado aheio a tudo a seu redor”
Creio que uma boa, ampla, detalhada, sinopse do filme foi dada pelo CineBooks’ Motion Picture Guide. Lá vai:
“Mr. Hulot (Jacques Tati) é um solteirão desengonçado que é alheio a tudo o que acontece a seu redor. Ele vai para uma praia da Bretanha para curtas férias, e o caos o segue por onde quer que ele vá. Outros hóspedes do hotel incluem a graciosa Martine (Nathalie Pascaud), que Mr. Hulot gostaria de conhecer melhor, mas sua timidez o impede de fazer uma aproximação direta. Também no hotel estão os vários tipos familiares que a gente vê, incluindo o workaholic homem de negócios (Jean-Pierre Zola), a corpulenta senhora inglesa (Valentine Camax), o rapaz musculoso, o garçom (Raymond Carl), o ex-militar que ainda acha que está chefiando um batalhão (Andre Dubois), o casal que passeia para pegar conchas (Rene Lacourt e Marguerite Gerard), e o marido dominado pela esposa megera.”
O Cinebooks’ ainda vai em frente em mais três parágrafos relatando os fatos que acontecem ali na praia com o M. Hulot e ao redor dele, até a última sequência. Mas basicamente é aquilo que eu falei: o sr. Hulot vai passar uns dias de férias à beira-mar. Envolve-se em várias situações bizarras, estranhas, hilariantes – e, depois pega a estrada de volta para casa.
And that’s all folks, como dizia o Porky Pig, o Gaguinho, ao final dos desenhos animados da Warner criados quase 100 anos atrás. É só isso o meu baião, e não tem mais nada, não, como dizia o João, em uma das poucas músicas que compôs.
Em termos assim de trama, enredo, entrecho, história, As Férias do Sr. Hulot são só isso aí.
Um fiapinho de história – para servir de base para encadear uma série de gags visuais. Exatamente como bem lá atrás, no início, nos tempos em que o cinema não havia aprendido a falar, os tempos das comédias de Harold Lloyd, Harry Langdon e, em especial, Buster Keaton e Charles Chaplin.
Sim, é claro: Monsieur Hulot é assim uma espécie de O Vagabundo, Carlitos, Charlot – um tipo solitário mas solidário, gentil, alegre, absolutamente exótico dentro da massificada sociedade de massas da segunda metade do século XX, tão cheia de modernidades e tecnologias e tão longe dos melhores valores humanos.

O espectador não precisa saber o que eles estão conversando
Sim, é claro, é óbvio que Jacques Tati bebeu na fonte dos velhos mestres, Chaplin e Buster Keaton. Assim como me parece claro que beberam na fonte de Jacques Tati, como já foi dito acima, Jerry Lewis, Blake Edwards, Mel Brooks…
O eventual leitor que me perdôe, mas vou fazer aqui uma digressão – prometo que pequena.
Sempre que uso a expressão “fiapo de história” me lembro de Um Homem, Uma Mulher, o filme com que Claude Lelouch conquistou ao mesmo tempo o Oscar da Academia de Hollywood e a Palma de Ouro do Festival de Cannes e, talvez por isso mesmo, o ódio de 11 de cada 10 críticos de cinema. Lelouch sempre gostou de repetir (e repetiu inclusive em uma entrevista – para um dos 35 críticos de cinema da Folha e para este escriba aqui, então editor de Cultura da revista Afinal – no Maksoud Plaza, quando veio lançar seu Um Homem, Uma Mulher: 20 Anos Depois) que só existem duas ou três histórias na vida, mas as variações são infinitas. No filme que deu a ele a glória, o aplauso do público e o desprezo da douta crítica, Lelouch contou um fiapo de história. E, em várias sequências, em que o homem e a mulher conversavam, em uma mesa de bar ou de restaurante, eles conversavam e nós, os espectadores, não ouvíamos o que eles falavam. Porque as frases que eles estavam trocando não importavam tanto – o que importava era a figura dos dois ali, conversando, se expondo um ao outro, se conhecendo, se apaixonando.
