8 de agosto de 2022
Colunistas Ricardo Noblat

Ganha velocidade a ruína moral do governo Bolsonaro

Considerado o mês de má sorte na história política do Brasil desde o suicídio do presidente Getúlio Vargas em 1954 e da renúncia do presidente Jânio Quadros em 1961, agosto, este ano, chegou rápido para o governo Bolsonaro.

“Sem pandemia, sem corrupção, com Deus no coração. Ninguém segura esta nação” – bradou Bolsonaro em recente anúncio na televisão e no rádio.

Do novo slogan de sua campanha à reeleição, nada restou. A pandemia ainda mata. Corrupção só cresce. Deus no coração não combina com assédio sexual a funcionárias da Caixa Econômica.

Bolsonaro ganhou mais uma chance de sair em defesa de um dos seus homens de confiança – o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, acusado de roubar e de deixar roubar; e o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, de assediar subordinadas.

Ribeiro continuará sendo defendido pelo presidente da República e ameaçado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado. Guimarães pedirá demissão ainda hoje a pretexto de ir cuidar do processo que o aguarda.

Bolsonaro sabia que Guimarães estava sendo investigado pelo Ministério Público Federal, sabia do depoimento das mulheres abordadas por ele, mas esperava que nada vazasse tão cedo. Vazou.

A pouco mais de 90 dias da eleição presidencial, era ele ou Guimarães, e o presidente da Caixa não teve como ficar. Bolsonaro foi aconselhado pelos que o cercam a demiti-lo imediatamente, e cedeu a contragosto.

Guimarães era um dos seus poucos xodós, companheiro frequente em viagens, o auxiliar mais requisitado por ele para participar de suas barulhentas lives semanais. Bolsonaro conhecia as estripulias de Guimarães, mas fingia que não.

Mal tomou posse como presidente da Caixa, Guimarães foi a Teresina e protagonizou por lá um caso que acabou abafado. Divertiu-se com uma mulher dentro do carro alugado a uma locadora.

Evangélico, chocado com o que viu pelo retrovisor, o motorista, encerrado o serviço, relatou tudo aos seus superiores e pediu demissão. Custou convencê-lo a recuar do pedido.

Se falassem as paredes do estacionamento de veículos do prédio da Caixa Econômica, em Brasília, elas teriam muito o que revelar. Muito mais do que está sendo revelado pelas funcionárias ouvidas até agora pelo Ministério Público Federal.

O ex-ministro da Educação, preso outro dia, solto poucas horas depois, não será abandonado por Bolsonaro. E por um simples motivo: porque foi Bolsonaro que o meteu na arapuca em que caiu.

Por ordem de Bolsonaro, Ribeiro abriu as portas do Ministério da Educação para dois pastores evangélicos de péssima reputação. E eles passaram a cobrar propina para liberar verbas do Fundo Nacional para Desenvolvimento da Educação.

Bolsonaro virou refém dos dois pastores, assim como de Ribeiro. Usará a força do seu cargo para que nada lhes aconteça, do contrário sobrará para ele também. Mas, por mais que possa, não pode tudo.

O Supremo Tribunal Federal o pressiona, e 31 senadores, 4 além do mínimo necessário, assinaram o requerimento para a criação da CPI sobre a roubalheira na Educação.

O governo está gastando rios de dinheiro para impedir que a CPI seja instalada. Do dia da prisão de Ribeiro (22/6) até segunda-feira (27), R$ 4,3 bilhões do Orçamento Secreto foram destinados à construção de obras em locais indicados por deputados e senadores.

Não vai parar por aí. Em desespero, Bolsonaro está disposto a comprar sua reeleição a qualquer preço.

Fonte: Blog do Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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