Sempre fui apaixonado por essa sacada de Lelouch – mostrar o casal conversando sem que a gente ouça o que eles estão falando, porque, diacho, o que eles estão falando não importa. O espectador não precisa ficar sabendo. É algo privado, só deles.
Ao ver agora As Férias do Sr. Hulot, me ocorreu que talvez Lelouch tenha se inspirado em Jacques Tati nesse delicioso detalhe de seu filme.

Anos depois, Tati remexeu no filme, tirou coisas, enxertou outras
Quase uma década depois do lançamento do filme, em 1962, Jacques Tati resolveu remexer nele. Segundo a Wikipedia, ele fez uma nova montagem, suprimindo ou alongando algumas sequências, à procura de um ritmo melhor. Pediu uma reorquestração da música e refez a mixagem sonora.
Em 1978, o realizador voltou ao local em que boa parte do filme foi rodado, Saint-Marc-sur-Mer, no Sul da Bretanha, não muito longe de Nantes, e lá rodou uma cena com um caiaque e uma outra para fazer uma referência ao filme Tubarão/Jaws, na França Les Dents de la Mer, o extraordinário sucesso de Steven Spielberg de 1975.
Ainda segundo a Wikipedia, foi essa versão com acréscimos feitos em 1978 que foi lançada em DVD.
Um detalhinho: o velhíssimo veículo dirigido por M. Hulot – e o carro é um personagem importante do filme, com aqueles estampidos do motor que parecem tiros – é de fato uma relíquia, um Salmson AL-3 de 1924 (na foto abaixo), que, naturalmente, foi bastante modificado para ser usado durante as filmagens, iniciadas em 1952.
E um registro importante: M. Hulot, o incrível personagem que Tati criou neste filme aqui, voltaria a aparecer em três outros filmes, feitos ao longo dos 18 anos seguintes: Meu Tio (1958), Playtime – Tempo de Diversão (1967) e As Aventuras de M. Hulot no Tráfego Louco (1971).

Desde cedo, um incrível talento para a pantomima
Jacques Tatischeff (1907-1982) nasceu em Pecq, a Oeste e não muito longe de Paris, neto de Dimitri Tatischeff, conde e general do Exército imperial da Rússia, adido militar na embaixada russa em Paris. O filho do nobre Dimitri, Emmanuel Tatischeff, casou-se na França com Marcelle Claire van Hoof, por sua vez descendente de holandeses e italianos; tiveram dois filhos, Nathalie e Jacques.
O avô materno de Jacques e Nathalie, o holandês François Hubert Théodore van Hoof, era dourador e emoldurador, dono de loja elegante em Paris. Consta que avô e pai ficaram frustrados quando o jovem Jacques revelou que não gostaria de continuar o rentável comércio famiiiar de molduras e restauração de obras de arte.
O jovem Jacques se dedicou a esportes – lutou boxe, jogou tênis e depois se apaixonou por rúgbi. Mas demonstrava um incrível talento para pantomima – brincava de imitar os atletas conhecidos, por exemplo –, e então, a partir de 1931, passou a apresentar imitações, acrobacias e números cômicos em salas de música, teatros e circos. Em 1932, estreou como ator em um curta-metragem, Oscar, Champion de Tennis. Fez sua estréia como diretor em 1947, em um curta, Escola de Carteiros.
O primeiro longa como diretor veio em 1949, Jour de Fête, no Brasil Carrossel da Esperança. O segundo longa foi este Les Vacances de M. Hulot aqui – e aí a crítica do mundo inteiro descobriu um gênio.
O filme foi admitido para a mostra competitiva do Festival de Cannes, o que por si só já é um belo reconhecimento, e levou o prêmio da crítica internacional. Foi indicado ao Oscar de melhor história e roteiro. A admiração mundial foi ampla geral irrestrita – e permaneceu por décadas e décadas. Hoje, abril de 2026, 73 anos após o lançamento, Mr. Hulot’s Holiday tem 100% de aprovação no Tomatometer, resultado da média das opiniões dos críticos consultados pelo site agregador de opiniões Rotten Tomatoes.
E tem 85% de aprovação no Popcornmeter, média da opinião de mais de 5 mil leitores do site – o que acho absolutamente extraordinário, porque, diacho, é natural que os críticos respeitem e aplaudam o filme. Mas ter 85% de aprovação entre o público, o povão, um filme exótico, estranho, sem uma história sensacional, sem grandes astros, preto-e-branco, antigo, “filme de arte”, como costumam dizer os fanáticos por mostras de cinema “de arte”… Meu, isso me parece fantástico, sensacional! Mais fantástico, sensacional do que a unanimidade da crítica!

“Tati foi o último grande mímico do cinema”
Leonard Maltin deu 3,5 estrelas em 4 para Mr. Hulot’s Holiday: “Tati introduziu o delicioso personagem Hulot nesta divertida excursão a um balneário francês; uma doce volta aos tempos da comédia do cinema mudo.”.
Hum… Curtinho – mais foi direto ao ponto o Leonard Maltin.
Vamos ver Pauline Kael, a prima donna da crítica americana que prestava muita atenção ao cinema europeu:
“As pessoas estão no maior desespero quando se empenham em se divertir; este é o peculiar triunfo cômico de Jacques Tati, ter captado o horror das férias de verão em uma praia. Felizmente, sua técnica é leve, a crônica das fraquezas e frustrações humanas nunca se torna piegas ou adorável. Como diretor, co-autor e astro, Tati é raro, excêntrico, rápido. Só depois — com a música doce e nostálgica ainda presente — é que essas desventuras podem adquirir uma certa profundidade e pungência.”
Aqui, trechos do verbete bem longo do CineBooks’ Motion Picture Guide, que dá para Mr. Hulot’s Holiday a cotação máxima, 5 estrelas:
“Jacques Tati, nascido Jacques Tatischeff, era o Charlie Chaplin da França. Ele não fala muito neste filme, que ele também co-escreveu e dirigiu. Ele não precisa falar muito; Tati foi o último grande mímico do cinema. O único problema é que sua obra é bem pequena (e aí o guia enumera todos os filmes que Tati dirigiu. Um curta e sete longa-metragens).
“Se ele tivesse feito apenas Mr. Hulot’s Holiday, seria o Citzen Kane (1941) de Jacques Tati.”
Uau! Isso é que é elogio, meu!
“Não há uma trama neste caos”, diz o guia, depois da longa e detalhada sinopse que transcrevi em parte mais acima. “E no entanto há um método na loucura de Jacques Tati, pois ele deixa que aqueles incidentes separados se acumulem. Embora haja muito pouco diálogo, há uma grande quantidade de sons, brilhantemente usados em muitas gags que Tati parece não perceber. (…)
“Enquanto muitos diretores usam vários tipos de tomadas (planos gerais, close up, etc), Tati coloca sua câmara e deixa a ação acontecer dentro do quadro, algo que Woody Allen passou a fazer com grande sucesso. As pessoas correm para dentro e para fora do quadro e muitas coisas acontecem ao mesmo tempo. Tati deixa que o espectador escolha o que deseja olhar.
“Tati é um comediante na tradição de expressão impassível de Buster Keton, com a inocência de Harry Langdon e um pouco da audácia de Harold Lloyd, A maior parte dos outros atores no filme era de amadores, mas os resultados obtidos desmentem isso. Tati acreditava que seria mais crível com pessoas não conhecidas nos papéis; ele estava certo.”
Que beleza essa observação sobre a câmara, que fica parada, deixando a ação acontecer dentro do quadro! Confesso que, embora seja sempre atento à forma com que o diretor usa a câmara, o tipo de plano que prefere, não tinha notado isso – e é exatamente assim. A câmara fica quieta, e as pessoas, aos borbotões, entram e saem do quadro.

“Uma comédia de memórias, nostalgia, ternura e otimismo”
O Guide des Films de Jean Tulard da cotação máxima de 4 estrelas ao filme, algo bem raro ali. E não poupa elogios:
“Les Vacances de M. Hulot pode ser considerado um marco do cinema. A forma com que Tati encena e interpreta é fora de todo o academicismo, e nesse sentido é precursora da futura Nouvelle Vague. Descobre-se ali pela primeira vez o personagem de M. Hulot com seu cachimbo, suas calças curtas demais e suas inumeráveis gafes. O filme é uma sátira sem maldade da ‘brava gente’ em férias. Tati destrói todos os valores estabelecidos, opondo a eles o marginal Hulot, uma espécie de revelador de um tipo de sociedade. O filme se distingue por suas maravilhosas qualidades humorísticas. Algumas cenas, como a da lição de tênis, permanecem inesquecíveis. Jacques Tati recebeu por Les Vacances de M. Hulot uma avalanche de recompensas, inclusive o prêmio da crítica em Cannes e o prêmio Louis-Delluc em 1953; merece todos elas.”
O grande Roger Ebert incluiu o filme em seu livro The Great Movies, em que comenta os 100 filmes que ele considera os melhores de todos os tempos. Ebert é um crítico de extrema sensibilidade, e, ao contrário da quase totalidade de seus colegas de profissão, não pretende afetar um distanciamento das obras que comenta. Muito ao contrário, ele sempre expõe sua relação pessoal com os filmes que vê – e ele vê filmes porque gosta, não porque tem a obrigação profissional de fazer isso.
Eis aqui trechos do texto de Ebert sobre o filme, na tradução de Miguel Cohn para a edição brasileira de A Magia do Cinema da Ediouro, de 2004:
“A primeira vez que assisti a As Férias St. Hulot, de Jacques Tati, não ri tanto quanto supus que riria. Mas cu não me esqueci do filme: o vi de novo numa aula sobre cinema, a seguir comprei o DVD e o vi pela terceira e pela quarta vez, e então ele já fazia parte do meu tesouro, Mas eu ainda não ria tanto quanto deveria, e agorа астеdito que entendo a razão. Não se trata de uma comédia hilariante, mas de uma comédia de memórias, nostalgia, ternura e otimismo. Há nela momentos em que se ri de verdade, mas As Férias do Sr. Hulot nos dá algo mais raro: uma divertida afeição pela natureza humana – tão singular, tão preciosa, tão particular.”
Mais adiante:
“As Férias do Sr. Hulot é um filme francês, onde dificilmente aparecem algumas palavras. Mais parece um filme mudo com fundo musical (uma melodia sincopada, que sempre se repete), um grande número de efeitos sonoros e vozes entreouvidas num tom baixo. Tati era um palhaço silencioso e o seu Hulot parece não sentir falta de uma boa conversa.
“O filme foi construído com meticulosa atenção ao detalhe, como um Keaton ou um Chaplin. Gags visuais são criadas com tanta paciência que parecem expor misteriosas funções nos relógios do universo. Considerem a cena na qual Hulot está pintando o seu caiaque. A maré leva a sua lata de tinta embora e a traz de volta num timing perfeito, assim que o seu pincel está pronto para mais tinta. Como foi realizada esta cena? É um truque, ou será que Tati fez inúmeras tentativas, até que chegasse à perfeição? É ‘risível’? Não, é milagrosa. O mar é indiferente aos pintores, mas apresenta a lata quando ela é necessária, e a vida continua, e o barco é pintado.”
E ele conclui:
“Quando assisti ao filme pela segunda vez, senti, maravilhado, que tinha voltado para o hotel. Não era a sensação de estar vendo o filme de novo, mas como se eu estivesse reconhecendo as pessoas do ano passado. Ali, de novo o velho casal (bom, conseguiram atravessar mais um ano), o garçom (onde será que ele trabalha no inverno?) e a moça loira (ainda sem homem na sua vida; talvez seja este o verão no qual…).
“Quando um filme conseguira tão sutilmente e tão perfeitamente capturar a nostalgia dos dias felizes do passado? O filme trata do mais simples dos prazeres humanos: o desejo de escapar por alguns dias, de brincar em vez de trabalhar, de respirar o ar marinho e talvez encontrar alguém legal. É sobre as esperanças que se ocultam sob todas as férias e a tristeza de quando terminam. E também é divertido que passemos pelos nossos dias tão atentamente, enquanto o mar e o céu passam pelos deles.”
Ah, meu… Que beleza de texto…

Pessoas desesperadas versus ternura, otimismo
Costumo sempre repetir que, depois de Roger Ebert, não há mais o que falar, mas desta vez vou me desdizer.
Adorei o que Pauline Kael falou – “As pessoas estão no maior desespero quando se empenham em se divertir; este é o peculiar triunfo cômico de Jacques Tati, ter captado o horror das férias de verão em uma praia”.
E adorei também o que diz Roger Ebert: esta é “uma comédia de memórias, nostalgia, ternura e otimismo”, que nos dá “uma divertida afeição pela natureza humana”.
Mas são duas visões antagônicas! Ou bem é uma sátira dura, pessimista, que mostra como é absurda, sem sentido, a vida das pessoas, que entram em total desespero para mostrar que estão felizes, se divertindo, nas férias, ou bem é uma comédia doce, cheia de ternura e otimismo, que nos dá uma divertida afeição pela natureza humana!
Não é uma maravilha que esta obra de arte possa ser vista dessas duas maneiras que parecem opostas – mas que talvez nem sejam tão díspares assim?
Não é verdade que cada espectador vê a obra de arte do jeito que quiser, do jeito que a vida o leva a ver as coisas?
Não é verdade que o copo com água pela metade para uns está meio cheio e para outros meio vazio?
Se você detesta tudo que está à sua frente, se você tem ódio e desprezo pela classe média, como aquela filósofa que se diz marxista e por isso se orgulha de odiar quem não morre de fome, você tem todo o direito de achar todas aquelas pessoas umas arrematadas idiotas.
Mas você não precisa ser a Polyanna para ter simpatia pelas pessoas, mesmo as que tentam, em movimentos desajeitados, desconjuntados, ter momentos felizes nos poucos dias de férias na praia.
Pauline Kael está certa, Roger Ebert está certo, o Guide de Jean Tulard está certo, o Cinebooks’ está certo: Les Vacances de M. Hulot é uma maravilha!
Anotação em abril de 2026
As Férias do Sr. Hulot/Les Vacances de M. Hulot
De Jacques Tati, França, 1953
Com Jacques Tati (M. Hulot)
e Nathalie Pascaud (Martine, a bela lourinha), Micheline Rolla (a tia de Martine), Valentine Camax (a inglesa), André Dubois (o comandante), Suzy Willy (a esposa do comandante), Marguerite Gérard (a mulher que passeia), René Lacourt (o homem que passeia), Louis Pérault (Monsieur Fred), Lucien Frégis (o gerente do hotel), Raymond Carl (o servente), Nicole Chomo (Denise, a jovem escoteira com a mochila), Édouard Francomme (o vizinho de mesa de M. Hulot)
Argumento e roteiro Jacques Tati & Henri Marquet, com a colaboração de Pierre Aubert e Jacques Lagrange
Fotografia Jacques Mercanton, Jean Mousselle
Música Alain Romans
Montagem Jacques Grassi, Charles Bretoneiche, Suzanne Baron
Direção de arte Roger Briaucourt, Henri Schmitt
Produção Fred Orain, Jacques Tati, Discina Film, Cady Films, Specta Films
P&B, 86 min (1h26). Outra versão tem 114 min (1h54)
Fonte: 50 anos de cinema

